Companhia do Riso

Companhia do Riso

O objetivo é utilizar a arte do Teatro Clown no cuidado à criança e ao adolescente hospitalizado como auxílio na recuperação

Rosto pintado, nariz vermelho, perucas, chapéus e roupas coloridas. Assim é a vestimenta de trabalho da trupe de palhaços da Cia do Riso, que habita, todas as terças e quintas-feiras o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

Formada em 1996, a Cia do Riso é um projeto que se apoia na arte do Teatro Clown como instrumento para a assistência à criança e ao adolescente hospitalizado. Em outras palavras, é o trabalho que tem como ponto de partida levar alegria às pessoas que vivenciam momentos difíceis dentro de clínicas e hospitais.

Utilizar a arte do Teatro Clown no cuidado à criança e ao adolescente hospitalizado com auxílio na recuperação, no combate à doença e na minimização do sofrimento é o objetivo da companhia. Esse propósito se baseia em estudos que evidenciam a importância do brincar na vida das crianças para o desenvolvimento sensório-motor e intelectual, no processo de socialização, no desenvolvimento e aperfeiçoamento da criatividade e autoconsciência. Acompanhado por esse processo, a Cia do Riso também faz trabalhos para os pais e familiares dos enfermos, tentando diminuir o sofrimento de quem fica ao lado de uma cama de hospital.

Segundo a estudante de enfermagem, Minlun Tsai, a frente da Cia do Riso há um ano, o projeto possibilita mostrar que o hospital não é apenas um local de dor e sofrimento, mas pode também promover o desenvolvimento. “Se uma criança se sente descontraída e feliz, sua permanência no hospital torna-se mais fácil, e do mesmo modo seu processo de desenvolvimento e recuperação pode ser favorecido”, explica.

Tendo em vista que o ambiente hospitalar traz à criança sensações de medo e insegurança quanto ao tratamento, foi implantado o trabalho dos palhaços na Pediatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCRP-USP). “A criança hospitalizada necessita de ações que possam minimizar o estresse e assim contribuir para que a hospitalização interfira o mínimo possível em seu desenvolvimento”.

O figurino dos palhaços é outro ingrediente que compõe o trabalho jovial desses artistas. A utilização do jaleco branco foi padronizada, além dos cabelos penteados em forma de tranças, rabos, “maria-chiquinha” e perucas, chapéus, maquiagem característica de palhaço e narizes vermelhos. Em cada visita feita à pediatria do HC, são utilizados brinquedos plásticos, bolinhas de sabão, instrumentos musicais, gestos e representações. Minlun intensifica que o figurino e os brinquedos despertam a curiosidade e a sensibilidade visual e auditiva das crianças. 

“Outra estratégia adotada foi a leitura de histórias infantis, fruto muitas vezes da imaginação dos próprios alunos, improvisadas de acordo com cada momento”, conta a estudante. Ela também explica que as brincadeiras variam de acordo com a idade da criança, desde lactantes de um mês até adolescentes de 18 anos.

Mais de 15 anos depois da criação da Cia do Riso e de trabalho alegre no HC, o ambiente hospitalar acostumou-se com a presença dos palhaços. Requisições e pedidos de visitas a crianças internadas em outros andares do hospital se tornaram comuns, além da companhia receber convites para participar de eventos comemorativos na intenção de animar as pessoas e exibir o lado positivo do hospital. “As crianças pedem sempre que o grupo permaneça mais tempo e afirmam que estarão lá em suas camas na próxima semana, mesmo quando dizemos que não esperamos encontrá-las por aqui”.

Besterologia
As crianças maiores vivenciam estímulos diferentes dos lactantes, tanto que o principal objetivo da Cia do Riso é fazê-las rir. Minlun explica que, em se tratando de uma primeira visita, a trupe de palhaços se apresenta como uma equipe de saúde especializada em “Besterologia” e que foi chamada para atender casos de “tristeza profunda”. “Nesse momento o grupo aproveita para observar os principais anseios das crianças, incentivar a alimentação e estimular o levantar do leito. Todas as respostas são comentadas pelo grupo e é constante a presença do improviso”, declara.

O grupo conta com um vocabulário próprio, que inclui uma maneira ingênua de olhar o ambiente hospitalar, procurando não fazer alusões ao local ou pronunciar nomes de medicamentos. O HC se torna, por fim, um Shopping Center de brincadeira. A utilização deste método pela companhia, de acordo com Minlun, é para a tentativa de desviar a atenção da criança dos fatores que provocam dor ou incômodo. “Fazemos com que ela (criança) ainda que por alguns minutos, seja capaz de transportar-se para um mundo de brincadeiras e fantasias”.

A humanização em hospitais
Os avanços no cuidado à saúde da criança não eliminam a necessidade de hospitalização em certos casos, podendo, inclusive, ser exposta a riscos. Quando uma criança se sente descontraída, a permanência dela no hospital acaba se tornando mais fácil, o que pode favorecer o processo de desenvolvimento e recuperação.

Desde 2006, a Cia do Riso promove o Encontro de Humanização da Cia do Riso, visando aprimorar conhecimentos técnico-científicos na área da humanização do cuidado em saúde e estimular a criatividade para o trabalho com a arte e estética. Especialistas no assunto são convidados para discutir temas relativos ao cuidado em saúde. Neste ano, o VI Encontro de Humanização da Cia do Riso tem como tema “Todos pelo cuidado: a interdisciplinaridade no cuidado à criança e ao adolescente hospitalizado”.

Os 26 integrantes da Cia do Riso, composto por alunos de Enfermagem, Matemática, Medicina, Música, Nutrição e Metabolismo, Informática Biomédica e Odontologia – todos da USP-RP –, deixam marcas de amizade e carinho, demonstrando que a humanização no ambiente hospitalar significa oferecer cuidado de forma humana, feliz e amorosa. Para toda a equipe da Cia do Riso, a felicidade é triplicada no instante que se recebe um sorriso, um obrigado ou até mesmo um olhar de alegria.“A humanização também significa ser cuidado com respeito, carinho e afeto. Essa é, com certeza, a chave para a construção de um hospital cada vez melhor”, finaliza Minlun Tsai.

Revide On-line (Colaborador: Fernando Belezine)
Fotos: Ibraim Leão
*Publicado em 30/06/2011

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