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O desafio das drogas

Erikson Furtado, professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Divisão de Psiquiatria da FMRP-USP, faz uma análise do quadro relacionado ao uso de substâncias psicoativas

O uso de drogas é um dos maiores desafios enfrentados, hoje, no mundo inteiro. Medidas adotadas em países de diferentes culturas, como liberação, restrição, proibição ou regulação de determinada substância, ainda não demonstraram um grau de eficiência suficiente para zerar o consumo. A afirmação é do professor Erikson Furtado, doutor em psiquiatria da infância e adolescência pela Universidade de Heidelberg, Alemanha, e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), que dirige o Ambulatório de Álcool e Drogas e o Serviço de Psiquiatria Infantil do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Divisão de Psiquiatria. Em entrevista à Revide, o pesquisador conta qual é a situação do município e da região, onde, na preferência dos usuários, álcool e crack lideram as estatísticas. 
 
Segundo Erikson, o panorama ribeirãopretano relativo às drogas é semelhante aos padrões do estado e do paísQuando iniciou seu trabalho com usuários de drogas na USP?
Ingressei na Universidade de São Paulo como docente em 1995 e, em 1996, constituímos um novo ambulatório para álcool e drogas e outro para adolescentes, no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Começamos, no Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento, o trabalho de assistência e de pesquisa na área. Para a prevenção ao uso de substâncias psicoativas, iniciamos, em 1999, o Programa de Ações Integradas para Prevenção e Atenção a Álcool e Drogas (PAI-PAD), cuja meta era desenvolver estratégias para a atenção primária de saúde. Pouco antes, havíamos constituído um núcleo de pesquisa e começamos a desenvolver alguns projetos direcionados às questões de saúde pública. Iniciamos uma pesquisa aplicada, em parceria com a OMS (Organização Mundial da Saúde) voltada à implementação de diagnóstico precoce e intervenções breves na comunidade. Desenvolvemos ainda uma linha especial de pesquisa, com vários subprojetos: o Gesta Álcool, relacionado à gestante, o qual desdobrou-se em um seguimento (follow-up) dos filhos, denominado Infanto-Álcool, realizado até recentemente. Hoje, temos projetos realizados com jovens que vieram desse projeto original. Paralelamente, tivemos projetos voltados à população estudantil universitária da FMRP, que analisaram o uso de álcool e de drogas nessa população. Nossa atuação principal, é, portanto, voltada para o desenvolvimento da assistência, de estratégias de intervenção na rede pública, de ensino e de pesquisa. 
 
Qual é o quadro das drogas na região de Ribeirão Preto?
É o panorama típico do Estado de São Paulo, com um nível social e de renda mais elevado para os padrões do Estado e do país. Quando falamos de substâncias psicoativas, tratamos das lícitas e das ilícitas. Entre as permitidas, a principal continua sendo o álcool, um problema importante na região. Há uns 10 anos, pesquisas feitas no Estado de São Paulo mostraram que a região liderava as taxas de mortalidade masculina por doença hepática secundária ao uso do álcool. A região central, São Carlos e Araraquara, junto com o litoral, Santos, lideravam as taxas mais elevadas. A questão do álcool tem grande relevância. Muita gente esquece que o álcool é droga também e causa sérios problemas. 
 
Em relação à relevância médica, qual droga é mais evidente na região? 
O crack, a cocaína na forma de pedra, é uma droga com um destaque  muito grande, não por ser a mais consumida, mas pelos impactos na sociedade e nos próprios pacientes. Fizemos um estudo avaliando, ao longo de 10 anos, entre os anos 2000 e 2010, a evolução de pacientes internados aqui no HC, e observamos um crescimento, com aproximadamente 200 internações no ano 2000 e subindo para quase 800 em 2009, um crescimento de cerca de 400%, no número total de internações de pacientes que receberam algum diagnóstico por causa do uso de cocaína ou crack. Isso mostra que, no início da série, em 2000, tínhamos quatro vezes menos pacientes que ao final da série. Este fato não quer dizer que aumentou o número de usuários de crack na população, mas indica que as complicações médicas dos pacientes são cada vez mais significativas, requerendo mais tratamentos e internações.
 
