Maturidade literária
Mulheres que atravessaram décadas de trabalho e reinvenções contam como encontraram na escrita madura um espaço de expressão, legado e resistência cultural
A escrita sempre acompanhou a vida de Maria Conceição Alves de Lima, mas foi depois dos 60 anos que ela deixou de ser apenas uma prática constante para se tornar uma decisão definitiva. Professora, pesquisadora, gestora acadêmica e funcionária da antiga Eletrobrás Furnas, Conceição passou décadas dividindo-se entre a escrita por dever, relatórios, artigos, textos institucionais e a escrita por paixão. A virada veio com a aposentadoria e a mudança para Ribeirão Preto, quando escolheu transformar a literatura no eixo central da própria rotina. “Depois dos 60, o que mudou foi a determinação. Hoje escrevo por opção, por decisão de me expressar perante o mundo”, afirma.
O tempo, que para muitos representa limite, tornou-se ferramenta. Conceição escreve com a consciência de quem acumulou repertório, memória e reflexão. “Escrever nessa fase é consolidar a própria história e transformá-la em legado”, diz. Com formação sólida em Linguística e Educação, ela transita com liberdade entre poesia, contos, romances, ensaios e teatro, além de refletir sobre temas contemporâneos, como linguagem digital e inteligência artificial.
A maturidade trouxe menos concessões e mais coragem. “Hoje escolho livremente meus temas, sem medo do julgamento. A escrita ficou mais autêntica e mais universal”, afirma.
Essa liberdade, no entanto, não ignora os obstáculos. Para Conceição, o etarismo no meio literário existe e se agrava quando se cruza com o machismo. “A subestimação da voz feminina, especialmente da mulher idosa, é algo indecente na nossa civilização”, resume. Ainda assim, ela segue escrevendo com intensidade e variedade, certa de que a literatura não obedece a calendários biológicos, mas à urgência de dizer.
A história de Conceição ajuda a compreender um movimento crescente de mulheres que, após décadas de trabalho, cuidado e reinvenções pessoais, passam a escrever com menos pressa de agradar e mais compromisso com a própria voz.
ESCUTA E PERMANÊNCIA
A experiência de Irene Coimbra de Oliveira Cláudio percorre outro caminho, igualmente revelador. Professora de idiomas aposentada, ela publica desde a década de 1990, mas reconhece que sua escrita se transformou profundamente ao longo do tempo. “Hoje escolho melhor as palavras, corto com mais consciência. Escrevo com menos excesso e mais responsabilidade”, declara.
Nascida em Patrocínio Paulista, criada em Itirapuã e formada pela escuta – das histórias do pai, dos pacientes de uma clínica, dos leitores de uma livraria onde trabalhou –, Irene construiu uma literatura atravessada pela oralidade, pela memória e pelo pertencimento.
Em Ribeirão Preto, ela se consolidou como autora e articuladora cultural. Integra a Academia Ribeirãopretana de Letras, a Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e a União de Escritores Independentes. Também apresenta e produz o programa Ponto & Vírgula, na TVRP, dedicado a divulgar a produção literária da região. “Criar pontes entre autores e leitores sempre fez parte da minha ética. O que hoje é encontro, amanhã é memória”, diz.
Para Irene, escrever depois dos 60 é afirmar que a palavra não envelhece. “A idade não fecha portas. O silêncio imposto é que fecha. Se a vontade de escrever apareceu agora, é porque agora você tem o que dizer”, reflete.
Sua defesa da escrita madura é prática e política. Implica ocupar espaços, sustentar a continuidade cultural e garantir que outras mulheres não se sintam fora do tempo.
Dados recentes ajudam a contextualizar esse cenário. Segundo o IBGE, as mulheres brasileiras vivem, em média, cerca de sete anos a mais que os homens e representam a maioria da população acima dos 60 anos. Pesquisas sobre envelhecimento ativo também indicam crescimento da participação feminina em atividades intelectuais e culturais após a aposentadoria, especialmente aquelas ligadas à leitura e à escrita. Ainda assim, a visibilidade dessas produções segue limitada, muitas vezes restrita a circuitos locais ou independentes.
Ao escreverem, publicarem, organizarem saraus, antologias e programas culturais, Conceição e Irene ampliam o campo de escuta para outras mulheres que chegam à maturidade com histórias acumuladas e poucas oportunidades de expressão. Não escrevem apenas para si, mas para abrir caminhos.
“Escrever depois dos 60 é abrir uma janela para dentro de si mesma e outra para o mundo”, resume Conceição. Irene concorda. “Escrevo porque a escrita ainda é a forma mais verdadeira que encontrei de pensar, sentir e elaborar o mundo.”
TEMPO DE ESCRITA
Escrever depois dos 60 não é exceção na história da literatura, mas ainda é pouco visível. Autoras como Cora Coralina, que publicou seu primeiro livro aos 75 anos, tornaram-se símbolos de uma criação que amadurece com o tempo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atividades intelectuais, como a escrita, contribuem para a saúde cognitiva, emocional e social na maturidade, além de fortalecer vínculos e senso de pertencimento. Ainda assim, a produção literária feminina nessa faixa etária segue à margem do mercado editorial tradicional, sustentada sobretudo por iniciativas independentes e redes locais.