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Ciência nossa de cada dia

Desde os “filósofos naturais” da Grécia antiga, os pesquisadores têm nos levado a avanços de toda ordem. A Ciência faz parte da vida e não tem data para acabar, graças a novos desafios

Uma coisa é certa e pouca gente ousa duvidar: a humanidade não chegaria aonde está se não fosse a Ciência e, mais ainda, não fosse a curiosidade dos pesquisadores. Se a palavra “cientista” é algo relativamente recente, criada no século XVI pelo padre, filósofo e historiador anglicano William Whewell, desde a Grécia antiga, pensadores como Tales de Mileto e Aristóteles se dedicavam a investigar a natureza, os chamados filósofos naturais. De lá para cá, surgiram as mais diversas correntes do pensamento científico e todos os benefícios que elas podem oferecer, do prato de comida saindo aquecido do micro-ondas às doses de vacinas que nos livram dos mais variados tipos de vírus. Uma corrida por conhecimento que não para nunca — basta ver a mobilização mundial em torno de uma proteção segura contra a Covid-19. “A Ciência faz a humanidade caminhar e a pesquisa ampara esse caminho, sem que os conhecimentos estejam isolados uns dos outros. Tudo o que uma área descobre para tornar a vida humana mais completa e progressista, quando em contato com outra área, associa conhecimentos que se integram e se multiplicam. Veja o exemplo do novo coronavírus: a Medicina dialoga com a Psicologia, a Sociologia, a Economia, a Filosofia, as Letras e as Artes para, em conjunto, encontrarem formas de cuidar da saúde física e psíquica do ser humano”, avalia o psicólogo e pesquisador José Aparecido da Silva, professor sênior na USP de Ribeirão Preto e professor visitante em universidades do Japão, França e Argentina.

Se a saúde é a área mais lembrada por todos quando o assunto é a pesquisa científica, não se pode esquecer o papel da busca baseada em evidências científicas em outros campos do conhecimento humano. “Estabelecer o diálogo entre as diferentes áreas na investigação e compreensão dos problemas e na produção do conhecimento é um desafio que requer superar a fragmentação do conhecimento, própria de uma visão positivista, historicamente prevalente, e avançar na direção de análises mais integradas, o que não elimina a pertinência também de investigar um problema em um campo específico do conhecimento”, aponta a pedagoga e pesquisadora Cristina Cinto Araújo Pedroso, docente da FFCLRP-USP.

 

O papel das universidades

Não se pode falar em Ciência e pesquisa no Brasil sem associá-las às universidades, sejam elas públicas ou privadas. É de lá que saem as principais descobertas para tornar mais seguro, saudável e, por que não, mais fácil, o dia a dia das pessoas. “As universidades têm papel crucial na pesquisa científica no Brasil e no mundo. Possuem o papel de formar pesquisadores e, também, de produzir conhecimentos que venham contribuir para as respostas biológicas, sociais, econômicas e políticas do país”, avalia a professora doutora Neide Aparecida de Souza Lehfeld, coordenadora de Pesquisa e Pós-graduação da Unaerp. “É nas universidades que se produz conhecimento e que se formam pessoas com as competências necessárias para atuar em pesquisa”, completam Andréa Cristina Tomazelli, Raquel Gabrielli Biffi e Joyce Gabrielli, membros da Comissão de Iniciação Científica e Pró-reitora de Pós-graduação, Extensão e Iniciação Científica do Centro Universitário Barão de Mauá.


“As pessoas estão percebendo que somente com investimentos em pesquisas será possível encontrar a cura e a vacina [para a COVID-19]. A Ciência sairá fortalecida deste processo”, registram Andréa Tomazelli, Raquel Biffi e Joyce Gabrielli


Contudo, mesmo com toda a importância das universidades no processo de produção científica no país, seu papel tem sido muitas vezes questionado por correntes de pensamento que levam à desvalorização da ciência e do conhecimento produzido no meio acadêmico. “Os grupos de pesquisa das universidades brasileiras são liderados por cientistas sérios, que almejam fazer descobertas e contribuir para o crescimento do saber e do bem-estar de toda a humanidade”, defende o médico virologista e pesquisador Eurico Arruda, presidente da Comissão de Pesquisa da FMRP-USP (2016-2020).

Corte de verbas ameaça a pesquisa brasileira

De uma hora para outra, com a chegada da pandemia de Covid-19 ao país, as várias esferas de governo — Federal, estaduais e até mesmo municipais —, viram-se obrigadas a investir recursos em Ciência novamente. No entanto, a história recente mostra que tais investimentos, em tempos normais, vêm caindo sistematicamente, ano após ano.

