Pequenos gigantes
Clarissa e Silvia Chufalo, mãe e filha, ao lado do funcionário Francinaldo Brandão, cuidam da Fazenda Divindade

Pequenos gigantes

Produtores da agricultura familiar de Ribeirão Preto mostram como inovação e sustentabilidade podem gerar renda e abastecer as cidades

Responsável por quase 80% dos contratos firmados no Plano Safra 2025/2026, a agricultura familiar ocupa um papel estratégico na segurança alimentar do país. Ainda assim, recebeu apenas cerca de 12% do volume total dos recursos destinados ao crédito rural. A diferença ajuda a explicar o novo Plano Safra 2026/2027, que ampliou o orçamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), criou linhas específicas para mecanização, irrigação e produção sustentável e reduziu taxas de juros para parte dos financiamentos.


Para o professor de Economia e Política Agrícola da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Jaboticabal, José Giacomo Baccarin, a expansão da cana, cultura que predomina na região, não elimina o espaço ocupado pelos pequenos produtores. Ao contrário. O crescimento das cidades torna esse segmento cada vez mais estratégico. “A população da região, quase na sua totalidade, mora nas cidades, demandando grande fornecimento de frutas, legumes e verduras, que, em parte, poderiam ser fornecidos através da produção local”, afirma.


Na avaliação do economista, a continuidade da agricultura familiar dependerá menos do tamanho das propriedades e mais da capacidade de produzir com eficiência. “Não vejo possibilidade da continuidade da agricultura familiar sem acessar a tecnologia, inclusive as da agricultura com base agroecológica”, diz.

 

José Giacomo Baccarin é professor de Economia e Política Agrícola da Unesp de Jaboticabal e Rio Claro

 

A pouco mais de 20 km do Centro de Ribeirão Preto, a engenheira agrônoma Clarissa Chufalo Pereira Lima decidiu colocar essa ideia em prática. Quando assumiu a Fazenda Divindade, em 2010, encontrou uma área marcada por pastagens degradadas e antigas lavouras de soja. Em vez de repetir o modelo convencional, optou por recuperar o solo utilizando os princípios da agricultura sintrópica, sistema inspirado no pesquisador suíço Ernst Götsch que combina produção agrícola e regeneração ambiental.


“Quando cheguei, o que havia eram pastagens degradadas e restos de lavouras de soja antigas. O solo estava cansado e pobre em vida. Hoje, a realidade é outra: uma área viva, produtiva e diversa, com diferentes estratos vegetais, cores, aromas e ciclos”, relata Clarissa.


Hoje, banana, manga, abacate, maracujá, hortaliças e espécies nativas dividem espaço em um sistema planejado para reproduzir a dinâmica das florestas. Enquanto uma cultura encerra seu ciclo, outra já ocupa o lugar, mantendo o solo protegido durante todo o ano. “Não existe espaço vazio na natureza. Cada espécie cumpre um papel no sistema, desde adubar o solo até atrair polinizadores”, explica a agrônoma.


A diversidade também funciona como estratégia econômica. Em vez de depender de uma única cultura, a propriedade distribui a produção ao longo do ano e reduz riscos provocados pelas oscilações do mercado ou pelas condições climáticas. A comercialização ocorre diretamente com os consumidores, por meio de um cardápio digital complementado por produtos de parceiros, como pães artesanais e queijos.  “A ideia é oferecer alimentos saudáveis, produzidos com responsabilidade e entregues de forma prática, aproximando quem planta de quem consome”, afirma Clarissa.


Em outro ponto da cidade, no Jardim Paulistano, a tecnologia aparece como resposta para o mesmo desafio. Na Horta Hidropônica Villa Verde, o empresário Paulo Pereira de Souza transformou uma atividade que começou como segunda fonte de renda no principal sustento da família. Em uma área de apenas 1.340 m², ele, a esposa e cinco colaboradores cultivam hortaliças em sistema hidropônico e comercializam cerca de 2,6 mil maços por mês diretamente aos consumidores. “Conheci a hidroponia em São Carlos e vi as vantagens de não ter contato com a terra. O cultivo é limpo e a produção é mais rápida do que no sistema convencional”, conta.


