No passado, a chave da identidade
Entre construções comerciais e residenciais com características mais atuais, casas centenárias permanecem arraigadas no centro de Ribeirão Preto, compondo parte do patrimônio histórico da cidade
A preservação da memória de um povo está diretamente relacionada à conservação de seu patrimônio cultural. A paisagem de Ribeirão Preto ainda guarda resquícios de uma época rica, com grandes casarões e minuciosos detalhes arquitetônicos que enchiam os olhos dos barões do café. A ação do tempo e do homem levou embora algumas dessas histórias escritas em alicerces sólidos, já outras construções ainda permanecem imponentes, cultivando as lembranças de um povo e aguçando a curiosidade dos mais jovens que passam rapidamente em meio à tanta cultura.
A preocupação com os patrimônios históricos da cidade não é um assunto recente. Inúmeras vezes foram discutidas a preservação e a recuperação da história do Município. Contudo, o processo de tombamento nem sempre é garantia de perpetuidade dessa memória, que, na maioria das vezes, desfaz-se pela falta de incentivos públicos e privados ou pela falta de informação da população. Até duas décadas atrás, o patrimônio histórico era definido quase que exclusivamente por bens de natureza material móveis e imóveis, que possuíam valor histórico ou arquitetônico atribuídos por especialistas e protegidos pelo tombamento. Por volta da década de 1980, ocorreram mudanças significativas na percepção desse conceito, consolidadas na Constituição de 1988. No documento, foi definido como patrimônio não somente os chamados bens de “pedra e cal”, mas também o conjunto de bens imateriais, intangíveis, que constituem a herança cultural do povo brasileiro.
Com isso, o Brasil foi reconhecido como um país caracterizado pela diversidade cultural, por várias identidades que precisavam ter a sua cultura protegida como forma de garantir qualidade de vida. Na prática, os órgãos de preservação teriam o desafio de operacionalizar os processos, levando em conta outros valores, além do histórico e do arquitetônico. Elementos como afetividade, relações de pertencimento, atividade econômica ancestral, entre outros, passaram a ser considerados como fundamentais para definir o patrimônio cultural.
Para a historiadora e vice-presidente do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa, preservar a herança cultural — material e imaterial — significa garantir o reconhecimento, a manutenção e o fortalecimento dos laços de pertencimento entre o morador e sua cidade. “Nesse mundo cada vez mais veloz, marcado por profundas transformações, o cidadão vem perdendo sua ancoragem social. Se ele não se reconhecer no lugar onde vive, também não se sente responsável, não participa, não atua como cocriador do lugar”, esclarece. Para a historiadora, o cidadão que não se reconhecer na cidade, tendo a certeza de que ele é parte da sua história também, torna-se apenas um usuário, sem participação efetiva na sociedade em que vive.
Essa visão é compartilhada pela presidente do Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Ribeirão Preto (CONPPAC-RP), Noemi Olímpia Costa Pereira. “É importante que o cidadão tenha orgulho daquele patrimônio, pois ele realmente representa a cidade em que vivemos. Esses imóveis são carregados de histórias que poderão ser contadas para as futuras gerações”, pontua.
Os monumentos históricos ocupam lugar de destaque no cotidiano e na economia da sociedade moderna. Alguns órgãos ribeirãopretanos participam ativamente do movimento de valorização desses patrimônios, pois cabe a eles, na maioria das vezes, a decisão sobre o que deverá ser preservado através das ações de tombamento conduzidas a nível federal, estadual ou municipal. Criado em outubro de 1996, pela Lei n. 7.521, o CONPPAC-RP é um dos órgãos que trabalham pelo fomento e pela difusão da memória ribeirãopretana. Na cidade, cerca de 36 prédios compõem a lista de “bens sob regime de proteção”, definitivos e provisórios. Alguns deles receberam o título de patrimônio histórico, em reconhecimento à importância cultural, enquanto outros estão em ruínas ou se tornaram abrigos para moradores em situação de risco.
Para Lilian, a preservação desses patrimônios é essencial para manter o ambiente no qual os ribeirãopretanos se reconhecem. Em outras palavras, é de suma importância continuar estudando, inventariando e selecionando o que deve constituir o acervo que é chamado de patrimônio cultural do município. “É a matéria-prima da identidade cultural. Por isso, o trabalho do CONPPAC é tão importante. Contudo, o que se vê é a atuação em apenas uma das pontas da política pública: a seleção dos bens que serão tombados como patrimônio. Somente o tombamento não garante o patrimônio nas dimensões acima mencionadas. Deve-se estabelecer políticas integradas entre as várias secretarias municipais para que haja a manutenção e a concretização do potencial econômico e cidadão do patrimônio”, frisa a historiadora.