Na década de 80, o álcool era responsável por 80% dos casos de internação psiquiátrica. Esse quadro permanece? 
Isso não mudou tanto — apenas a proporção, mas o álcool continua liderando. O crack é um problema gravíssimo, mas, às vezes, falamos muito do crack e nos esquecemos do álcool. 
 
Qual a porcentagem de alcoólicos entre os internados?
A participação do álcool nas internações psiquiátricas caiu um pouco, ao longo dos últimos anos, mas muito mais por conta das internações psiquiátricas de usuários de múltiplas drogas ou de crack/cocaína. É como se fosse um empurrando o outro e ocupando espaço na estatística — não diminuiu de fato, mas proporcionalmente. Do total de internações na urgência psiquiátrica em Ribeirão Preto, em função de substâncias psicoativas, talvez fique numa relação de 60% por álcool, 40% por outras drogas, com o crack em segundo lugar seguido da maconha. 
 
O álcool era tido, também, como um dos fatores de maior desintegração familiar. Isso ainda acontece? 
É difícil dizer se há uma droga que tenha maior impacto. Em geral, a desestruturação familiar está relacionada a outros fatores e a diferentes complicações durante a trajetória do usuário de drogas. Alguns acumulam problemas pela vida. No início do uso, esses problemas não são muito evidentes, mas, na medida em que avançam, a família se dá conta dos prejuízos e das dificuldades de seu familiar: o dependente começa a perder o controle sobre a substância; a ter problema no trabalho;  a se distanciar de seus compromissos; a não conseguir mais financiar as drogas; a passar a gastar mais dinheiro e a desviar recursos da família para financiar o vício, a família acorda. No caso do álcool, esse processo é mais lento do que no crack. Quando o dependente de álcool chega até nós, já tem 20 anos de história; o que vem do crack, às vezes, tem cinco anos. O tempo para acumular problemas é diferente entre uma droga e outra. 
 
O álcool costuma chegar mais cedo na vida de seus dependentes, entre 12 e 13 anosQual desses dois quadros é mais fácil de ser tratado?  
O que define a dificuldade de tratamento é o conjunto de problemas em questão. É claro que as características da droga influenciam muito, mas é possível ter um indivíduo de classe média alta, com uma família para dar suporte, o que, de certa maneira, mascara as dificuldades. Esse indivíduo pode passar anos sem buscar tratamento porque está respaldado. Um indivíduo de pouco suporte familiar, com poucos recursos afetivos e financeiros, rapidamente vai para a rua. Ele fica mais visível. Quando comparamos por drogas, às vezes, os cinco anos de crack produziram o que foi produzido em 20 anos de álcool. Se há um paciente com cinco anos de problemas com álcool, que tem família, trabalho e mantém os vínculos, acredito que seja mais fácil trabalhar com ele. Se estamos falando de um usuário de crack/cocaína, com dois anos de história com a droga, nessas mesmas condições favoráveis, acredito que ele não terá tanta dificuldade em relação ao tratamento, se estiver engajado. Se somar o bom suporte familiar e social à motivação e à manutenção do tratamento, temos as condições ideais para a recuperação, tanto de uma droga, quanto de outra.
 
Quem começa a se drogar mais jovem: o usuário do álcool ou o do crack? 
O usuário do álcool inicia mais cedo. Na nossa região, começa por volta dos 12 ou 13 anos e, muitas vezes, com a participação de familiares, devido à alta tolerância entre os adultos acerca do consumo de álcool por jovens. É lógico que nem todo mundo que experimenta álcool nessa idade terá problema imediatamente, mas, por várias razões, o risco é maior para os indivíduos mais vulneráveis — quanto mais cedo começam, mais cedo se tornam problemáticos. Devemos evitar, ao máximo, o contato dos jovens com o álcool. No caso das outras drogas, o processo demora um pouco mais, aos 14 ou 16 anos. Alguns começam a ter contato com maconha ou cocaína, devido à interação com seus pares, na escola, na vizinhança e nos grupos que frequentam. A experimentação envolve certo engajamento. 
 
