Uma artista plural

Uma artista plural

Conhecida no cenário das artes em Ribeirão Preto, Eny Aliperdi conta, em entrevista à artista Fabiana Salomão, um pouco de sua trajetória e da própria história do desenvolvimento

Tanto para quem está habituado ao cenário das artes quanto para quem desconhece esse universo de possibilidades, o bate-papo entre as artistas Eny Aliperti Ferreira e Fabiana Salomão, reproduzido a seguir, possibilita um rápido, despretensioso e prazeroso mergulho informativo. Natural de São Paulo, Eny mora em Ribeirão Preto há quase 40 anos e por aqui consolidou carreira no meio das artes visuais, tornando o Atelier da Praça ponto comum a apreciadores e artistas, entre eles, Fabiana Salomão, reconhecida ilustradora que, desde 2012, participa do Latitude 22, um grupo de pesquisas em poéticas visuais formado por Eny, que reúne artistas plásticos de Ribeirão Preto e da região em busca de amadurecimento artístico, sob a orientação do curador e crítico de arte Josué Mattos. Paixão, inspiração, dedicação e reflexão dão o tom à conversa, transparecendo a sintonia e a sensibilidade de ambas, muito peculiar aos artistas.

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Fabiana: Como ocorreu seu envolvimento com a Arte, sua chegada a Ribeirão Preto, em 1978, e a ideia de montar um ateliê?
Eny: Sou formada em Pedagogia com especialização em História da Arte, mas considero minha formação como sendo de ateliê. Na minha época, as faculdades de Artes Plásticas ainda não eram reconhecidas, mas minha mãe me colocou em cursos de pintura e desenho. Quando mudei para Ribeirão Preto, resolvi me dedicar à arte e comecei a frequentar o ateliê do professor Branchini. Depois, passei pelo ateliê do Francisco Amêndola e Pedro Manuel Gismondi. Por fim, aluguei uma garagem na mesma rua do meu atual ateliê, a Garibaldi, com uma amiga e montamos nosso ateliê com o objetivo de pesquisar e produzir arte. Procurei me aprimorar porque ficar estagnada é muito perigoso em arte. Nunca mais deixei de ter meu ateliê. Tive outros, até chegar a esse formato atual, onde fazemos encontros de artistas, exposições alternativas e aulas para crianças e adultos.

Fabiana: Como se desenrolou a cena artística na cidade nas décadas seguintes à sua chegada?
Eny: Há 32 anos, trabalho e convivo com a arte em Ribeirão Preto e posso dizer que a cidade tem momentos de alta e de baixa. Segundo pesquisadores, nos anos 50, a produção de arte era bastante acadêmica, mas com a vinda dos primeiros italianos, como Lazarini, Berti e Vaccarini, houve uma mudança. Tempos depois, foram seguidos por Amêndola e Pedro Manuel. Também tivemos a Odila Mestriner, que foi bastante importante nessa história quando se juntou a essa turma. Enfim, a cena cultural se atualizou com os novos conceitos de arte moderna e, nos anos 80, a arte fervilhou. Fiz muitas exposições nesse comecinho. Antes do MARP, tínhamos a Galeria Jardim Contemporâneo e a Casa da Cultura, onde o grupo mais antigo criou a Semana da Arte, mas, à medida que foram envelhecendo, houve uma estagnação.

Fabiana: Quando surgiu o Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) e que relação tinha com os artistas da época?
Eny: O Museu foi criado em 1992 com a proposta de trabalhar com a arte contemporânea. Nesse período, já se identificava uma defasagem de produção artística que, a meu ver, acentuou-se. O Museu continua hoje com sua função inicial, de acervo de arte contemporânea, realização de salões e eventos educativos, mas não consegue oferecer mais espaço para os artistas locais por falta de investimento. Faço parte da Associação dos Amigos do MARP (AAMARP) e, para se ter ideia, este ano não queriam destinar verba para a realização do Salão de Arte Contemporânea (SARP), conhecido no Brasil inteiro. O Museu tem uma ajuda mínima da Prefeitura, mas tiraram até os ônibus para levar as crianças para visitas. É uma batalha árdua, principalmente, do diretor Nilton Campos, que considero hoje a alma do Museu.

Fabiana: Quem são os nomes envolvidos nessa batalha?
Eny: Todos que passaram pelo Museu foram grandes batalhadores. A arte em Ribeirão Preto é complicada, bastante difícil. Entre eles estão Marcelo Guarnieri, Alcebíades Junqueira, sempre apoiados pelo João Carlos Figueiredo Ferraz, que criou um “mini Inhotim” aqui em Ribeirão Preto. Quem não conhece — tanto o MARP quanto o Instituto Figueiredo Ferraz —, precisa ir porque a cidade é privilegiada por possuir essas referências em arte.

