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A saúde e a influência da mente

O psicólogo Carlos Eduardo Lopes defende que o acesso à psicoterapia poderia beneficiar toda a sociedade 

Estudos comprovam que a saúde da mente e do corpo estão intimamente ligadas. As doenças de fundo emocional são exemplos concretos de que, por mais que o corpo pareça funcionar independentemente do que se passa na mente, não há uma parte desassociada da outra. Acreditando que a maioria das doenças contemporâneas tem base nos pensamentos, o psicólogo Carlos Eduardo Lopes decidiu criar, em Ribeirão Preto, o Instituto de Psicologia Avançada (IPA-RP), uma organização da sociedade civil de interesse público implantada com recursos privados, cujo objetivo exclusivo é oferecer atendimento de terapia psicológica à população de baixa renda e fomentar a pesquisa e o desenvolvimento do conhecimento na área da Psicologia. 

Segundo o psicólogo, quando a terapia passar a ser ministrada de forma preventiva ou para conter a evolução dos transtornos na forma inicial, será possível antecipar o surgimento de doenças físicas. Na entrevista a seguir, Carlos apresenta o IPA e revela sua ideia para a construção de um caminho para uma  população mais saudável e engajada socialmente.
 
Você possui diversas formações. Por que escolheu seguir carreira na Psicologia?
Sou engenheiro por formação, com Licenciatura em Matemática, o que me permite dar aulas no CAPE, cursinho pré-vestibular para estudantes que não podem pagar os convencionais. Fiz, também, faculdade de Pedagogia para melhorar o nível das minhas aulas. Nessa área, tive algumas aulas de Psicologia e me apaixonei pela matéria. Para iniciar a graduação, bastou um passo, já que eu pude eliminar uma série de disciplinas graças às minhas outras formações. A Psicologia me ajuda a oferecer o melhor em tudo que estou envolvido, seja no cursinho ou no Instituto, além de ter possibilitado meu próprio desenvolvimento.

Como nasceu o Instituto de Psicologia Avançada  de Ribeirão Preto (IPA-RP)?
Durante o curso de Psicologia, algo começou a me incomodar. Na metade da graduação, descobri como poderia ser útil. Partilhei a ideia com alguns colegas de sala e passamos a avaliar de que forma poderíamos tornar a psicoterapia acessível para pessoas em situação de vulnerabilidade social. A ideia inicial era comprar um ônibus, organizá-lo em salas e percorrer diferentes bairros da cidade, aproximando a terapia das pessoas. O número de psicólogos voluntários interessados no projeto foi surpreendente, por isso, decidimos criar uma estrutura física. O IPA-RP foi instalado em um prédio emprestado, onde estamos até hoje. Nosso sonho se tornou realidade e conta com oito salas e um auditório para 250 pessoas.
 
Qual é o objetivo do IPA-RP?
Oferecer à população acesso à Psicologia, com atendimentos direcionados, especialmente, à população que vive em situação de vulnerabilidade social, auxiliando-os a resolver as questões relacionadas à mente. Nosso objetivo é quebrar paradigmas. Pensamos que não é porque estamos prestando um serviço voluntário a uma classe socialmente desprivilegiada que devemos nos conformar com instalações precárias. Assim, nosso primeiro cuidado foi criar um lugar agradável e bonito, digno de uma clínica particular. Reunimos profissionais satisfeitos com a profissão e focamos em oferecer o que há de melhor na área. Atualmente, atendemos cerca de 90 pessoas, mas temos fila de espera. Temos convênio com o Instituto Marista e com a Secretária de Assistência Social e, há quatro anos, atendemos crianças e adolescentes do Centro de Atendimento a Crianças e Adolescentes Vitimados (CACAV), fazendo um acompanhamento psicológico mesmo depois que eles voltam para casa. Todo esse trabalho é prestado gratuitamente.

Ao lado de Carlos, a ex-governadora Marina Silva prestigiou a inauguração do Instituto
 
Quantos profissionais atuam no instituto?
Até o momento, o corpo clínico conta com 16 psicólogos, além da área administrativa e financeira. O quadro está em expansão devido à simpatia gerada no meio profissional. Nossos profissionais são renomados, muitos com mestrado e especializações para atender à demanda do Instituto. No ano passado, o IPA-RP foi declarado instituição de utilidade pública pelo município e, neste ano, recebemos o suporte da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto.

