Região consolida posição de referência nacional na produção de cana-de-açúcar
Dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA) mostram que Ribeirão Preto está em 12º lugar no ranking pelo valor da produção agrícola total do estado, com R$ 7,5 bilhões
Capital Brasileira do Agronegócio, Ribeirão Preto está em uma das regiões mais produtivas do Brasil. O município possui uma produção agrícola avaliada em cerca de R$ 5 bilhões, que representa 5% do total do Estado de São Paulo. A região é conhecida por várias culturas, sendo as principais cana-de-açúcar, laranja, café e amendoim.
A cana-de-açúcar é destinada à produção de açúcar, etanol e bioenergia. O etanol é amplamente usado como combustível em veículos, e o açúcar é tanto consumido internamente quanto exportado para diversos países. A maior parte do cultivo de laranja é destinada à produção de suco, que é exportado em grande quantidade para mercados da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia – o Brasil um dos maiores produtores e exportadores de suco de laranja do mundo. O café produzido na região de Ribeirão Preto é conhecido pela sua alta qualidade. É amplamente consumido no mercado interno e exportado para vários países, incluindo Estados Unidos, Alemanha, Japão e Itália, que são grandes consumidores de café brasileiro.
“Se pensarmos na região de Ribeirão Preto, teremos uma diversidade muito grande de produtos agrícolas, passando pela olericultura, tanto hidropônica como convencional; pelas frutíferas, como abacate, manga, limão; até reflorestamento, com eucalipto para produção de papel, atendendo aos mais variados tipos de demanda, de locais a exportação. Mas as culturas que mais dominam a região são a cana-de-açúcar, o amendoim, a laranja e, com cada vez mais importância, a soja. Todos esses produtos atendem tanto à demanda interna como externa, sendo responsáveis por parte significativa do PIB do agronegócio, não somente paulista como o brasileiro”, explica o professor José Carlos Martins de Nóbrega, especialista em produção de grãos, com ênfase em melhoramento vegetal.

A região produz em média, anualmente, 36 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, 15 mil toneladas de carne bovina, 27 mil toneladas de carne de frango, 64 milhões de litros de leite e 65 mil toneladas de amendoim. Dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA) mostram que Ribeirão Preto está em 12º lugar no ranking pelo valor da produção agrícola total do estado, com R$ 7,5 bilhões. Se comparado a municípios de porte semelhante, segundo o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE - 2017), Ribeirão Preto possui 655 estabelecimentos agropecuários, contra 193 de Sorocaba e 544 de São José dos Campos. Em relação à cana-de-açúcar, carro chefe da região, a diferença é ainda maior. São 35 estabelecimentos, totalizando cerca de 20 mil hectares de área colhida, contra 4 estabelecimentos em Sorocaba, com 113 hectares de área colhida, e 7 em São José dos Campos, com 68 hectares.
PRODUTIVIDADE
Apesar de não possuir a maior extensão agrícola na área circundante e de estar bastante urbanizada, Ribeirão Preto contribui significativamente para os resultados da produção regional. A cidade desempenha um papel crucial na formação de trabalhadores qualificados e na oferta de uma ampla variedade de produtos e serviços. Além disso, conta com um Parque Tecnológico que hospeda várias empresas e instituições de pesquisa focadas no agronegócio. Por isso, o enorme montante de cana- -de-açúcar cultivado na região conta com o que há de melhor em termos de tecnologia e pesquisa. Ribeirão Preto ainda possui um centro de excelência em pesquisa com cana. Criado em 1934, ainda como uma estação experimental, o Instituto Agronômico (IAC) deu início às pesquisas com os cultivares no mesmo ano. Em 2005, houve a criação do Centro de Cana do IAC. Atualmente, o Programa Cana IAC emprega 122 funcionários e possui 190 empresas parceiras. Além disso, já lançou 30 variedades de cana e desenvolve cerca de 650 ensaios de campo por ano.