O CONPPAC objetiva estender a discussão sobre a preservação do patrimônio, contribuir para o aprofundamento das reflexões sobre a importância dos monumentos e, principalmente, disseminar a necessidade da participação efetiva da sociedade civil, dos poderes públicos e da comunidade nessa missão. “O Conselho se reúne para deliberar sobre os processos. A pesquisa e a análise são feitas pelo corpo técnico, que trabalha incansavelmente, uma vez que são funcionários públicos em outras funções que acumulam a responsabilidade de compor a base técnica para decisões”, comenta a presidente. Noemi ressalta, ainda, que o laudo elaborado pelo corpo técnico é analisado pelo Conselho, que delibera sobre o tombamento em questão. As reuniões são públicas e qualquer cidadão pode participar, inclusive, com direito a voz, mas não ao voto.
Em 2010, a Secretaria da Cultura realizou uma pesquisa com a população sobre o tema e mais de 80% dos entrevistados reconheceu a importância de se preservar o patrimônio. Todavia, segundo Lilian, é questão-chave assimilar isso como uma responsabilidade de todos e não apenas do executivo municipal. “Para que isso ocorra, o patrimônio deve ser tema constante de debate, matéria na educação formal e pauta de discussão em conselhos, Câmara de Vereadores, reuniões de bairros, entre outras oportunidades. Tudo é uma questão de difusão do conhecimento”, reforça.
A falta de informação interfere nas ações de preservação do patrimônio histórico. O tombamento não é uma ação divulgada, embora seja um mecanismo legal e antigo. Poucos sabem, por exemplo, que o processo pode ser acionado também pela iniciativa privada, seja individual ou em grupo. Depois do tombamento, cabe ao proprietário a conservação das características do seu imóvel, mas, em compensação, poderá usufruir de alguns benefícios. Nos dois casos, quando o assunto é a preservação e recuperação dos patrimônios, deve haver a corresponsabilidade do poder público e da sociedade civil. “Um plano de gestão para a área é urgente. Neste plano, já viria inserido o planejamento para vários setores: Educação, Planejamento, Obras, Infraestrutura, Governo, Cultura”, salienta Lilian.
Segundo a presidente do CONPPAC, o caminho é a educação patrimonial. Afinal, esse trabalho acontece aos poucos e deve ser iniciado em sala de aula. Lilian argumenta a necessidade de conscientizar as pessoas, desde o início da aprendizagem, a ter esse olhar sensível ao patrimônio.
Em muitos casos, os moradores acreditam que um imóvel tombado no século XX deve permanecer congelado, mas não é esse o trabalho do CONPPAC. O Conselho tem a função de analisar os projetos apresentados para intervenções no imóvel e somente não concorda com aquelas que o descaracterizam, mas está de acordo, principalmente, com alterações que garantem a acessibilidade ao bem, entre outras ações analisadas caso a caso. “Se a memória não for preservada, as futuras gerações somente a conhecerão dos livros ou pelos relatos orais. Seria uma grande perda”, enfatiza a presidente.
Noemi acrescenta que outra alternativa a ser trabalhada em função da atuação do CONPPAC é contar com a colaboração das universidades com o corpo técnico. “Acredito que as instituições de Ensino Superior podem ter uma atuação mais firme. Por exemplo, como o corpo técnico tem uma série de impedimentos, as faculdades podem colaborar de acordo com os cursos. Assim, os alunos e professores envolvidos adquirem experiências e auxiliam os membros do Conselho com o laudo técnico”, avalia Noemi.
Ação colocada em prática
Exatamente essa união, entre proprietários e as universidades, ocorre no projeto de restauração do Palacete Jorge Lobato. Uma parceria firmada entre o Núcleo de Arquitetura do Centro Universitário Moura Lacerda e os atuais proprietários do palacete, o engenheiro civil Hector Sominami Lopes e a arquiteta e urbanista Ingrid Sominami Lopes, ambos graduados pela instituição, objetiva revitalizar o imóvel, construído no início da década de 1920, no cruzamento das ruas Álvares Cabral e Florêncio de Abreu. Os proprietários pretendem construir no local um café com um espaço voltado à arte. “A obra será em homenagem a 1922, ano de construção do imóvel e à realização da Semana da Arte Moderna”, explica Ingrid.