Os atendimentos do IPA incluem outras áreas?
Atuamos nas áreas de Psicologia e Psicopedagogia, com atendimentos individuais e em grupos. Também promovemos palestras e cursos sobre temas gerais como educação infantil, sexualidade, saúde, ansiedade e depressão, abertos a toda a população. Além de difundirem informações importantes, os cursos são uma forma de conseguirmos recursos para manter o Instituto.

Por causa do custo que representa, a psicoterapia é mesmo restrita à classe alta?
Em Psicologia, os atendimentos acontecem pelo menos uma vez por semana, diferente de outras especialidades relacionadas à saúde, que precisam de uma consulta anual. Por isso, o custo é, de fato, mais alto. Felizmente, a ciência tem demonstrado, cada vez mais, a importância do atendimento psicológico. Hoje, temos psicólogos dentro de hospitais, escolas, empresas, instituições e até no Judiciário. Antigamente, a terapia era romantizada até em filmes e livros, dificultando o entendimento desse suporte como essencial para a saúde. Atualmente, no cotidiano hostil em que vivemos, que nos agride diariamente, é importante mantermos a mente saudável, caso contrário, poderemos adoecer, primeiro, em nossos pensamentos e, depois, no nosso corpo. Pode-se dizer que muitas pessoas doentes vêm sofrendo com problemas psicossomáticos — mais do que infecções por vírus, bactérias ou traumas. Elas começam na cabeça, em pensamentos mal elaborados. Por isso, cuidar da mente, diferente do que as pessoas pensam, não é remédio, mas prevenção. A terapia é um caminho de autoconhecimento que melhora os recursos internos para o estabelecimento de relações saudáveis e para lidar com os acontecimentos do mundo externo.
 
Essa questão abre uma brecha para um projeto de psicologia social?
Claro! Acredito que o grande movimento que devemos buscar é o de pertencimento ao local onde vivemos. Muitas pessoas vivem na cidade, mas a entendem como seus meros usuários. Essa visão precisa mudar. Trabalhos como o realizado no IPA beneficia a todos, pois, ao nos tornarmos melhores, automaticamente ajudamos a construir uma sociedade melhor. Assim, todos são beneficiados.


 
O número de pessoas com questões psicológicas a serem resolvidas está aumentando. Acredita que as doenças mentais devem ser consideradas questão de saúde publica?
Com certeza, isso fica ainda mais claro quando pensamos que as questões da mente podem gerar problemas como gastrite, enxaqueca ou até mesmo um câncer. Essas doenças podem surgir de traumas, frustrações, mágoas e ressentimentos que aconteceram no passado e foram mal elaborados. Fazendo um trabalho preventivo, conseguimos evitar muitas doenças do corpo. Acredito que todas as pessoas, até mesmo aquelas que não apresentam sintomas, deveriam ter um acompanhamento psicológico, principalmente, no mundo contemporâneo. Hoje, temos a sensação de estar sempre atrasados, ansiosos ou angustiados; na outra ponta, são raros os momentos de paz e satisfação.
 
Quais são as principais questões a serem enfrentadas pela psicologia atual?
Nem a nossa sociedade, nem as políticas públicas priorizam a prevenção. Estamos habituados a investir nosso tempo e nosso dinheiro na cura dos males do corpo. Já os problemas da nossa mente são mais silenciosos, sendo percebidos apenas quando a situação se agrava. Crises de ansiedade ou de depressão e transtornos compulsivos são exemplos disso. É difícil ter consciência de que, se não cuidarmos da nossa cabeça, ela poderá se virar contra nós. Ter coragem de revisitar questões internas, expor seus problemas e enfrentar um processo de ressignificação também é uma dificuldade. Tudo isso requer determinação e disciplina. Também é preciso salientar que psicoterapia é coisa séria e deve ser exercida por profissionais com formação adequada. Penso que seria função do Conselho Federal de Psicologia fazer uma campanha para a valorização do psicólogo e o esclarecimento da população. A Psicologia é uma ciência recente, regulamentada no Brasil em 1964. Somente nas últimas décadas ela vem saindo do consultório para ocupar espaços em diversos setores da sociedade. Lentamente, começa a comprovar sua importância.
 