Como prevenir o uso de drogas? 

Existem medidas universais, como o nível de informação: quanto mais conhecimento fornecemos às pessoas, mais capazes elas são de tomar decisões. No entanto, vemos na mídia informações conflitantes ou contraditórias, que dificultam as decisões, mantendo um nível de dúvida permanente. Em relação à maconha, por exemplo, há informações desencontradas, como quando se diz que pode se fazer uso medicinal da erva. Muito do que se pesquisa em nosso departamento sobre uso medicinal, pelos doutores Zuardi, Crippa e Hallack, é a respeito, não da maconha como um todo, mas do canabidiol, uma substância extraída da planta e que não causa vício. A imprensa é movida por diferentes fatores e não podemos deixar essa informação a cargo somente dos meios de comunicação. Por outro lado, o Estado e o setor público têm a obrigação de levar informações para prevenção e, nesse sentido, há pouca veiculação, não apenas em relação ao volume de recursos utilizados para difundi-las, mas na efetividade. Quantos cidadãos, se perguntados, serão capazes de demonstrar conhecimento e capacidade de decisão sobre o tema? É o que chamamos de literacia, que equivale a letramento nas questões de saúde. Todo cidadão tem que estar alfabetizado para o tema “uso de substâncias psicoativas”. 
 
Quais são os meios para alcançar esse conhecimento? 
O álcool é uma substância psicoativa com efeitos químicos, puramente farmacológicos. Ele é semelhante a alguns medicamentos que os psiquiatras usam, agindo em certos receptores do cérebro que são, basicamente, os mesmos em que alguns remédios controlados agem. Os medicamentos são controlados, dependem de receita, são vendidos na farmácia e, quando alguém os compra, tem que ler uma bula e conhecer, teoricamente, as contraindicações, a maneira de usar, os efeitos adversos. Quando pensamos no álcool, substância psicoativa de livre comércio, qual é a informação que o cidadão tem sobre o modo de usar e seus efeitos adversos? Ele não encontra a bula do álcool. Uma barrinha de chocolate traz mais informações para o consumidor do que uma latinha de cerveja. Na lata, não tem quase nenhuma informação que garanta a segurança do consumidor. Deveria ter a informação, por exemplo, de que o produto não deve ser consumido por gestantes ou por crianças e adolescentes. 
 
Qual é o papel da escola na prevenção?   
A escola é um espaço importante para a conscientização. É o espaço oficial para o treinamento intelectual do cidadão. Nesse sentido, muito da educação para a saúde ocorre dentro da escola, onde as crianças aprendem biologia e fisiologia do corpo humano, por exemplo. Nesse espaço, a criança pode assimilar conceitos básicos. Acho que seria um pouco exagerado colocar na escola a responsabilidade final, mas ela tem que fazer a parte dela. Infelizmente, falta definição curricular e formação de professores sobre o tema. Outra questão é: de que adianta um professor trabalhar o assunto se, no final do ano, os alunos comemoram sua formatura em uma viagem a Porto Seguro para passear na “passarela do álcool”? Ou então, se aos 15 anos uma garota ganha uma festa na qual é permitido beber?
 
