O novo e amado integrante da família

O novo e amado integrante da família

Em comemoração ao Dia dos Pais, Revide reúne histórias daqueles que passaram a amar os filhos das esposas e construíram, assim, relações de afeto

Constituídas nos mais diversos moldes, com características, crenças e valores próprios, as famílias ganham novos formatos com o passar dos anos. São capítulos carregados de amor e afeto, mas também de desafios, como a chegada de um padrasto. Laços de parentesco nascem junto ao enteado e o compartilhamento de experiências cresce. 

Sem a pretensão de substituir o papel do pai biológico, mas, sim, de estabelecer relações construtivas, com limites e responsabilidades claras, o padrasto pode ser tão ou mais importante para o desenvolvimento dos filhos. É o caso do educador físico Tiago Calcini Liberato, que, além de conquistar a esposa Aline, ganhou também um filho, o Matheus Domingues Iglesias, de 10 anos. Depois da separação, Aline conheceu Tiago e ambos se casaram após cinco anos de namoro. 

Juntos há quase oito anos, a esposa conta que, desde o início, Tiago sempre fez questão de estar perto e ganhar o carinho e o amor do enteado. “Até hoje Matheus diz que o dia mais feliz da vida dele foi quando nos casamos”, observa Aline. Tiago, que não tinha o casamento em seus planos, rendeu-se à nova família, que trouxe consigo surpresas. Grato por cada aprendizado, o educador físico revela que, no início, o mais difícil foi seu ciúme em relação à convivência do Matheus com o pai dele. “Aprendi que esse contato não influencia no amor que sentimos um pelo outro e, com o tempo, construímos um laço de amor e confiança mútua”, afirma.

Para ele, a maior alegria é estarem sempre unidos, apoiando uns aos outros em todos os momentos. Esse, inclusive, é o hobby da família: estar junta independente da ocasião, seja assistindo a um filme, jogando videogame ou futebol, caminhado no parque, ou, simplesmente, saboreando um sorvete. “Ainda não temos um filho nosso, mas já estamos planejando para o ano que vem”, antecipa Tiago. 

Apesar de não se lembrar muito bem dos detalhes da chegada do padrasto, pois tinha apenas três anos, Matheus o considera como um pai. “Tanto que eu quero acrescentar Liberato no meu nome de batismo para ter o sobrenome dele, o nome da nossa família”, reforça Matheus.

Amor por crianças

Na vida atribulada de Evandro Simões Ferreira, publicitário e “arteiro de profissão”, como se denomina, sempre houve espaço para crianças, em especial depois que fez parte de um grupo de acrobacias de uma escola de circo, chamando ainda mais a atenção dos pequenos. Brincalhão por natureza, depois de um relacionamento em que foi agraciado com a chegada da filha Maria Eduarda, a Duda, surpreendeu-se com um novo amor, que chegou em 2010, alterando definitivamente os rumos da vida. Após vários encontros e conversas, descobriu que já não poderia ficar mais distante da Cintia Nabeiro e dos filhos dela: Luiggi, de oito anos, e Clara, de quatro.

Em pouco tempo sendo amigos, as ajudas eram mútuas. Evandro tinha o coração para ouvir e a alegria para dar. Já Cintia, contribuía com todo o conhecimento sobre filhos e de como ele seria um ótimo pai para a Duda. “Assim foi o nosso começo, muito mágico e maravilhoso. Tivemos momentos bastante intensos e conturbados, mas o amor sempre prevaleceu e que magia seria maior que essa?”, questiona o publicitário, que revela três grandes alegrias na vida. Com o Luiggi, foi quando o enteado decidiu chamá-lo de pai, depois de resistir e até tentar convencer a irmã de não o fazer; com a Clara, foi quando ela dormiu com ele, sem chamar a mãe; já com a Duda foi a primeira vez que, por conta própria, ela disse que tinha dois irmãos.

Assistir a filmes de heróis comendo pipoca ou jogar videogame estão entre as atividades que Evandro mais gosta de fazer com o Luiggi. Já com a Clara, gosta de fazer artes, pintura e confessa que adora quando ela se apresenta no balé e sapateado. “Ela brilha muito no palco. Com a Duda, eu adoro fazer cafuné nas costas dela e sentir o seu corpinho arrepiando inteiro”, explica Evandro, que também ainda não teve um filho com a atual companheira. 

Hoje aos 17 anos, Luiggi relembra tudo o que passou e o que perdeu, mas reconhece que um pai de coração é um presente. “Ter um melhor amigo, saber que ele vai te apoiar em tudo e que vai te amar para sempre. Tenho muito orgulho de chamá-lo de pai e de, também, falar que eu fui uma pessoa, com certeza, privilegiada por ter pais perfeitos”, enfatiza o jovem.