Avaliado por corretores em R$ 2,5 milhões, em 2013, o Palacete Jorge Lobato foi posto à venda e quase se transformou em uma agência bancária. No entanto, o imóvel, de aproximadamente 760 m² com itens luxuosos ao estilo art deco, foi comprado pela família Sominami Lopes em janeiro deste ano. Os proprietários ressaltam a importância do investimento no patrimônio histórico e cultural da cidade: “É um investimento economicamente viável”, explica Hector, que convida a população a abraçar o projeto, pois, segundo ele, o imóvel será um bem para Ribeirão Preto. Após a conclusão do estudo de levantamento realizado pelo Núcleo de Arquitetura do Centro Universitário Moura Lacerda, os proprietários já sinalizaram que pretendem captar recurso através de incentivos fiscais.
Ação colocada em prática
Exatamente essa união, entre proprietários e as universidades, ocorre no projeto de restauração do Palacete Jorge Lobato. Uma parceria firmada entre o Núcleo de Arquitetura do Centro Universitário Moura Lacerda e os atuais proprietários do palacete, o engenheiro civil Hector Sominami Lopes e a arquiteta e urbanista Ingrid Sominami Lopes, ambos graduados pela instituição, objetiva revitalizar o imóvel, construído no início da década de 1920, no cruzamento das ruas Álvares Cabral e Florêncio de Abreu. Os proprietários pretendem construir no local um café com um espaço voltado à arte. “A obra será em homenagem a 1922, ano de construção do imóvel e à realização da Semana da Arte Moderna”, explica Ingrid.
Avaliado por corretores em R$ 2,5 milhões, em 2013, o Palacete Jorge Lobato foi posto à venda e quase se transformou em uma agência bancária. No entanto, o imóvel, de aproximadamente 760 m² com itens luxuosos ao estilo art deco, foi comprado pela família Sominami Lopes em janeiro deste ano. Os proprietários ressaltam a importância do investimento no patrimônio histórico e cultural da cidade: “É um investimento economicamente viável”, explica Hector, que convida a população a abraçar o projeto, pois, segundo ele, o imóvel será um bem para Ribeirão Preto. Após a conclusão do estudo de levantamento realizado pelo Núcleo de Arquitetura do Centro Universitário Moura Lacerda, os proprietários já sinalizaram que pretendem captar recurso através de incentivos fiscais.
Outras iniciativas de destaque
Alguns prédios patrimoniais já são de uso da população há algum tempo, como o Theatro Pedro II, o Pinguim, o Centro Cultural Palace, a União Geral dos Trabalhadores de Ribeirão Preto (UGT) e a Biblioteca Altino Arantes. Esses imóveis servem de inspiração para quem deseja lutar pela preservação da história. Restaurados, os casarões movimentam de maneira positiva a área central da cidade, levando as pessoas para os espaços em horários alternados.
Seguindo o exemplo dos prédios restaurados está a Casa da Memória Italiana, um lugar único, reservado para resgatar a trajetória dos imigrantes europeus na cidade, em especial, os italianos. O charmoso casarão da rua Tibiriçá, 776, adquirido por Edilah Biagi e Weimar Marchesi Amorim, foi doado ao Instituto Casa da Memória Italiana. Construído em 1925 por Joaquina Evarista Meirelles, o imóvel foi comprado pelo empresário do setor sucroenergético Pedro Biagi, em 1941, e teve como últimas moradoras suas filhas, Osônia e Ângela.
Desde o falecimento das duas, os outros membros da família entenderam que tinham o dever de dar uma finalidade nobre à casa, transformando-a em uma referência da imigração no Brasil. “Esse trabalho está sendo feito brilhantemente pela presidente do Instituto Casa da Memória Italiana, Weimar Marchesi de Amorim, e um grupo muito especial de voluntários que, junto com a turma do dia a dia, fazem um trabalho exemplar, sem falar do cônsul italiano em Ribeirão Preto, Vincenzo Spedicato, entusiasta do projeto e apoiador desde o primeiro momento”, declara o vice-presidente do Instituto e empresário, Maurilio Biagi Filho.
Maurilio acredita que mais do que uma questão de conscientização, a importância da preservação dos patrimônios históricos é uma questão de cidadania. “Uma cidade sem suas referências históricas não pode compreender completamente seu passado e sua cultura, de maneira que terá dificuldades para projetar seu desenvolvimento futuro. A Casa da Memória Italiana é um projeto fantástico nesse sentido. Os imigrantes de todos os países que aqui chegaram, os italianos em maior número e seus descendentes, têm e sempre tiveram um papel fundamental na formação da nossa região. Resgatar e preservar essa parte da história, que diz respeito à nossa identidade, é muito importante”, avalia Maurilio.
