O maestro da praça

O maestro da praça

Miguel Barato relembra uma vida dedicada à música e à educação e não pensa em parar com os concertos dominicais na praça de Pontal

Um apartamento simples, iluminado e silencioso, no Centro de Ribeirão Preto, guarda parte da história musical da cidade de Pontal. Aos 85 anos, o policial militar aposentado e maestro Miguel Barato, ao lado da esposa, Nadir Bars Barato, relembra como a música o ajudou a construir um propósito de vida. “Graças à banda que tocava no coreto da praça central, eu me formei. E foi por meio dessa formação que encontrei meu lugar no mundo”, diz.

 

Miguel nasceu em Pontal, em 1940, filho de José Barato e Carolina Elvira Michilin Barato. A infância foi dura, em um tempo em que estudar era privilégio. Caminhava descalço pelas estradas, carregando uma pasta de madeira rumo ao grupo escolar. De madrugada, antes das aulas, ajudava na olaria da família, moldando tijolos. Tinha pouco mais de 7 anos. “Aprendi cedo que nada acontece sem trabalho”, afirma. Aos 14, precisou interromper os estudos para se dedicar integralmente ao sustento da casa.

 

Se no campo a sobrevivência exigia força, foi na música que encontrou identidade. Começou como aprendiz da banda escolar e, mais tarde, integrou a Banda de Música da Polícia Militar do Estado de São Paulo. A experiência o aproximou de mestres, referências e orquestras da região. Discreto, estava sempre presente, trombone erguido, cumprindo com rigor as notas previstas. A formação musical teve início em 1957, com a família Spínola, e ao longo da vida se desdobrou em múltiplos papéis: artista, professor, regente e compositor.

 

A carreira na Polícia Militar começou oficialmente em 1961, em Sorocaba, e seguiu em Ribeirão Preto a partir de 1962. Foram mais de 30 anos de serviço marcados por disciplina, responsabilidade e firmeza — características que lhe renderam respeito entre praças e oficiais. Em 1991, passou para a reserva no posto de 1º tenente. Encerrava-se um capítulo, enquanto outro ganhava força.

 

Foi também na corporação que Miguel consolidou seu nome como educador musical. Em um cenário marcado pelo silêncio dos coretos e pelo abandono de instrumentos, consequência da falta de apoio público e do desinteresse popular, ele sempre defendeu a continuidade das bandas. “Sempre vai haver alguém para dar sequência”, acredita. Para ele, bandas são mais que grupos musicais: são espaços de cidadania, civilidade e formação. “Como as aulas de música são caras, a banda é um meio humilde, mas com vocação, de aprender e seguir o seu caminho”, afirma. O palco era a praça; a plateia, o povo.

 

Ensinar para transformar

 

Casado desde a juventude com Nadir, Miguel encontrou nela a parceira de uma vida inteira. “A marca registrada dele é a perseverança, a capacidade de não desanimar quando tudo parece difícil”, resume. Ao lado dos três filhos — Edson, Rogério e Fernando —, ela define a trajetória do marido como a de “um pontalense que trilhou sua vida com muito trabalho e dedicação”.

 

Ao longo das décadas, o maestro ensinou como poucos. “Diferente de outros ofícios, em que quem se forma evita a concorrência, ele sempre quis formar, somar e ensinar pessoas de qualquer nível socioeconômico”, conta Nadir. Um episódio emblemático foi o concurso para a escolha do Hino de Pontal: Miguel ajudou concorrentes, inclusive adversários diretos, a preparar partituras e apresentações. Ele venceu. Um gesto de absoluto desprendimento.

 

A música salva

 

A imagem de Miguel Barato atravessa gerações: o coreto na praça, músicos alinhados, instrumentos dourados refletindo o sol. A banda executava dobrados, choros, valsas e canções populares. Era a cidade respirando humanidade.

 

Em Ribeirão Preto, o maestro tornou-se peça central no resgate da tradição das bandas dominicais, quase desaparecida. A retomada ganhou força quando passou a integrar o programa “O Nosso Artista”, da Secretaria Municipal da Cultura, voltado à recuperação de projetos históricos. Um deles, batizado de “Zequinha de Abreu”, tinha como missão reviver as bandas de coreto. Miguel assumiu, literalmente, o bastão.

 

Em Pontal, seu legado é amplamente reconhecido. Além de autor do hino municipal, a Associação Banda Municipal de Pontal segue ativa, desenvolvendo projetos musicais, educativos, cívicos e culturais. Duas vezes por semana, Miguel vai à cidade: em um dia, ensina; no outro, rege a banda na praça. Atualmente, a orquestra conta com cerca de 20 estudantes — menos da metade do que havia duas décadas atrás. “Até o fim dos anos 1990, precisávamos selecionar alunos, e muitos ficavam na lista de espera por falta de instrumentos ou espaço. Hoje é o contrário: precisamos buscar músicos. A competição com a internet e os smartphones é grande, mas cada aluno importa”, reflete o maestro, que ocupa a cadeira 14 da Academia Pontalense de Letras.

 

Oriundo de uma geração em que estudar era uma luta, formar-se pedagogo — ainda que tardiamente — no Centro Universitário Moura Lacerda, em Ribeirão Preto, foi uma conquista decisiva. Tornou-se professor por vocação e por ofício.

 

Entre os uniformes da Polícia Militar, os gestos firmes com a batuta e as madrugadas copiando partituras, Miguel Barato construiu uma biografia que mistura civismo, arte, trabalho e poesia. O temperamento exigente nunca apagou a ternura do educador que, ao ver talentos florescerem, sentia o dever cumprido. “A banda é humilde, mas com vocação”, repetia, consciente de que o sopro de um trompete pode ensinar mais do que longas teorias.

 

Hoje, sentado na sala tranquila do apartamento, observa a cidade pela janela. Ribeirão Preto cresceu. Muitas das bandas que ecoam em coretos e cerimônias carregam traços do que ele plantou. Pontal, sua origem, mantém viva parte dessa obra — nos ritmos, nos desfiles, no hino e nos concertos dominicais da praça central.

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