Enquanto eu viver...

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Tango: não tem idade para começar; e quem aprende nunca mais quer parar

Na Vila Virgínia, em Ribeirão Preto, há uma casa muito diferente das outras... A fachada modesta, na rua estreita, que remete ao passado, esconde uma espécie de portal. Quem se atreve a atravessá-lo desembarca em Buenos Aires, onde o tango nasceu, no fim do século 19, intenso, dramático, feito de abraço e silêncio.

 

A casa é de Luzia Bidoia Lopes da Silva, de 80 anos. Dançarina de tango há quase quatro décadas, ela e o marido transformaram a antiga oficina de marcenaria, no quintal – onde a família ganhou seu sustento por muitos anos – em um belo salão de dança com piso xadrez, mesas convidativas e muitas lembranças de bons momentos espalhadas pelas paredes. Ali, os espelhos não refletem apenas a imagem de quem dança pela pista, mas, principalmente, a coragem de quem decide aprender algo novo.

 

Na vida de Luzia, o tango entrou por intermédio do marido, José Sérgio, já falecido, que viu um anúncio de aulas no jornal e os inscreveu. “Foi em abril de 1990. Nós já dançávamos outros ritmos, faltava apenas esse. Ele viu que um professor argentino, Juan, estava dando aula na escola Garima Augusta e começamos. Tenho o comprovante até hoje. Foi uma felicidade imensa! Cada semana aprendíamos figuras [passos] diferentes. Não perdíamos uma aula”, recorda.

 

Toda semana Luzia e o marido chamavam um novo casal para treinar em sua casa. “O espaço era muito simples, mas eles adoravam. Tinha várias gerações, jovens e mais idosos”, conta. Assim nasceu o “Club Del Tango”, entre amigos do tempo em que faziam aulas. Depois que o marido partiu, há quatro anos, ela e o neto atenderam ao pedido dele de não deixar o espaço morrer.

 

O tango faz parte da vida de Luzia. É exercício, prazer e terapia, tudo junto. “Lembro dos momentos quando dançava com meu marido. Era muita emoção! Ficamos conhecidos. Sempre éramos convidados para algum evento”, recorda.

 

Para ela, além dos benefícios de melhorar a disposição, a postura, o equilíbrio e elevar a autoestima, o tango representa uma forma de fazer amigos. “Criei vários laços de afeto. As turmas vão sempre se renovando. É bom também, assim sempre fazemos amigos novos. Recebo muito carinho de todos”, afirma.

 

Quem pratica diz que há muita cumplicidade no tango, mas não é uma exigência ser dançada por um casal. “Podem ser apenas amigos ou colegas querendo a mesma coisa: dançar”, diz Luzia.

 

O gênero une gerações e rompe barreiras. “Não tem idade certa. Quem acha que já passou seu tempo não sabe o que está perdendo. É uma pena, porque sempre é tempo de começar. O que importa é dançar”, afirma.

 

Depois de muitos anos dançando, Luzia ouve a música e o corpo já vai sozinho. “Parece até que já conhece o caminho. E quando termino de dançar e vêm os aplausos... Ahhh é muito gratificante. Enquanto eu viver, estarei dançando. Sinto-me útil, inclusa, no meio dos tangueiros. Sejam todos muito bem-vindos”, conclui.



O clube

 

O salão já foi mais cheio. O tempo levou alguns parceiros de pista. Outros ficaram idosos demais para continuar, mas tem sempre alguém começando, em busca de um lugar para treinar. O Clube Del Tango se reúne e abre as portas para frequentadores assíduos ou curiosos em busca de aprender, sempre às quartas e sextas-feiras, a partir de 20h30. Neste espaço, as histórias atravessam gerações.

 

O tango, ali, virou herança. Foi onde o arquiteto de 28 anos Felipe Lopes da Silva, vendo os avós dançarem, inspirou-se a aprender também. “Eu tinha 7 anos. Ficava na casa da minha avó, via eles e os amigos ensaiando e quis dançar também. Fui aprimorando e comecei a ser chamado para apresentações de final de ano, no Teatro Municipal, no Theatro Pedro II. Nunca mais parei”, conta Felipe.

 

Para ele, o tango é terapêutico. “A dança traz leveza para a vida da gente. Às vezes, você está em um momento difícil e ela faz você recuperar o equilíbrio. Depois de um dia ruim, você começa a escutar a música, a dançar e esquece os problemas”, afirma.