Nesse período em que o Instituto Casa da Memória Italiana trabalha para a implantação do Museu Casa, com atividade de pesquisa e organização de seu acervo, está sendo disponibilizada ao público uma visita monitorada, com agendamento prévio. Isso possibilita o conhecimento desse patrimônio arquitetônico, decorativo e histórico, e também disponibiliza a fala e o registro de ideias dos visitantes para o desenvolvimento de ações no futuro Museu.
Diante de casos como esses, de iniciativas que objetivam a utilização dos patrimônios históricos, o IPCCIC apresenta propostas para cada imóvel e compartilha da visão de que o sucesso de uma iniciativa depende da integração do outro e que juntos todos ganham com um centro revitalizado. “O IPCCIC atua pensando em alternativas de gestão que envolvam as dimensões cidadã, cultural e econômica de maneira integrada. A partir disso, o Instituto realiza diagnósticos e apresenta propostas individuais”, finaliza Lilian.

Espaço para todos
No período em que o Instituto Casa da Memória Italiana trabalha para a implantação do Museu Casa, com atividade de pesquisa e organização de seu acervo, está sendo disponibilizada ao público uma visita monitorada, com agendamento prévio. Isso possibilita conhecer esse patrimônio arquitetônico, decorativo e histórico, e também disponibiliza a fala e o registro de ideias dos visitantes para desenvolvimento de ações no futuro Museu. Dentre as principais ações destacadas, foram priorizados workshops de culinária italiana, curso de idioma, palestras e oficinas de arte. Ainda estão previstas exposições de Arte Contemporânea, no espaço da casa, para discutir e abordar temas relativos às questões desse bem e da memória da imigração.
17 de setembro (quinta-feira) às 14h
26 de setembro (sábado) às 10h
Para confirmar presença, é necessário encaminhar o nome das pessoas interessadas e o telefone, para contato para o e-mail [email protected] ou pelo (16) 3625.0692. Fica na Rua Tibiriçá, 776 (Centro).
Resgate a história
Para contribuir com esse resgate da memória de Ribeirão Preto, a Revide selecionou alguns prédios históricos que podem ser vistos no itinerário cotidiano.
- Palacete Camilo de Mattos
Localizado no número 625 da rua Duque de Caxias, na região central da cidade, é considerado um dos importantes imóveis remanescentes do período do café. Edificado entre 1921 e 1927, o Palacete foi residência do ex-prefeito da cidade, Camilo de Mattos. Segundo pesquisadores, a sua localização privilegiada, em frente à praça XV de Novembro, pode ser interpretada como integrante do movimento de instalação de residências da classe média ascendente e dos ricos fazendeiros na região central da cidade, local onde foram feitos grandes investimentos urbanísticos.
Denominação: Palacete Camilo de Mattos
Endereço: Rua: Duque de Caxias, 625
Órgão de proteção: CONPPAC
Tipo de proteção: Tombamento definitivo municipal
Instrumentos legais de preservação: Decreto Municipal nº 221 de 15/07/2008. Tombo nº 0015
Bem público ou privado: Privado
- Hotel Brasil
Situado na esquina entre a Avenida Jerônimo Gonçalves e a rua General Osório, o Hotel Brasil foi construído em 1930 e já foi considerado um dos cartões postais de Ribeirão Preto, conhecido por ter hospedado autoridades políticas, membros de associações internacionais e clubes como Boca Juniors e River Plate, entre os anos 1930 e 1955. O Hotel Brasil faz parte da história de famílias importantes para Ribeirão Preto. O projeto de construção inicial do imóvel é de Vicente Viccari com a colaboração do engenheiro Antônio Soares Romeo.
Endereço: Esquina da Avenida Jerônimo Gonçalves com a Rua General Osório
Tombado: não tem decreto ainda
- Palacete Jorge Lobato
Localizado no centro da cidade, o palacete Jorge Lobato representa um marco para a história de Ribeirão Preto. Situado à rua Álvares Cabral, o imóvel ainda guarda resquícios arquitetônicos da época em que foi construído, por volta de 1922. Trata-se de uma das inúmeras referências históricas do município. Além disso, o imóvel também foi um dos pontos de encontro de políticos da época.
Denominação: Palacete Jorge Lobato
Endereço: Rua: Álvares Cabral, 716
Órgão de proteção: CONPPAC
Tipo de proteção: Tombamento definitivo municipal
Instrumentos legais de preservação: Decreto Municipal nº 219 de 11/07/2008. Tombo nº 009
Bem público ou privado: Privado
Texto: Pâmela Silva