Entre a escuridão e a luz
Dino Belardi, 61 anos, lança exposição em Ribeirão Preto e espetáculo teatral em São Paulo
Na vida de Dino Belardi — artista plástico, diretor de teatro e professor de artes — nada foi por acaso. “Foi muito importante ter tido a Lourdes Sampaio como minha professora no jardim da infância. Ela fazia parte de movimentos artísticos no Brasil e fora, e conduzia as crianças com uma liberdade rara”, lembra.
No ateliê da educadora, uma sala viva onde cada criança escolhia seu próprio material, ele descobriu o encantamento pelo fazer artístico. “Acho que foi a experiência mais determinante da minha vida”, relata.
Outras “casualidades” também moldaram seu olhar. Como morar próximo à Cerâmica São Luís, onde o barro se tornou uma extensão das mãos; passar fins de semana no sítio da família, em Brodówski, convivendo desde cedo com o universo de Portinari; e manter a convivência com dois tios artistas, que transformaram a arte em algo cotidiano e possível.
Aos 29 anos, enquanto lecionava na Escola Waldorf, integrou a primeira turma do Centro de Arte São Paulo, um curso voltado à formação de artistas dentro da linha antroposófica, com mestres brasileiros e estrangeiros. Foram cinco anos imersos no estudo dos fenômenos da cor, na teoria cromática de Goethe e na linguagem pictórica.
“Ali pude me aprofundar de verdade. A pintura me capturou por completo”, diz. A escultura também esteve presente, mas foi a relação entre luz, cor e materialidade que se tornou seu eixo de criação.
ARTE VISÍVEL
Aos 61 anos, Dino acaba de inaugurar a exposição Visível, na galeria ADDA, do Shopping Santa Úrsula. Com curadoria de Leila Costa Quaglio, a mostra segue até 27 de janeiro de 2026 e compartilha com o público a predileção do artista pelo papel como suporte principal.
Um ponto de atenção é a série de trabalhos que se concentra no diálogo entre o preto e o branco, substituindo a cor pela intensidade das manchas, pelo dinamismo dos ritmos e pela precisão das linhas. “Toda cor tem o seu grau de luz e de escuridão. Quando eu pinto o preto e o branco, na verdade, vejo cores neles. Além disso, trazem esse drama da existência humana, entre a escuridão e a luz”, explica o artista.
A exposição permite ao público acompanhar sua evolução técnica e conceitual ao longo de quase uma década. Seu processo criativo é uma verdadeira alquimia, e sua pesquisa não se restringe a um único tipo de tinta. Dino encontra na mistura de materiais o caminho para que a cor evoque planos e situações. “Cada um tem uma individualidade e função. Gosto disso”, enfatiza.
ENTRE O COLETIVO E O SILÊNCIO
A relação apaixonada e sólida com o teatro também marca a trajetória de Dino. “Se eu olho todos esses anos que passei, tanto na pesquisa com o teatro, na Cia. Cornucópia, quanto na pesquisa entre linguagens em teatro e movimento, na Cia. Terra Nova, em São Paulo; com a Euritmia; no trabalho de cenógrafo, de ilustrador, de pintor, sinto que tudo o que vivi são etapas que me tornaram mais maduro”, reflete.
“Hoje, transito entre o coletivo do teatro e o lugar mais silencioso da pintura com muita tranquilidade.”
Recentemente, o artista estreou em São Paulo uma temporada do espetáculo Lokona, uma adaptação livre e contemporânea do clássico Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam. “Começamos com esse projeto antes da pandemia. Era uma leitura dramática para o Sesc. Agora retomamos em tom de carnavalização”, conta Dino, que participa desde a concepção geral e direção do espetáculo até a adaptação do texto, em parceria com Eduardo Akiyama, além de cenografia, figurinos e visagismo, assinando toda a parte visual da peça.
DEVORADOR DE ARTE
Ativo e versátil, Dino segue deixando partes de si espalhadas pelo caminho — em cada obra, cada projeto, cada aluno. A faceta de professor nasceu há 40 anos, do encontro com Adalgisa Balieiro, que o acolheu e impulsionou seu início como arte-educador, em uma parceria que permanece até hoje na Escola Interativa.
Com a maturidade, segundo ele, as inquietações mudam. “Neste momento da humanidade, com tantos desafios, sinto que minhas questões com a arte são bem diferentes das que eu tinha antes. Hoje quero me aprofundar mais nas minhas linguagens, tanto no teatro como na pintura. Temáticas que me ajudam também a responder determinadas questões”, afirma.
Para isso, Dino tem lido autores como Byung-Chul Han, especialmente A Salvação do Belo, e mergulhado na antroposofia dos pensamentos filosóficos de Rudolf Steiner. Ambos oferecem pistas para pensar o fazer artístico no mundo contemporâneo. “Estou mais comigo, mais com a pintura, mas sem isolamento, porque dialogo com outros artistas, leio, pesquiso e me movimento. Só quero me dedicar muito mais, no próximo ano, à pintura. Preciso — e estou gostando — desse lugar mais comigo mesmo, através das cores e das formas”, finaliza.