Paisagem de concreto

Paisagem de concreto

Na região central da cidade, a população sofre com poucas áreas verdes e o excesso de edificações

Inserido na paisagem urbana, o verde proporciona uma série de benefícios para a cidade e para a população. O sombreamento, o aumento da umidade relativa do ar, a diminuição da temperatura, em torno de 2º a 4ºC, a retenção das partículas de poluição, o conforto acústico, a redução do impacto da água da chuva e a conservação da biodiversidade são alguns deles. De certa maneira, os elementos da natureza servem como um contraponto, uma fonte de equilíbrio e de vida que minimiza o impacto gerado pelo excesso de concreto. Porém, basta dar uma rápida volta pelas ruas para constatar que o centro de Ribeirão Preto está longe de ser um exemplo no quesito ambiental. “A região central possui cinco praças: XV de Novembro, Carlos Gomes, das Bandeiras (Catedral), Luiz de Camões e Sete de Setembro. Elas correspondem a menos de 4% da área do quadrilátero, bem diferente do mínimo exigido atualmente para parcelamentos do solo, que é de 20% da área a ser loteada”, explica o secretário do meio ambiente, Daniel Marques Gobbi.

Por se tratar de área densamente edificada e totalmente consolidada, não há espaços disponíveis para a criação de mais praças no local. Com o objetivo de encontrar outras maneiras de combater esse déficit, foi realizado, em 2012, um censo de arborização. Depois que os dados coletados foram verificados, concluiu-se que era possível triplicar o número de árvores nas calçadas. Entre 2012 e 2013, os imóveis da região foram visitados e os munícipes, convidados a aderir ao programa “Vamos Arborizar Ribeirão Preto”, que incentiva o plantio consciente, com orientações sobre as espécies adequadas para cada caso e sobre os cuidados necessários. “Os resultados foram modestos devido às características físico-urbanísticas, como calçadas estreitas e fiação aérea”, revela o secretário. Ainda segundo Gobbi, a predominância de imóveis comerciais foi mais um fator que acabou prejudicando a ação, pois, nesses estabelecimentos, geralmente, há uma resistência maior à presença de árvores.

Justamente por isso, recentemente, houve um contato com a Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP). A ideia é contar com o apoio da entidade, que desempenharia o papel de mediadora junto aos comerciantes, dissipando esse receio que muitos empresários ainda têm em adotar de vez essa nobre causa. Outro colaborador importante da Prefeitura na implantação de projetos para melhoria da arborização urbana tem sido o Ministério Público. “Por meio de acordos de compensação ambiental celebrados nos inquéritos civis e ações civis públicas, conseguimos que particulares se comprometam a recuperar ou a constituir áreas verdes indicadas pela municipalidade”, comenta o promotor de justiça do meio ambiente, Ramon Lopes Neto.

Se as árvores estão escassas pelas ruas e o centro não possui terrenos livres para abrigar novas praças, é preciso redobrar a atenção com as já existentes. Entretanto, o investimento nesse segmento ainda é insuficiente. “Para que essas praças possam ser devidamente ocupadas pela população, elas precisam ter uma boa manutenção. Essa tarefa é obrigação da administração pública. Infelizmente, em uma cidade do porte de Ribeirão Preto, a agenda repleta de demandas nem sempre permite que o cronograma seja mantido rigorosamente em dia. Também falta uma articulação maior entre vários setores para fomentar mais atividades de esporte, de cultura e de lazer nesses espaços”, esclarece o secretário. O promotor de justiça concorda que o estado em que as praças se encontram, em termos de arborização, limpeza, segurança, infraestrutura, entre outros, guarda uma relação direta com o bom uso delas pelo cidadão.

Aliás, esse mesmo munícipe deve compartilhar da responsabilidade de conservar as áreas verdes com as autoridades. “Trata-se de um espaço público, portanto, pertence a todos. A população também tem a obrigação, o compromisso de zelar pela qualidade dessas praças. Medidas simples, como não depositar lixo e entulho, não arrancar as plantas e não depredar o mobiliário, por exemplo, fazem toda a diferença. É um lugar voltado para o bem-estar social, um patrimônio que, como tal, tem que ser preservado”, ressalta Daniel.

Frequentadora assídua da Praça Sete de Setembro, Rebecca Sampaio de Mendonça, de 16 anos, sabe o quanto é gostoso ter um refúgio como esse perto de casa. “Moro na rua São Sebastião. Sofro com a falta de árvores e com o calor. Por isso, prefiro vir até a Praça para passear com a minha cachorrinha, a Nina, e para me exercitar. Só evito vir muito tarde, pois a iluminação é precária e não me sinto tão segura. Como utilizo bastante o ambiente, entendo que devo fazer a minha parte para mantê-lo em condições de uso. Se mais pessoas pensassem assim e se envolvessem, seria ainda melhor”, pontua a estudante.

Objeto de estudo
A preservação do meio ambiente é vital e a necessidade de espaços verdes urbanos é crescente na cidade, com destaque para o centro, tanto pelo aspecto ecológico e microclimático, quanto pela parte social, como um ambiente propício para o lazer, para a interação do ser humano com a natureza e para a prática de atividades físicas. Por isso, o tema entrou na pauta do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC). O Instituto objetiva estudar a realidade da cidade e, a partir de diagnósticos específicos em cada local, criar programas de ações integradas entre o Poder Público e a sociedade para a transformação das cidades em lugares criativos.

Abrangente, o estudo pretende problematizar os conflitos, permitindo a compreensão crítica, a ação política e a construção coletiva de um novo modelo de relacionamento homem-natureza por meio da educação para cidadania, do sentimento de pertencimento e do diálogo. “Devemos estimular o engajamento da população e a corresponsabilidade política através da capacitação de gestores. Queremos elaborar propostas inovadoras e sustentáveis que tragam, de fato, mudanças socioambientais”, descreve a engenheira química, coordenadora do curso de Engenharia Ambiental do Centro Universitário Barão de Mauá e integrante do IPCCIC, Maria Paula Freitas Galvão César. 

 
Texto: Paula Zuliani

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