Pequeno leitor grande cidadão, None

Pequeno leitor grande cidadão

Comemorado em 18 de abril, em homenagem a Monteiro Lobato, o Dia Nacional do Livro Infantil cria a oportunidade para adultos, repensarem o papel da literatura infantil em suas vidas

Embora o Dia Internacional do Livro Infantil seja comemorado em 2 de abril, no Brasil, o dia 18 de abril foi escolhido para celebrar o Dia Nacional do Livro Infantil. A data não foi escolhida ao acaso, mas pela justa homenagem a um dos maiores escritores brasileiros, Monteiro Lobato. Nascido em 18 de abril de 1882, ele foi precursor da literatura infantojuvenil no país, autor de inúmeros títulos e criador dos imortalizados personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo: Dona Benta, Pedrinho, Narizinho, Tia Nastácia, Emília e Visconde de Sabugosa.

Treze anos após ser instituída (criada pela Lei 10.402/02), a data comemorativa, no entanto, não está entre as mais lembradas pelo público ou mesmo aguardadas pelo comércio. Isso porque, no Brasil, o mercado editorial da literatura infantil, apesar de representar enorme fatia, com crescimento de vendas e do número de títulos lançados todos os anos, enfrenta, além da falta de leitores, problemas de distribuição e a consequente dependência de compras governamentais, sem as quais muitas pequenas editoras já estariam fechadas.

Segundo dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o total de exemplares produzidos na área temática “literatura infantil”, em 2013, foi de 39.269.715, o que representa uma participação de 8,39% do mercado e um crescimento de 6,58% em relação a 2012. Em levantamento recente, feito pelo SNEL e pelo Instituto de Pesquisa Nielsen, tendo por base o resultado do BookScan Brasil, que apura as vendas das principais livrarias e supermercados, os gêneros “infantil, juvenil e educacional” apresentaram o melhor desempenho no primeiro trimestre de 2015, com um crescimento de 6,8% no faturamento.

Com o “empurrãozinho” da data especial, caso ela fosse mais difundida, quem sabe esse resultado no segundo trimestre pudesse ser superado e até aguardado com maior expectativa pelo setor, assim como o Dia das Mães, dos Pais, das Crianças e o Natal. Com isso, ganharia não apenas o mercado editorial, mas o país; que o diga Murillo Salles Machado, pai de Lucas Paron, de seis anos, que encontrou o verdadeiro prazer da leitura junto com o filho. “Acho que sou um bom exemplo. Nunca fui fã de leitura, em parte pela preguiça, em parte porque meus pais nunca mostraram o quanto ela pode ser interessante. Ler, para mim, sempre foi uma obrigação, uma tarefa escolar, mas para o Lucas ler é diversão. Acho que quando ele já estiver lendo bem sozinho, terá mais interesse em buscar novas histórias do que eu tive”, avalia o médico radiologista.

 QUEM CONTA A HISTÓRIA

A história de Murillo e Lucas com os livros infantis começou tímida e se tornou, segundo ele, o melhor momento do seu dia. “Eu não ouvia histórias dos meus pais quando pequeno, mas sempre tive vontade, vendo isso em filmes e desenhos. Comecei a me juntar ao Lucas para rezar e depois ouvir histórias. Confesso que, no começo, aproveitava tanto quanto ele porque minha esposa [Juliane Paron] conta história como se deve, entonando a voz quando preciso, fazendo pausas e dando explicações. Foi um período de aprendizado, em que me via curtindo e, ao mesmo tempo, aprendendo como se faz, já que nunca tive esta referência”, conta o pai. Logo, ele começou a contar histórias e a primeira talvez tenha marcado mais a ele do que ao filho. Eles encontraram um estilo que os dois gostam: a comédia. Lucas sempre pede para Murillo usar sotaques engraçados e esse é jeito deles lerem juntos. No último Dia dos Pais, Murillo ganhou de Lucas um livro sobre pai e filho. “Esse foi o primeiro indicativo dele me chamar de pai, pois eu sou ‘paidrasto’. Com a leitura dos livros infantis, ele ganha uma história antes de dormir e eu uma imensa alegria”, reforça o médico.

Alexsandra Boeira de Souza, psicóloga e empresária, mãe de Francisco de Souza Holdschip, de sete anos, e de João Felipe de Souza Mello, de cinco anos, é outro exemplo. Ela lê para os filhos todos os dias porque acredita que através das histórias eles encontram soluções para seus conflitos, coragem para superar medos, além de se divertirem e enriquecerem seu mundo interior. Eles gostam dos Contos de Grimm e de livros com animais. “No momento, estou lendo ‘Histórias Curativas para Comportamentos Desafiadores’, da Susan Perrow, leitura antroposófica. No livro, as crianças cultivam a fantasia, vivenciam boas experiências, bons exemplos, e reconhecem aspectos de sua vida real e imaginária. O livro preenche e enriquece a criança com belas imagens, ajudando-a a superar suas dificuldades e auxiliando-a em seu desenvolvimento”, afirma Alexsandra, que sempre leu muito e se recorda do livro “Os Doze Trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato, ter marcado sua infância.

