Tensões do isolamento
Pesquisa aponta aumento nos casos de depressão e ansiedade durante a pandemia do novo coronavírus. Psicóloga comenta a situação e orienta medidas que podem diminuir esse impacto
Uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), publicada na revista científica britânica The Lancet, mostrou que os casos de depressão dobraram durante a pandemia causada pelo novo coronavírus, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%. No dia 18 de março, antes mesmo de as medidas de distanciamento social serem adotadas no Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um guia com dicas para manter a saúde mental durante a crise. Os cientistas da UERJ constataram que as mulheres são mais propensas do que os homens a sofrer com estresse e ansiedade durante a quarentena. Outros fatores de risco são alimentação desregrada, doenças preexistentes, ausência de acompanhamento psicológico, sedentarismo e a necessidade de sair de casa para trabalhar. Já para a depressão, as principais causas são idade mais avançada, ausência de crianças em casa, baixo nível de escolaridade e a presença de idosos no ambiente doméstico.
A psicóloga Ana Flávia de Oliveira Santos explica que a falta de convívio social no trabalho, com os amigos e com a família, possui um impacto significativo na saúde mental de uma pessoa. "Há, ainda, um incremento da ansiedade em razão de ameaças e dos riscos de contaminação, e também a possibilidade real de perdas afetivas e financeiras", comenta. A profissional pontua que o confinamento tende a potencializar dificuldades já existentes. “A frustração advinda das restrições ora vivenciadas pode aumentar a irritabilidade, a raiva, o tédio, podendo levar a um aumento da tensão nas relações mais próximas, com as pessoas com as quais se convive em casa”, acrescenta. A psicóloga alerta para o incremento de desentendimentos familiares, que, inclusive, podem levar a situações de violência doméstica, cujo crescimento já foi identificado pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) da Secretaria de Transparência do Senado e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Para a psicóloga e professora da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), Lilian de Almeida Guimarães, os efeitos de um longo período isolado podem variar de pessoa para pessoa. Se alguém possuía um estilo de vida socialmente ativo poderá sofrer mais com o distanciamento. Lilian explica que alguns dos possíveis efeitos gerados por um longo tempo de confinamento podem ser: desânimo; problemas no sono, podendo ter insônia ou dormir em excesso; problemas alimentares, também relacionados à falta e ao excesso; dificuldade de concentração; ansiedade; crises de pânico, entre outros. Além disso, ela avalia que é preciso levar em consideração as condições de vida do indivíduo. "Imagine ter que ficar confinado e não ter como continuar arcando com os compromissos financeiros. Acrescente à possibilidade de isso tudo acontecer com uma família onde há filhos em idade escolar. Tudo isso pode determinar como serão os efeitos do confinamento nas pessoas, pois não é só o confinamento em si, mas o grau de complexidade que o constitui", ressaltou a psicóloga.

Como amenizar
A OMS estabelece que saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade. Para se manter mentalmente saudável durante a pandemia, Ana Flávia pondera que não há uma receita ou fórmula mágica, mas avalia que limitar o acesso à informação pode ajudar. "Uma exposição relativa, seletiva e cuidadosa diante de uma infinidade de dados é importante, sobretudo na sua qualidade, uma vez que tem proliferado a disseminação de falsas notícias na atualidade", explica. Ela aconselha a criação de uma nova rotina, com delimitação de tempo e espaço para o trabalho dentro de casa e, também, indica a comunicação com familiares e amigos, ainda que mediada pela tecnologia.
Aliado a isso, Lilian acrescenta que não se deve esquecer que esse problema é global: todas as pessoas no mundo atravessam o mesmo problema, algumas com mais e outras com menos intensidade. “A partir dessa perspectiva coletiva, é possível desconstruir qualquer ideia individualizante de saúde mental e, portanto, patologizante”, comenta. Tendo isso em mente, ela aconselha que as pessoas que sintam essa tensão causada pela pandemia estejam atentas a si mesmas. “Vale resgatar antigas experiências para lembrar-se de suas habilidades de enfrentamento em situações que eram desconhecidas na época e que geraram desconforto, mas que, apesar do sofrimento momentâneo, foram superadas. Todos nós temos histórias de sofrimento, de desconforto e de superação”, orienta.
Todavia, ela adverte que a ajuda de um profissional ainda é o caminho mais seguro. “Contudo, não há solução pronta para todos, mas a proposta é aprender a abraçar as incertezas do momento, colocar os planos que foram interrompidos em espera e sonhar com um futuro melhor. Em momentos de muita apreensão como os que estamos vivendo atualmente, nem sempre conseguimos resgatar por conta própria nossas habilidades para nos recuperarmos do estresse, assim, a busca por ajuda profissional deve ser levada em consideração”, pondera Lilian. No momento, segundo orientação do Conselho Federal de Psicologia (CFP), os atendimentos têm ocorrido, preferencialmente, por meio de plataformas digitais e aplicativos que oferecem cuidados quanto à confidencialidade e ao sigilo da informação. "O atendimento on-line destina-se não apenas a adultos, mas, também, a crianças e a adolescentes. Todos estão sob intenso impacto dos efeitos dessa pandemia e se faz necessário o cuidado aos aspectos psicológicos, que constituem a nossa casa interna, de onde não sairemos, mesmo quando relativizada ou terminada a quarentena", conclui Ana Flávia.
Depoimentos
– Na quarentena, minhas crises de ansiedade se intensificaram. Durante esse período, já fui parar duas vezes no hospital por não conseguir me controlar e aconteceu de uma dessas vezes eu ter uma crise no caminho do trabalho e cair de moto. Lamento muito o fato de que algumas pessoas estejam aproveitando esse momento como ‘férias’ e não respeitem o cenário atual. D.A, assistente administrativa
– Estar privada do ir e vir é algo surpreendente, vivo em uma montanha-russa. Há um cansaço mental pelo excessivo uso da tecnologia e um estresse diferente em relação à rotina antiga. Que todos façam sua parte para voltarmos às rotinas presenciais. Nathália Ferreira, professora.
– No meu caso — como uma pessoa que sofre de ataques de pânico e que faz uso de medicação —, ficou mais complicado controlar a ansiedade durante a quarentena. Foi necessário modificar e construir uma nova rotina com atividades que exigiam o meu foco e que não fossem relacionadas ao uso excessivo de redes sociais, um dos maiores causadores de ansiedade para mim. Bárbara Pandochi Fernandes Figueiredo, universitária.
Texto: Paulo Apolinário