Efeitos colaterais
Oscilando em plano estadual de retomada das atividades econômicas e com índice crescente de contaminação pela Covid-19, Ribeirão Preto sofre graves impactos da pandemia
Sair para as compras no supermercado com máscara. Passar álcool em gel antes de pegar o carrinho. Chegar em casa e tirar os sapatos. Abrir as sacolas e lavar todas as embalagens. Tirar a roupa e tomar banho. Pronto, o ritual recomendado durante a pandemia do novo coronavírus foi concluído com sucesso e tem sido cumprido por parte dos ribeirãopretanos.
Universos particulares
Segundo Rosangela Alves da Silva Guerrera, psicóloga e membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, fatos marcantes, negativos ou positivos, como a pandemia, são experiências que colocam indivíduos diante do inusitado, do novo e, por isso, desconcertante. “Contudo, não necessariamente nos transformam”, pontua Rosangela.
Segundo ela, mudanças bruscas e perda da rotina, além de mudanças ocorridas na vida de quem lida diretamente com a Covid-19, como profissionais de saúde, favorecem a negatividade, mas não há receita a seguir para enfrentar a crise causada pelo novo coronavírus. “Estamos em pleno processo de transição, vivenciando intensamente a pandemia, no meio de uma crise sem precedente, portanto, sem memória que possa nos amparar afetivamente. Para nosso desenvolvimento psicológico, é importante enfrentar e tolerar esse momento, buscar caminhos, aberturas, aprender com essas experiências tão traumáticas algo mais sobre nós mesmos”, reflete a psicóloga.

Ainda de acordo com a especialista, o impacto de um período de medos e incertezas, como uma pandemia, é recebido de forma particular. “As pessoas ficam sensibilizadas pelas notícias e se mantêm informadas, cuidam-se, levam a sério o distanciamento social, evitando contato físico, usando máscaras, seguindo todos protocolos de higiene sugeridos pelos órgãos de saúde e necessários para se protegerem e proteger uns aos outros. Há outro grupo de pessoas, contudo, que vivencia esse momento de modo bem diferente e que, apesar dos fatos, das estatísticas, das notícias do mundo todo sobre esse momento de calamidade, não acredita na letalidade do vírus. Nesse caso, há uma negação da realidade. A negação é um processo psíquico, um recurso da mente para lidar com o inesperado”, explica.
O vaivém
Foi justamente a falta de preocupação dos ribeirãopretanos com a doença que alarmou autoridades sanitárias e fez a cidade regredir no plano de flexibilização do isolamento no Estado de São Paulo.
O Plano São Paulo, também chamado de “retomada consciente” das atividades econômicas do Estado, foi apresentado pelo governador João Doria (PSDB) no dia 29 de maio, classificando as regiões paulistas por cores e números, a partir do nível de gravidade da pandemia. De mais para menos preocupante às autoridades, os municípios são classificados por vermelho (1), laranja (2), amarelo (3), verde (4) e azul (5) — esta última indicada para quando não há mais qualquer restrição. Ribeirão Preto pertence à região do Departamento Regional de Saúde (DRS) XIII, que engloba outros 25 municípios.
Na primeira apresentação do Plano São Paulo, a cidade foi classificada como laranja, podendo, além das atividades essenciais, manter abertos comércio de rua, shoppings centers, escritórios em geral, atividades imobiliárias e serviços, concessionárias e revenda de veículos. Assim, no dia 1º de junho, todos os setores liberados pelo governo estadual foram autorizados a reabrir, a partir do decreto municipal 119, editado pelo prefeito Duarte Nogueira (PSDB).
A retomada das atividades paralisadas desde 19 de março, quando foi decretado o estado de emergência em Ribeirão Preto, empolgou o comércio. No primeiro dia de liberação, 73 dias após o fechamento, o Calçadão, no Centro de Ribeirão Preto, registrou fluxo atípico de consumidores e aglomeração de pessoas, preocupando autoridades sanitárias, e o movimento só cresceu. “Chegamos a 10 dias da reabertura, mas, mesmo antes dela, a cidade já estava com alternativas de escape das medidas de distanciamento. A população já não vinha fazendo uma quarentena adequada. Infelizmente, foi-se muito mais à rua do que o esperado”, pontuou, à ocasião, o secretário municipal de Saúde, Sandro Scarpelini.