A psicologia trabalha aspectos cognitivos, comportamentais e emocionais. Dentro das várias abordagens desta ciência, como definir a mais indicada para cada aspecto?
A psicologia tem várias abordagens, por exemplo, a Psicanalítica, a Analítica, a Comportamental, a Cognitivo-Comportamental, a Fenomenológica, entre outras. No IPA, os psicólogos seguem diversas abordagens. O profissional deve identificar a abordagem que mais proveito traz aos seus propósitos. Independentemente da escolha, todas as abordagens contribuem para o desenvolvimento pessoal, para o autoconhecimento e para a compreensão de que podemos ir além dos limites, buscar novas possibilidades. O mais importante é entender que não podemos mudar os fatos na nossa vida, mas podemos dar um novo significado a eles; quando conseguimos compreender conflitos, traumas ou dores dentro de nós, eles param de nos afetar negativamente. Então, estamos prontos para superar esse problema e seguir em frente.
 
Como uma pessoa pode concluir que está na hora de procurar a ajuda de um psicólogo?
Nós, e o mundo também, estamos em constante mudança, por isso, o trabalho de autoconhecimento é continuo. Assim, penso que a terapia beneficia a todos em qualquer fase da vida. Porém, as pessoas procuram ajuda nos momentos de maior dor ou de crise, que desencadeiam sintomas físicos, como taquicardia e sudorese. Também é comum recorrer a um profissional após um trauma, como um assalto ou outra situação de violência ou a morte de um ente querido.

Nos últimos tempos, temos visto inúmeros casos de suicídio, principalmente entre os jovens. Como explicar o comportamento dessa geração?
É difícil entender essa geração “pós internet” porque ainda estamos vivendo esse momento, ou seja, não há distanciamento suficiente para uma análise mais profunda do que está acontecendo. Sinto que essa juventude sonha pouco, o que causa desânimo. A maioria dos adolescentes está abandonada nos seus quartos. Essa importante fase do desenvolvimento é muito recente — até pouco tempo, passava-se da infância para a vida adulta. Não conseguimos mais acompanhar as mudanças, cada vez mais rápidas, e vivemos uma época de transição. Quando a criança sente falta dos pais, ela chama a atenção através de birras, choro e até de reações físicas, como febre ou diarreia. Na adolescência isso é mais complexo porque há um movimento natural de afastamento dos pais. Esse fato acontece para sedimentar a individualidade e a identidade do adolescente, mas não quer dizer que não haja uma necessidade do afeto e da presença dos pais. No cotidiano, o adolescente que não causa grandes problemas é negligenciado, às vezes, até esquecido pelos adultos. O suicídio é a maneira mais eficaz de se fazer presente na vida dos pais — é claro que essa é uma das possibilidades e passa muito longe de esgotar o entendimento sobre esses acontecimentos. 

O ser humano está em constante evolução e, há muito tempo, busca processos de autoconhecimento. Quais as mudanças das gerações passadas para a atual?
Há uma diferença na relação com o mundo externo. Na primeira metade do século XX, as pessoas preparavam com as próprias mãos quase tudo o que consumiam: plantavam alimentos, criavam animais, costuravam suas roupas, estavam em contado direto com a natureza. Havia a obrigação de um esforço pessoal para conseguir satisfazer as necessidades. Com o desenvolvimento tecnológico e a migração das pessoas do campo para a cidade, não é preciso fazer quase nada com as nossas próprias mãos. O esforço e a dor, no entanto, são etapas importantes de desenvolvimento. Quando enfrentamos e superamos momentos de dor, crescemos, nos tornamos mais fortes e maduros. Por que há na TV uma enormidade de programas de culinária? Por que, sem perceber, vamos sentindo como é prazeroso saborear o resultado do nosso esforço pessoal. O que os nossos avós faziam diariamente virou lazer para nós.

Há uma diferença, também, nas relações humanas. Acredito que a tecnologia, que nos trouxe inúmeros benefícios, infelizmente prejudicou as relações pessoais. Estamos experimentando o mundo pela tela do celular, como as sombras vistas na alegoria da Caverna de Platão. Dessa forma, estamos perdendo a capacidade de transcender e, sem isso, só percebemos aquilo que é concreto. É por isso que os jovens de hoje têm necessidade de  se tocar o tempo todo e se relacionar fisicamente; por isso, usam expressões como “peguei” ou “fiquei”. O simples encontro, a conversa, os olhos nos olhos têm menos valor. No entanto, o contato físico não significa mais intimidade. Aproveitar o prazer da alma, como ler um bom livro e ouvir uma música (que não fale de bebida, comida e sexo) raramente entram na lista de programas preferidos. Construir um relacionamento é um processo longo e trabalhoso, mas não se vê muita disposição para esperar esse tempo. Sem esforço, não há desenvolvimento e, sem desenvolvimento humano, criamos uma geração ansiosa, insatisfeita e violenta. 

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