Fabiana: Outro grande desafio é o da formação de público.
Eny: A preocupação da escola não é cultural, o objetivo maior é a preparação para o vestibular. Poucas escolas no país levam o ensino para esse lado. Enquanto isso, na Europa, as crianças vão cedo para o museu, para começar a ter contato com o universo da arte, a procurar entendê-lo e a criar identificação com ele. É difícil definir o papel da arte porque não se trata de um resultado matemático, mas da postura do indivíduo diante da vida e de suas problemáticas.

Fabiana: Dizer que arte é isso ou aquilo, tentar conferir a ela um papel definido é restringi-la. A arte pode ser tudo ou nada ao mesmo tempo. Trata-se de erro e de acerto, construção, movimento, de uma forma de expressão. Quem começa a se interessar, percebe que arte é muito mais questionamento do que afirmação.
Eny: A arte oferece mais instrumentos para a pessoa observar o mundo, perceber o outro, tirar as viseiras e ampliar o olhar, possibilitando resolver problemas mais facilmente. Uma tela em branco constitui um espaço que precisa ser resolvido, transformado e, a partir daí, vão sendo adquiridos instrumentos para solucionar as próprias questões, e se passa a projetar isso para o mundo. Como já me disse um amigo, arte é como ser levado para ver além do muro. Os limites parecem terminar ali, mas uma vez instigado a olhar para além dele, percebe-se que há muito mais.

Fabiana: Em 2015, o Latitude 22 completa cinco anos. Como surgiu essa iniciativa?
Eny: O nome é uma referência à latitude de Ribeirão Preto e se trata de um grupo de pesquisa em poéticas visuais. Surgiu de uma busca antiga. Há 20 anos, vinha tentando formar um grupo e trazer um crítico, até encontrar o Josué Mattos, que acreditou ser possível. A ideia, inclusive, foi ao encontro de projetos que ele trouxe de sua estada na França. O Latitude 22 nasceu na hora certa porque havia artistas interessados — talvez, se fosse em outro momento eles, não estivessem maduros para isso —, e encontrei um crítico também interessado em promover a despolarização da arte dos grandes centros; antes, era difícil achar alguém disposto a vir para Ribeirão Preto.

Fabiana: Qual a importância do Latitude 22 para Ribeirão Preto?
Eny: Não temos faculdade de artes na cidade e muitos artistas acabam indo para São Paulo. A intenção, com o Latitude 22, é fazer o caminho contrário, possibilitando acontecer aqui também. Acho mais produtivo ter contato com pessoas vivendo o movimento lá fora, em vez de abrir a internet e pesquisar sozinho. Muita gente vai aos encontros para discutir seus trabalhos, suas ideias e seus projetos, ter contato com outros artistas e essa vivência da discussão é gostosa. Sempre fui muito apologista de grupos. Acredito que sozinho não se chega ao nível desses artistas que saem dessas “cozinhas de arte”, como FAAP e USP, grandes formadoras de artistas.

Fabiana: Quais têm sido os resultados do grupo?
Eny: O Josué Mattos tem trazido grandes críticos e artistas para falar sobre o trabalho deles e conhecer o nosso. Ele trouxe Tadeu Chiarelli, atual diretor da Pinacoteca, e muitos outros críticos importantes, realizou um projeto no MARP chamado binômios. Começamos fazendo uma revisão do trabalho de cada um para montar nosso portfólio. Mattos discute os trabalhos de cada um, traz pesquisas e textos, fala de movimentos e todos conversam. Os resultados já estão aparecendo, temos artistas expondo, entrando em salões, ganhando prêmios. O trabalho de todos amadureceu muito. Ano que vem estamos planejando um Festival de Arte Contemporânea e o lançamento do livro comemorativo dos cinco anos do Latitude 22.

Fabiana: Quais são os espaços independentes de arte em Ribeirão Preto?
Eny: Além do Ateliê da Praça, por onde já passaram e ainda passam muitos artistas — onde nasceu o grupo Zeferinas, por exemplo —, temos em Ribeirão Preto o Espaço W, da Weimar Amorim, que já surgiu como ateliê e galeria. É um espaço maravilhoso onde acontecem exposições do Latitude 22 e paralelas do MARP. Os endereços são próximos, dá até para fazer um circuito passando pelo Guarnieri e pelo Instituto Figueiredo Ferraz. Há também o espaço da Lolô Junqueira, onde ela disponibiliza um espaço expositivo, um novo ateliê da Célia Aloi e o Polyedro, da Yolanda Cipriano, que, inclusive, disponibiliza uma grade de oficinas. Esses são espaços mais relacionados à arte contemporânea, mas certamente existem outros que desconheço. O importante é que os artistas estão criando seus espaços para o público conhecer seus trabalhos. É gente de Ribeirão Preto que está fazendo sua parte.