Acredita que a facilidade de acesso é um dos principais problemas? 
Sabemos, pelas pesquisas, que a prevenção básica depende da presença da droga. Para muitos indivíduos, a droga é um acidente, algo que atravessou o caminho deles. O melhor é que ela não estivesse ali. Como fazer isso? Erikson mostra, na região, os municípios abrangidos pelo programa de prevenção e atençaõ a álcool e drogasO acesso ao álcool é extremamente fácil: ele está disponível em todos os lugares, até mesmos nos postos de gasolina, apesar de todo mundo reconhecer o perigo da relação entre álcool e trânsito. Quando a polícia tenta reprimir a existência de biqueiras, pontos de venda de drogas, está fazendo uma coisa que falta em relação ao álcool, que é restringir o acesso. A prevenção depende muito desse ingrediente. O preço também influi. Apesar de muitos pensarem que a questão das drogas é um problema da pobreza, ele surge com a melhoria das condições econômicas. A partir do momento que as pessoas dispõem de mais renda, consomem mais. Isso ocorre no Brasil e em outros países — são os países mais pobres do planeta, os que têm menos problemas com o consumo de drogas. As drogas empobrecem porque a pessoa gasta seus recursos.  O preço da droga — do cigarro, do álcool, da maconha, da pedra — influencia o uso. Todas as medidas feitas para reduzir pontos de acesso e aumentar o preço contribuem para diminuir o acesso. 
 
Como o senhor vê a questão da liberação das drogas? 
Esse é um assunto que diz respeito à sociedade toda, não é um assunto necessariamente da saúde. Do ponto de vista da saúde pública, a gente leva à comunidade o conhecimento para dizer que chegamos, por meio dos dados científicos, às conclusões que acabei de citar. Essa é a colaboração que a saúde e a medicina podem dar à sociedade, mas não podemos decidir por ela, o que ela quer ou não. Sabemos que a maior parte da história humana transcorreu sem que houvesse um controle restritivo de substâncias psicoativas. Esse controle começou no final do século XIX a meados do século XX. No Brasil, no início do século XX, a cocaína era vendida livremente nos portos. 
 
Porque o preço é um fator restritivo ao uso de drogas, a liberação não seria positiva, já que, com substâncias que oferecem mais risco à saúde, os impostos são altíssimos, como ocorre com o cigarro? 
Estudos têm demonstrado repetidamente que nunca seremos capazes de eliminar o problema. Todas as sociedades que optaram por diferentes estratégias — liberando, restringindo, proibindo ou regulando o consumo — nunca foram 100% bem-sucedidas, eliminando as substâncias. Em sociedades fundamentalistas islâmicas, onde o álcool é totalmente proibido, existem problemas, embora muito menos do que aqui. Sociedades onde a repressão é extrema, às vezes até com pena de morte como punição, existem problemas com drogas. Os países nórdicos, como Suécia, Finlândia e Noruega, onde há uma regulação muito forte do consumo de álcool, sendo a substância vendida apenas em certos estabelecimentos licenciados para vender bebidas com teor alcoólico mais elevado, o imposto é extremamente alto, as bebidas são caríssimas e se consegue reduzir o consumo, mas não eliminá-lo por completo. Às vezes, ainda se gera o fenômeno do contrabando.
 
O que aprendemos com as ações que reduziram o uso do tabaco no Brasil, a ponto de tornar o país um exemplo para o mundo? 
Com o tabaco fomos muito bem-sucedidos. Nosso problema é que não avançamos. Batemos em uma taxa de fumantes que não conseguimos reduzir. Outro problema, agora, é que a indústria de cigarro começa a diversificar, a criar um produto mais atraente, os cigarros com sabor e os eletrônicos, que seduzem sobretudo os jovens. Qualquer discussão com base no tudo ou nada, no libera ou não libera, não levará a uma solução definitiva. A resposta é a informação, o debate — a sociedade tem que chegar a um consenso em relação ao nível de tolerância que desejamos ter: queremos ser tão tolerantes quanto a Holanda? Tão intolerantes quanto a Indonésia? Qual é o nível de tolerância dos brasileiros? A resposta para isso não será dada pela ciência. Temos observado no país uma mudança de mentalidade. Se pensarmos na década de 80, quando saiu o filme “Bicho de sete cabeças”, o personagem principal é um adolescente que sofre horrores porque os pais descobrem um punhadinho de baseado nas suas roupas. O jovem não tinha tantos problemas, mas o pavor gerado nos pais foi tão grande e as medidas foram tão intensas que se criou uma história de horror. Atualmente, a maioria da sociedade não quer uma história como aquela, mas também não quer o uso indiscriminado. A grande questão é: aonde queremos chegar? 

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian

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