Hoje, a propriedade produz cinco variedades de alface, além de rúcula, couve, almeirão, espinafre, agrião, salsa, cebolinha e hortelã. Toda a produção é comercializada no varejão da própria horta ou por delivery, reduzindo a distância entre quem produz e quem consome. “O que mais nos orgulha é saber que estamos plantando o que há de melhor para os nossos clientes”, afirma Paulo.

Paulo Pereira de Souza planta, em média, 2.600 maços de alface por mês

 

PERMANECER NO CAMPO


A agricultura familiar responde por grande parte dos alimentos que chegam diariamente à mesa dos brasileiros, mas convive com um paradoxo. Ao mesmo tempo em que sua importância cresce, especialmente nas regiões próximas aos grandes centros urbanos, os pequenos produtores enfrentam dificuldades para manter a atividade economicamente viável e atrativa para as novas gerações.


Para Baccarin, o acesso ao crédito rural representa apenas uma parte da solução. O principal desafio está em criar condições para que pequenas propriedades consigam produzir mais, agregar valor ao que cultivam e gerar renda suficiente para competir em um cenário dominado por grandes culturas agrícolas. “O aumento da produtividade é essencial para que a agricultura familiar consiga gerar renda e manter os jovens no campo”, afirma o professor.


Na avaliação do economista, políticas públicas voltadas ao financiamento precisam ser acompanhadas de investimentos permanentes em assistência técnica, pesquisa e difusão de tecnologias. Sem esse apoio, muitos produtores acabam encontrando dificuldades para incorporar sistemas de irrigação, mecanização ou novas formas de cultivo capazes de aumentar a eficiência da produção.


Esse movimento já pode ser observado na região de Ribeirão Preto. Enquanto propriedades como a de Clarissa apostam na diversificação e na agricultura sintrópica para recuperar o solo e ampliar a oferta de produtos, a propriedade de Paulo investe em tecnologia para produzir mais em uma área reduzida. Apesar das diferenças, ambas demonstram que conhecimento técnico e inovação passaram a ser tão importantes quanto a própria terra.


O clima também aparece entre as maiores preocupações. Períodos prolongados de estiagem elevam o consumo de água e aumentam os custos de produção, enquanto chuvas intensas podem comprometer o planejamento das lavouras. Paulo explica, por exemplo, que instalou sistema de energia solar e utiliza captação de água da chuva para reduzir despesas e aumentar a autonomia da produção. “Às vezes chove demais e atrapalha. Às vezes não chove nada e também atrapalha”, resume o produtor.


Outro desafio é aproximar o consumidor de quem produz. Tanto a Fazenda Divindade quanto a Villa Verde optaram pela venda direta, reduzindo intermediários e fortalecendo a relação com os clientes. Mais do que uma estratégia comercial, o modelo permite agregar valor aos alimentos e oferecer maior previsibilidade de renda para as pequenas propriedades.


“Não existe uma única forma de fazer agricultura familiar. Existem diferentes modelos que podem ser competitivos quando incorporam tecnologia, conhecimento e organização”, resume Baccarin.

Diogo, Ezequiel, Paulo, Lindamir, Sarah, Carolina e Stéfane: time completo da horta Villa Verde

 

PELA REGRA


Apesar do nome, agricultura familiar não significa só uma propriedade administrada por uma família. Pela legislação brasileira, o produtor precisa atender a critérios específicos, como utilizar predominantemente mão de obra da própria família, ter área limitada (até quatro módulos fiscais), obter parte significativa da renda das atividades da propriedade e dirigir pessoalmente o negócio.


Além da produção de alimentos, a agricultura familiar reúne atividades como pecuária, extrativismo, pesca artesanal, aquicultura e agroindústria de pequeno porte. Para acessar políticas públicas, como o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), o produtor precisa estar inscrito no Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), documento que substituiu a antiga Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP). 


Foto destaque: David Rodrigues

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