 QUEM FAZ A HISTÓRIA

Do outro lado da história, o de quem escreve e ilustra os livros infantis, alguns profissionais de Ribeirão Preto têm considerações importantes a fazer. Renato Andrade, desenhista, cartunista, artista gráfico e ilustrador está entre eles. Pai de Théo, de onze anos, e de Lino, de sete anos, ele afirma que contar histórias para os filhos se tornou um exercício de criação.  “Passei da leitura dos livros infantis à imaginação de minhas próprias histórias. É uma sensação maravilhosa. Esse é um momento muito gostoso, em que você está se relacionando com seu filho, e isso tem que ser levado muito a sério”, considera Renato, lembrando do seu avô contando causos e de como imaginava as cenas. Para o ilustrador, isso remete à quando o homem começou a falar, a contar história, desenhar na parede. Ele diz que o ser humano precisa se comunicar e vê como os garotos interagem e querem enriquecer a história com sua imaginação. “Eu tenho a sorte de trabalhar com isso, de criar e desenhar, e entendo que pode ser difícil para um pai que trabalha no mercado financeiro, por exemplo, chegar à noite em casa e inventar uma história, mas ele pode ler um livro. Infelizmente, hoje, as pessoas estão fugindo desse hábito. É mais fácil jogar um tablet na mão da criança”, pontua.

O envolvimento do desenhista com a ilustração de livros infantis nasceu da parceria com o educador, escritor e palestrante André Luís Oliveira, que sempre teve os livros como bons companheiros, um hábito, segundo ele, originário da memória afetiva de ver sempre o pai lendo de maneira prazerosa. Juntos, eles lançaram, em 2006, sua primeira experiência literária: “A Cidade dos Cachorros” (disponível para download), texto de uma peça de teatro, escrita por André, que acabou virando livro. Depois da produção independente, que já vendeu mais de duas mil unidades, André fez também “Bichos Diversos”, da Editoria Paulus, adotado em várias escolas, e lança, no próximo dia 23 de abril, seu 13º livro infantil “Poeminhas Radicais”, junto com Alexandre Azevedo.

Como educador e escritor, Andre faz um apontamento importante. “Infelizmente, grande parte das escolas tem utilizado mais o texto informativo para trabalhos do que a literatura infantil. A meu ver, o livro deve protagonizar os projetos da escola. É muito mais interessante quando uma pesquisa acontece a partir da literatura, a partir de uma pequena narrativa, que alimenta o imaginário da criança e a instiga a ir além e buscar outras informações complementares”, salienta. Para o escritor, apresentar poemas e poesias à criança no início do letramento é fundamental, pois a infância se constitui na dimensão poética da vida, em que a criança se emociona e ressignifica seus próprios sentimentos, dores e alegrias, através da literatura. “Não é exagero dizer que o livro muda a vida de uma pessoa. Os livros são, talvez, os últimos guardiões do imaginário. O livro infantil é o que realmente pode nos salvar desse pragmatismo do mundo atual”, afirma André.

Com mais de cem livros ilustrados para diversas editoras, além de obras autorais, um livro selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (“O Mistério da Caixa Vermelha”) e outro merecedor da Láurea Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) (“D. Tricotina Tapeceira”), a ilustradora Semíramis Paterno, também está entre os poucos exemplos de profissionais de Ribeirão Preto que conseguem se destacar no acirrado mercado editorial.

Seu envolvimento com o universo da literatura infantil transcendeu às tintas, lápis e papéis e a levou ao trabalho voluntário, como contadora de histórias no Hospital Santa Lydia, experiência que mostrou, na prática, outro caminho que o livro precisa percorrer para cumprir seu propósito de ser lido: o da vontade. “Aos poucos, através dos esforços de Contação de Histórias, promoveremos mudanças importantes. Neste trabalho do Centro de Voluntariado, encontro crianças de oito, nove, dez anos que nunca leram um livro. Ninguém contou uma história para elas. Esses esforços precisam ser ampliados porque cada um que se encanta com um livro vai procurar outros e vai melhorar a si mesmo”, ressalta Semíramis.

Citando Mário Quintana, para quem o verdadeiro analfabeto é aquele que não lê, e Monteiro Lobato, para quem um país se faz de homens e livros, o escritor Alexandre Azevedo também destaca o papel do livro na formação do indivíduo. “O pequeno leitor será um grande cidadão. O senso crítico se adquire, principalmente, através da leitura. Ela auxilia o sujeito a se tornar uma pessoa virtuosa, solidária, de bom caráter”, garante. Com 26 anos de carreira literária, chegando a um milhão de livros vendidos e somando conquistas como a seleção da obra “A Lua e a Bola”, como melhor livro de poesia infantil, referenciado pela Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil (BBLIJ), produzida pela Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato (1996), o escritor pontua, ainda, a estreita relação da leitura com a escrita. Para ele, que não acredita em inspiração, escrever, assim como ler, deve ser um hábito diário. “Infelizmente, o aprimoramento da leitura e da escrita, tão essenciais ao indivíduo, são relegados a um plano inferior no nosso país. O brasileiro deveria ler, no mínimo, um livro por mês, mas, muitas vezes, não lê um por ano. E ainda tem pais que reclamam de gastar com livros para os filhos”, critica.