 

Também por isso seu avô, Sérgio, pediu para darem continuidade ao espaço. “Minha avó ficou muito triste depois que ele faleceu, não sabia se continuaria, mas este é o seu legado e também um espaço de todos os amigos que eles fizeram juntos ao longo da vida”, pontua.

 

Durante a pandemia, aproveitaram para reformar o local. “Já era um espaço bonito e aconchegante, mas ficou ainda melhor. Pena que meu avô não chegou a ver, mas a reforma foi também uma forma de cuidado com a memória e com o futuro”, ressalta Felipe.

 

Entre as mudanças, um detalhe especial foi a chegada do piano, ideia que surgiu quando Sérgio ainda estava vivo e rendeu tardes gostosas. “Às vezes, os amigos se reuniam e tinha um pianista na turma, que se juntava com outro violinista e o sarau saia... Mais uma característica do espaço, que chama os amigos para se divertirem”, acrescenta o neto. Essa, talvez, seja a maior beleza do Clube Del Tango: não é só um lugar para dançar, mas um espaço de pertencimento.

 

Outras histórias

 

“Eu sou da dança desde 1975”, conta Miriam Peto, com a naturalidade de quem fala da própria respiração. Professora de dança, ela fez balé, jazz, dança de salão e salsa. Ela frequenta o espaço desde 2009, religiosamente às quartas, e agora também às sextas. “Quem começa a frequentar se apaixona. Nós somos todos apaixonados”, diz.

 

Adelaide Ferriolli chegou antes, em 2003, quando ainda fazia aulas em outro espaço da cidade. “A gente nem sabia que existia esse clube”, lembra. Apareceu por convite e ficou por amor à dança. “O tango é emoção, é coração! Você vive uma vida aqui dentro”, comenta.

 

No dia a dia, dizem, as pessoas estão cada vez mais distantes, cada uma no seu celular, no seu mundo. No tango, é preciso ouvir o outro com o corpo, confiar, estabelecer conexão, esperar, sentir. O tango ensina algo que não está nos passos: entrega. Para muitas mulheres, inclusive, o desafio começa aí, no “deixar-se ser conduzida”, explicam.

 

No Clube Del Tango, não há pressa. “A gente troca os parceiros, erra, ri, aprende de novo, sem julgamentos, sem competição. Muita gente acha lindo, mas diz que é difícil. Sem nos colocar à prova, não aprendemos nada. Não é difícil”, reforçam os tangueiros.

 

Professora a vida inteira, Neusa Maria Tonhatti, 75, encontrou na dança uma nova sala de aula. Em 2017, decidiu não adiar mais o que o coração mandava. Matriculou-se em uma escola e deu os primeiros passos que o corpo e a alma pediam. “Muitas paixões na vida ficam guardadas. Dançar era uma”, conta.

 

Em três meses de aula, descobriu o tango. Foi amor à primeira vista – ou ao primeiro passo. Largou todo o resto e ficou só com ele. “O começo foi difícil, como toda dança. Passos que não encaixam, timidez, corpo que parece não obedecer”, lembra. A vontade, porém, era maior. “Cada passo que você aprende é uma conquista. Quando você gosta, nada te faz desistir”, confessa.

 

Hoje, a turma de tangueiros tem prioridade em sua vida. “São os primeiros a serem chamados nos meus aniversários. Você se sente pertencente ao grupo, as horas com eles não quer que passem porque são todos amigos”, afirma.

 

Duas vezes por semana, Neusa tem compromisso certo com o tango. Segundo ela, a postura melhora, a disposição aparece e a alegria se instala. “Às vezes você está cansada, mas quando chega no salão e começa a ouvir a música, tudo se acalma. Você dança e vira adolescente. Vibra. É uma alegria só! Não existe ‘envelhecência’, a gente nem pensa nisso”, afirma.

 

Para quem sente vontade, mas acha que não consegue, a tangueira é enfática: “Pare de pensar isso! Todos são pacientes, respeitosos, receptivos. Fazemos troca de parceiros, e isso é ótimo. Claro que sempre tem aquele com quem você se encaixa melhor, mas é muito bom ter contato com outras maneiras de dançar e aprender com todos. Seja você!”, ensina.

 

Quando começa a tocar uma música, ela diz que já começa a procurar um parceiro. “É como se meu corpo, minha alma, quisessem se perder em sons e movimentos. O tango é como uma mágoa, uma dor, um sentimento dentro de você que precisa ser vivido. E você não quer que acabe”, diz.

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