Roberto Fava Scare, sócio-fundador da Harven Agribusiness School, ressalta que a região de Ribeirão Preto é reconhecida pela alta produtividade agrícola, principalmente por solos férteis, condições climáticas favoráveis, tecnologia agrícola avançada, pesquisa e desenvolvimento, cooperativismo e infraestrutura e capacitação de produtores e demais agentes das cadeias produtivas. “A combinação desses fatores impulsiona produtividades maiores nas culturas principais, fazendo da região uma referência nacional e internacional em produção agrícola eficiente e sustentável”, explica Scare.
Tal produtividade é fruto de investimento em pesquisa e parcerias público-privadas. As universidades públicas e privadas, bem como as instituições de pesquisa têm desempenhado um papel essencial na colaboração com o setor privado para impulsionar a inovação no agronegócio. Projetos conjuntos de Inovação e Desenvolvimento (I&D), bem como parcerias para a disseminação de inovações tecnológicas, como drones, sensores e aplicativos, são um primeiro esforço de colaboração. A existência de hubs de inovação fortes, incubadoras e um universo de startups promovem um ambiente favorável à colaboração. “Além disso o intercâmbio entre universidades e o setor privado promovem a capacitação e o treinamento das pessoas para a adoção de melhores práticas, tecnologias e métodos de gestão. Ainda contamos com a presença de consultorias de técnicas para transferência de tecnologia, laboratórios de pesquisa aplicada e fontes de fomento público e financiamento privado para que a região se mantenha competitiva e na liderança da inovação no agronegócio”, detalha Scare.
“A pesquisa é fundamental para o conhecimento. Conhecimento, resulta em desenvolvimento técnico. Desenvolvendo técnico culmina em tecnologias cada vez mais sustentáveis e adaptadas às mais variadas condições de cultivo, buscando maior produtividade com redução dos impactos ambientais”, acrescenta Nóbrega. Ele lembra que, na região, estão localizados institutos de pesquisa como o Centro de Cana do Instituto Agronômico (IAC) e o Instituto de Zootecnia (IZ), atuando no desenvolvimento da a pecuária de corte e leite; universidades como a USP [Universidade de São Paulo) e a Unesp (Universidade Estadual Paulista), além de uma rede significativa de escolas particulares, como o Centro Universitário Moura Lacerda, que também contribuem para o desenvolvimento de tecnologias e formam profissionais preparados para atuar em um mercado cada vez mais exigente.
RESILIÊNCIA
A produção agrícola em Ribeirão Preto também pode ser considerada resiliente. Na primeira metade do século 20, o município precisou recalcular a rota e mudar sua principal cultura, saindo do café para a cana-de-açúcar. A transição é descrita em pesquisas acadêmicas e em jornais da época, como no artigo “Do café à cana-de-açúcar: o impacto das transformações econômicas nas relações de trabalho na microrregião de Ribeirão Preto entre 1945 e 1985”, elaborado pelos pesquisadores Iliane Jesuína da Silva, Jorge Henrique Caldeira de Oliveira e Lélio Luiz de Oliveira. O trabalho mostra que, entre 1945 e 1985, quando houve a necessidade de adaptações dos resquícios da crise econômica de 1929, ocorreu o redirecionamento da produção – antes amparada na cafeicultura – para o cultivo de algodão e cana-de-açúcar, além do atendimento ao mercado interno.
Após a crise de 1929, a Segunda Guerra Mundial e o período Vargas, o país enfrentaria mais um ciclo de crises políticas e econômicas. Com o golpe militar, em 1964, e a crise do petróleo, na década de 1970, o Governo Brasileiro instituiu o Programa Nacional Proálcool, visando estimular uma forte alternativa de energia aos derivados de petróleo. Consequentemente, ampliou-se rapidamente a produção da cana-de-açúcar no país, em especial no estado de São Paulo. As áreas de cultivo de café, arroz e algodão sofreram retração, enquanto houve aumento moderado do feijão e do milho, e a área plantada de cana-de-açúcar aumentou em 268%. “Embora Ribeirão Preto seja historicamente conhecida pela predominância da cana-de-açúcar, existem outras culturas que podem ser promissoras para a região no futuro, tais quais amendoim, flores, frutas, hortaliças, eucalipto, bem como a produção de alimentos orgânicos”, conclui Scare.