A IMPORTÂNCIA DE LER PARA UMA CRIANÇA

Denise Dias, terapeuta infantil, autora de “Tapa na Bunda” e “Filhos Perdidos”.

Qual a influência da literatura no desenvolvimento da criança?
Denise: Quanto mais cedo as crianças forem expostas aos livros, e estimuladas a lerem, melhor. Isso pode ocorrer desde quando são bebês, pois há livros com figuras, feitos de plástico, para serem usados na banheira. Com isso, os bebês já vão associando livro a algo que gera prazer, satisfação. Conforme crescem, os livros vão ganhando letras, números, palavras, frases, rimas, até terem inicio, meio e fim. Crianças que leem na hora de dormir, por exemplo, tendem a adormecer mais rápido do que aquelas expostas à televisão. A leitura desenvolve mais a imaginação, estimula a concentração e coloca a criança em um estado de relaxamento. Ao contrário da televisão, que oferece a imagem pronta, a leitura obriga a imaginar.

Qual a diferença da leitura feita pelos pais ou pela criança?
Denise:
A leitura é benéfica em qualquer momento, em companhia ou sozinha. No meu trabalho clínico, oriento os pais a se deitarem um pouco com os filhos na hora de dormir e lerem algo juntos, de modo relaxado, sem dar valor aos erros, mas sim ao momento do aconchego, do colo, da cabeça no peito, do acolhimento. Tal momento de carinho passa uma enorme segurança à criança, além de aumentar o afeto a cada dia. Sugiro leituras leves, historias curtas, nada que exija muita concentração e desenvoltura da criança. Não nesse momento.

Qual o impacto da falta de estímulo à leitura na infância?
Denise:
É notável a diferença em adultos que leram muito na infância. Geralmente, crianças que não desenvolvem o gosto pela leitura se tornam adultos sem muito interesse em ler também. Podemos ver o impacto disso na dificuldade de um adulto em ler um artigo científico ou matérias extensas em revistas ou jornais. Quando tal adulto precisa formular um email mais formal ou um projeto com uma proposta inovadora, possui dificuldade para elaborar, formular e, até mesmo, para formatar suas ideias em um texto adequado.


BOAS INICIATIVAS

Como se diz, “o futuro depende da Educação” e ela, necessariamente, passa pelo incentivo à leitura de bons livros infantis. Apostas nesse sentido são muitas e, nesta data importante, vale a lembrança de algumas:

Contadores de Histórias

O programa “Contadores de Histórias para Crianças e Adolescentes Hospitalizados”, do Centro de Voluntariado, forma contadores de histórias para atuar em hospitais e casas de apoio  em Ribeirão Preto desde 2005.  Mais de 21 mil horas já foram doadas em benefício da humanização da saúde, objetivando transformar a internação de crianças e adolescentes em momentos mais alegres, agradáveis e descontraídos, além de desenvolver o hábito da leitura. A enfermeira aposentada Dulce Leia Benedini Ferreira garante que sua satisfação como voluntária é enorme. “A oportunidade de alegrar as crianças nesse momento de recuperação e estimular a leitura é muito gratificante. Certo dia, uma criança aguardava alta, mas só sairia se movimentasse os dedinhos do braço engessado. Teve fratura, fez cirurgia, mas chorava muito, pois tinha medo de não conseguir. Contando a história para ela coloquei ‘dedoches de bichinhos’ em seus dedinhos e, interagindo comigo e com a história, ela conseguiu movimentá-los. Foi inesquecível. Ser voluntário alivia tristezas, faz sorrir e aquece o coração”, afirma.

Leia para uma criança

Outra boa ideia, de âmbito nacional, a ação desenvolvida pela Fundação Itaú Social, conhecida como “Leia para uma Criança”, possibilita a pessoas físicas, secretarias municipais de Educação e organizações sociais se inscreverem para receber, gratuitamente, exemplares da Coleção Itaú de Livros Infantis. No momento, a coleção está esgotada, mas, a cada ano, a campanha é retomada, as inscrições são abertas no site e aumenta o número de participantes. O importante é a mensagem que ela transmite: ler para uma criança — e inspirar mais pessoas a fazerem o mesmo — é uma responsabilidade de todos e pode ser transformador.

Texto: Yara Racy
Fotos: Júlio Sian e Ibraim Leão
Modelos: Raphael Veiga Di Bonifácio e Alice Scarelli Di Bonifácio (dotmarketing.com.br – tel.: (16) 3446.5742)
Agradecimentos: Villa Bebê (vestido) e Villa Shoes (sapatilha).
Produção: Marcela Versiani

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