Para Clara, hoje com 13 anos, a chegada do Evandro em sua família foi uma alegria. Por ser muito nova, não tinha noção do que estava acontecendo, o que fazia dele seu pai — tanto que já o chamou assim rapidamente. “Ele nos ajudou muito em vários sentidos, e ajuda até hoje. Dizem que pai é quem cria e, no meu caso, foi ele quem colaborou com minha mãe em nossa criação. Assim, considero ele meu pai. Nosso relacionamento é ótimo e vai continuar sendo! Amo demais e para sempre!”, salienta a jovem.

Apesar de se casar e ter filhos cedo, em 2007, Cintia viu a vida virar de ponta-cabeça com a morte do marido, vítima de um infarto fulminante, aos 30 anos. Nessa altura, ela tinha 28 anos, Luiggi quase cinco e Clara dez meses. “Depois de quase quatro anos, errando e acertando, já de volta a Ribeirão Preto, pois tudo isso aconteceu na época em que morávamos em São Paulo, conheci o Evandro, na academia que frequentávamos”, relembra.

Superando o medo de um novo relacionamento e com os filhos sedentos por um pai, aos poucos Cintia se rendeu aos encantos do novo companheiro. A história dessa família vem sendo construída com a soma de muitos momentos de alegrias e tristezas, conquistas e aprendizados. “Perdi pessoas importantes nesse tempo, também ganhamos novos membros na família, viajamos bastante, além das mudanças para ajustar nosso espaço a tantos filhos. Sou muito grata pela família que construímos e, se Deus quiser, ainda conseguiremos fazê-la crescer”, estima. 

Espaços definidos

Psicóloga do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP em Ribeirão Preto, Érika Arantes de Oliveira Cardoso explica que, no caso de “recasamentos”, algumas questões importantes podem aparecer para o novo integrante da relação. Para o padrasto, um dos maiores desafios enfrentados é o de como se relacionar com os filhos dos casamentos anteriores. Por vezes, ele se sente perdido nesse papel, sobretudo no início, quando pode se sentir confuso, sem saber se age como pai, amigo ou “conhecido”.

O ideal a ser alcançado, segundo ela, seria um modelo de divisão de responsabilidade, no qual o padrasto teria um espaço de ação que não fosse competitivo nem excludente com o papel do pai, mas que fosse agregador e complementar. “Vale a pena frisar que, dependendo da idade dos filhos da esposa, esse padrasto terá um papel proeminente na educação deles, mas ele não irá, em geral, ‘substituir’ o pai”, orienta Érika. Reconhecidamente a mãe tem um papel fundamental no que diz respeito a favorecer ou dificultar a participação do padrasto na vida de seus filhos. No entanto, com o passar do tempo e o fortalecimento do laço afetivo e do vínculo de confiança, ela pode negociar direta e claramente com o novo parceiro os alcances e limites da atuação desses na educação dos filhos. 

Érika ressalta que hoje a parentalidade pode ser exercida por mais de uma pessoa, pois se reconhece a diversidade das funções parentais, graças ao conceito de pluriparentalidade, que é justamente a concepção de que mais de um adulto pode exercer os cuidados de uma criança. “Para que essa nova relação funcione, os acordos devem ser bem claros à criança e os espaços e responsabilidades de cada membro da família devem ser bem definidos. Um bom funcionamento familiar também depende do amadurecimento dos pais para lidarem com essas questões, ou seja, do modo como eles, enquanto adultos, lidam com situações de conflito que exigem maturidade emocional”, reforça.

A maneira como cada integrante constrói seu próprio espaço dentro da nova família depende, segundo Érika, de vários fatores que irão dificultar ou facilitar a tarefa da construção desse espaço intersubjetivo: idade dos filhos, como ocorreu a separação com pai biológico, como é a relação da mãe com esse pai, quem detém a guarda dessas crianças, o tempo que esses filhos conhecem e convivem com o padrasto, entre outros. A chegada dos filhos desse novo casal também implica na necessidade de reorganização familiar e, em geral, vem acompanhada de sentimentos ambivalentes nos irmãos, mesmo os consanguíneos. “Uma vez que a criança sente que é amada e cuidada pela mãe e pelo padrasto, pode se sentir feliz com a chegada do novo irmão e ainda ter a certeza de que continuará a desfrutar do seu espaço próprio nessa família”, argumenta a psicóloga. 


Texto: ROSE RUBINI

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