Somente a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), umas das principais agências de fomento à pesquisa no país, viu os recursos federais minguarem 58,4% em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (sem partido), em relação ao ano anterior. Voltando a 2016, o tombo é ainda maior, com redução de investimentos na casa dos 92%.

Cortes seguidos em bolsas fornecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) colocam em risco não só o trabalho atual dos pesquisadores, mas também o futuro da Ciência brasileira. “Reduzir verbas para a pesquisa equivale a matar a Ciência brasileira. Além disso, a redução das bolsas para jovens cientistas em treinamento reduz, também, a competência para fazer pesquisa não somente agora, mas no médio e longo prazo, além de trazer desânimo aos jovens pesquisadores, que acabam por procurar formas de realizar seus sonhos de pesquisador no exterior, o que para o Brasil é uma tragédia”, alerta o professor Eurico Arruda, da USP.“Estamos vivendo época sombria de desvalorização da ciência e do conhecimento. É preciso trabalhar para mostrar ao povo brasileiro que aqui se faz Ciência e combater qualquer desconfiança quanto à aplicação de recursos em ciência e pesquisa”, explica Eurico Arruda

Sem investimento, a produção do meio acadêmico se vê em uma encruzilhada. “Um centro de pesquisas sem investimento não consegue comprar equipamentos ou insumos. Não consegue realizar a manutenção dos aparelhos para condução dos estudos. Sem isso, não é possível realizar uma pesquisa de ponta, que reverta em resultados positivos para o bem-estar da população”, lembra a professora Zumira Aparecida Carneiro, coordenadora de Pesquisa e Extensão do Centro Universitário Estácio de Ribeirão Preto.“É irônico como o maior corte de financiamento em pesquisas na nossa história, como foi feito em 2019, tenha ocorrido pouco antes de o país precisar tanto das pesquisas para enfrentar a pandemia do novo coronavírus”

As lições da pandemia

Se a pandemia do novo Coronavírus trouxe de novo o foco para a Ciência, fazendo com que termos como anticorpos, resposta imune, carga viral e modelo epidemiológico se tornassem palavras cotidianas, em um segundo momento, pode fazer com que a humanidade volte seu olhar para a necessidade de uma melhor sobrevivência de todos. “De modo geral, nos últimos anos, vínhamos nos dedicando à Ciência basicamente para alcançar formas de equilibrar o planeta, no que diz respeito a poluição, desmatamento, fome, violência, tratamento e prevenção de doenças. Com a pandemia, essa dedicação nos fez redescobrir o básico, que é cuidar da sobrevivência saudável da espécie humana no planeta”, avalia o professor José Aparecido da Silva.

“Não há vida saudável sem ciência, pesquisa e tecnologia atuando juntas e harmonicamente”, afirma José Aparecido da SilvaCristina Cinto Araújo Pedroso lembra que não só a saúde tem buscado respostas em meio à pandemia que poderão surtir efeitos positivos no futuro. “As ciências humanas buscam, com recursos teóricos próprios, o enfrentamento dos outros efeitos da doença na vida dos brasileiros. O campo da Educação, especificamente, tem problematizado intensamente a reorganização da escolarização na modalidade remota, com base no conhecimento já acumulado, bem como nos novos conhecimentos produzidos no contexto da pandemia”, exemplifica Cristina.

“Se pretendemos preparar cidadãos críticos, autônomos e comprometidos com as questões sociais, o ensino, orientado pela investigação e o conhecimento científico, deve sustentar o encontro do aluno com o saber”, pontua Cristina PedrosoA professora Neide Lehfeld, da Unaerp, sintetiza o pensamento do que a pandemia de Covid-19 pode trazer como lição. “Penso que a Ciência e a pesquisa serão mais valorizadas e até cobradas pela população daqui em diante. Ainda que a Ciência esteja presente na vida de todos nós, todos os dias, a tora hora, a pandemia talvez esteja atuando com um grande lembrete: precisamos da Ciência para viver e, portanto, precisamos dar a ela o seu devido valor!”“A ciência e a pesquisa serão mais valorizadas e até mesmo mais cobradas pela população, a partir da pandemia de Covid-19”, argumenta Neide Lehfeld

César Lattes, o "quase" Nobel brasileiro

Nos anos 1940, o pesquisador paranaense César Lattes (1924-2005) participou dos estudos que identificaram a partícula méson pi, presente no núcleo dos átomos, e responsável por originar o estudo das partículas elementares. A descoberta rendeu ao grupo, formado, além de Lattes, pelo britânico Cecil Frank Powell e pelo italiano Giuseppe Occhialini, o Prêmio Nobel de Física em 1950, mas, como à época apenas o "chefe" da equipe era agraciado, o prêmio ficou para Powell.

 

 

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