Segundo levantamento da reportagem da Revide a partir de dados disponibilizados pela Secretaria Municipal da Saúde, o aumento do número de casos em Ribeirão Preto entre as duas primeiras semanas de abril foi de 107. Nas duas primeiras semanas de maio, foram 221 novas ocorrências. Já nos primeiros 10 dias de abertura das atividades não essenciais, o número de contaminados na cidade saltou de 1.217 para 2.028 — um crescimento de 811 novos registros.
Para o físico e líder do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da USP, Domingos Alves, o aumento era esperado após a flexibilização das atividades. “Nas duas primeiras semanas de maio, tínhamos um crescimento da curva de casos mais lento. Quando começaram a fazer mais testes, a curva inclinou e, em junho, aumentou mais ainda. Tudo isso está relacionado ao que vem acontecendo em Ribeirão Preto a partir dessa data. Houve uma explosão de pessoas nas ruas sem fiscalização adequada”, avalia.
O aumento na quantidade de pacientes contaminados pelo novo coronavírus foi um dos critérios utilizados pelo Estado para determinar que a cidade retrocedesse no plano de retomada, em 10 de junho. “Na avaliação do Plano São Paulo, a região de Ribeirão Preto apresentou piora em três dos cinco critérios técnicos utilizados para analisar a restrição ou flexibilização dos serviços, entre eles, um aumento de 100% nos óbitos, 75% de crescimento do número de casos, além de 51% de aumento no número de internações”, pontou o governo estadual por meio de nota.

A quantidade de óbitos apontada como um dos indicadores para a regressão de Ribeirão Preto dobrou entre o final de maio e o início de junho — quando a cidade começou a flexibilizar o isolamento. Entre 20 e 31 de maio, foram registradas 11 mortes no município, de acordo com a Secretaria Municipal da Saúde. Já entre 1º e 10 de junho, o número de vítimas da Covid-19 foi de 26, quase a metade do total registrado desde o início da pandemia no município, que soma 53 óbitos.
De volta à fase vermelha, nos quatro balanços seguintes apresentados pelo governo estadual — dias 19 de junho, 26 de junho, 03 de julho e 10 de julho —, a situação de Ribeirão Preto permaneceu inalterada, com apenas a liberação dos serviços essenciais na cidade.
Com a permanência de Ribeirão Preto na faixa vermelha, entidades da cidade se manifestaram. A Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), presidida pelo empresário Dorival Balbino, foi enfática nas críticas ao fechamento do comércio, citando que o crescimento do número de casos, um dos indicadores mais graves da região, foi causado pelo “aumento no número de testes”.
A Acirp também criticou a falta de alternativas oferecidas aos comerciantes. "Não basta fechar serviços considerados não essenciais sem que se apresentem alternativas viáveis, que respeitem, ao mesmo tempo, a integridade física do ribeirãopretano e permitam ao empresariado sobreviver. Na prática, o poder público trancou a porta e jogou fora a chave". A Associação alegou que tem "preenchido as lacunas deixadas pelos governos" e que segue "apresentando soluções que, ao menos, façam com que o empresariado local possa ter um alento".
Já Paulo César Garcia Lopes, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto (Sincovarp), citou a importância de as pessoas respeitarem os protocolos de prevenção para que Ribeirão Preto avance no Plano São Paulo. "A população precisa colaborar saindo de casa somente para o que for necessário, usando máscara de proteção, respeitando o distanciamento e evitando aglomerações. Se cada um fizer sua parte, as empresas voltarão a abrir para o público. Precisamos reabrir o quanto antes e, mais do que isso, temos de permanecer abertos. Todos precisam ajudar", afirmou.

Contudo, ele também criticou as medidas do governo. "Todos os municípios paulistas estão nas mãos do governo estadual, que é quem tem o poder de decidir onde, quando, quais setores e por quanto tempo o comércio poderá abrir. Infelizmente, os indicadores do momento são desfavoráveis. A permanência de Ribeirão Preto na fase vermelha vai intensificar a crise socioeconômica que já atinge, de forma grave, nossa cidade e região. Serão mais demissões e fechamento de empresas", lamentou Paulo.
Ligeira melhora
Nas últimas semanas, Ribeirão Preto registrou ligeira melhora nos índices, com aumento do isolamento social na cidade e leve queda nas internações. Ainda longe do ideal, a taxa de isolamento chegou a 51% no domingo, 12 de julho — segundo especialistas, para conter o avanço da Covid-19, ela deveria girar em torno de 70% e, na cidade, fica por volta de 40%. Nos hospitais, as internações registraram pequena mudança.
“Tivemos uma redução no percentual de ocupação, que ficou bem crítico na semana passada, e agora estamos com 93,8% de ocupação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Quanto aos leitos de enfermaria, dos 220 disponíveis, estamos com 207 ocupados, uma taxa de 94,1%”, informou o prefeito Duarte Nogueira. A cidade já havia atingido, em 9 de julho, índice de 99% no uso de leitos.
Casos e óbitos em Ribeirão Preto
Fonte: Secretaria de Saúde de Ribeirão Preto
03 de junho
Casos..................................1.480
Óbitos................................30
10 de junho
Casos..................................2.139
Óbitos................................53
19 de junho
Casos..................................3.412
Óbitos................................94
26 de junho
Casos..................................4.483
Óbitos................................140
03 de julho
Casos..................................5.814
Óbitos................................182
10 de julho
Casos..................................7.560
Óbitos................................225