Fabiana: Falta consciência ao ribeirãopretano de comprar arte pela arte. A Adeart era uma galeria muito ligada a essa formação e consciência, mas acabou fechando. Sinto a necessidade de pulverizar mais essa consciência que os colecionadores têm de acompanhar o trabalho do artista, conhecer o processo, entender a obra e comprar por apreço, não apenas para decorar.
Eny: Com isso, retomamos a origem de grande parte dos problemas: a educação. É muito difícil alcançar essa consciência hoje em dia, em que a maioria compra para combinar com a decoração. Algo que notei, inclusive, em muitas exposições que fiz, foi justamente a falta da visita de decoradores. Para se ter ideia, existe uma lei que obriga quem vai tirar o habite-se de um prédio a expor uma obra de um artista local e, em geral, compram-se gravuras caras para a decoração, mas, na hora de pedir uma obra do artista da cidade, querem que ele venda por preço de banana. Não se tem consciência que um quadro vale uma vida de trabalho e de investimento, que o artista precisa fazer muitos cursos para aperfeiçoar a técnica, comprar tintas caras, investir seu tempo e sua energia. Todo artista trabalha por amor, por isso, digo que ser artista é um sacerdócio. Muita gente nos imagina pintando o dia inteiro e pensa que ser artista é uma delícia. Eu acho que é uma das profissões em que você mais sofre, porque se trata de um exercício diário de criação que exige um grande esforço, muito treino, muita pesquisa e trabalho contínuo. Depois de tudo isso, quase nunca esse trabalho é reconhecido como profissão, de fato.

Fabiana: Há pessoas que vão a uma exposição para ver se a arte combina com a casa e outras que decoram a casa por causa da arte que compraram.
Eny: Em geral, o público consome o que está na moda, para validar seu status cultural, mas mesmo quem realmente compra a obra de arte pela arte quer a validação do galerista ou de um crítico de arte. Por isso, o artista tem sempre que ter a validação de alguém. Ainda mais para a pessoa que não conhece arte a fundo.

Fabiana: A não ser que se comece a ensinar arte e filosofia em todas as escolas públicas e particulares, formando a criança e o adolescente, teremos alguma mudança. Se, desde a infância, o indivíduo tem acesso à arte, à música e à literatura, na vida adulta, terá um senso crítico mais apurado e conseguirá ter opinião própria.
Eny: Não existe nada de errado, mas cada artista tem que saber a que constelação pertence. Hoje, todos são artistas. Tem gente que gosta de comercializar — é válido, se isso está fazendo bem para a pessoa. Outros não querem saber de pesquisa, tudo bem também, há espaço para todos. Nós, do Latitude 22, estamos batalhando por uma arte que acreditamos, plantar uma sementinha na história da arte, que esperamos crescer, frutificar e despertar o interesse daqueles que ainda não tem conhecimento do que é produzido pelos artistas da cidade.

Fabiana: À medida que o público conhece mais o artista, tem mais interesse pela obra dele, busca entender o significado do seu trabalho, passa a ter outra reflexão. Para finalizar, comente um pouco sobre sua obra. Quais são as suas preferidas?
Eny: Tenho alguns trabalhos que são minha paixão, mas reforço o clichê de que cada um deles é um filho. Venho do aprendizado da pintura, do desenho, mas não trabalho só com um tipo de material, de expressão. Como produzo no formato de séries, minhas preferidas são “As tramas”, “As caixas pretas”, “As cruzes” e “A noite e o tempo”.

Liderança nas artes

A Eny é uma pessoa que admiro pelo papel que desempenha em Ribeirão Preto há 30 anos no cenário das artes. A quantidade de pessoas que passou por seu ateliê e o que ela conseguiu com a formação do Latitude 22 são contribuições muito significativas, que demonstram como é uma pessoa que realmente planta para a arte, que não é egoísta, ao contrário, faz para o mundo, abençoa, produz e contempla, trazendo outras vidas à arte. Assim, ela vai escrevendo sua história. Por essas e outras, desde que fomos apresentadas, ficamos amigas. A gente briga também, mas sempre fica tudo bem, porque é aquela discussão calorosa, mas saudável e respeitosa, sobre arte, filosofia e a vida, coisa de gente apaixonada. Tenho admiração e um amor imenso pela Eny.”

Fabiana Salomão, formada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo.

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Yara Racy
Julio Sian

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