Pioneirismo, tradição e ousadia
A receita seguida pela empresária Sueli Tiemi Hayashida no comando da marca de restaurantes Mirai, que ensinou Ribeirão Preto a saborear comida japonesa
A empresária da gastronomia Sueli Tiemi Hayashida, 67 anos, é filha de uma família japonesa cuja relação com o alimento sempre foi profunda. Até a década de 1990, seus pais tinham uma peixaria na cidade, que era ponto de encontro, conversa e confiança – com e entre fregueses. “Minha mãe avisava os clientes: ‘vamos abrir um restaurante japonês’”, lembra.
Quando abriram as portas do Mirai, em 10 de novembro de 1995, Ribeirão Preto ainda não estava pronta para o peixe cru. Distante do litoral, a cidade mal conhecia a culinária japonesa. Apostar nesse caminho, portanto, exigia mais do que visão empreendedora: pedia coragem. A família de Sueli não só tinha como queria “fazer uma coisa nova na cidade”. “O Mirai abriu caminho e virou tradição. Ensinou Ribeirão Preto a comer comida japonesa”, orgulha-se a empresária.
O restaurante nasceu pequeno, quase artesanal, instalado no Jardim Macedo, onde funcionou por 25 anos. O nome — que em japonês significa “futuro” — parecia um desejo lançado no tempo. Para dar os primeiros passos, Sueli e Miriam Hayashida, sua sócia, buscaram a ajuda das tias, que produziam bentôs (tradicional marmita individual japonesa, servida em uma caixa compartimentada) para o bairro da Liberdade, em São Paulo.
Como a Ribeirão Preto dos anos 1990 não tinha familiaridade com sashimis, sushis ou cuidado rigoroso com o peixe, Sueli conta que foi preciso treinar o pessoal do zero. “Um ia ensinando o outro. O principal era fazer bem-feito, mesmo que devagar. Foi assim que começou nossa saga”, narra.
A educação do paladar ribeirãopretano foi construída com constância. Reformas sucessivas transformaram a antiga casa em um aconchegante restaurante. As salas reservadas — os tradicionais Ozashiki (お座敷)— viraram cenários de histórias, comemorações e encontros afetivos. Com o tempo, novas unidades surgiram. Hoje, são quatro: três em Ribeirão Preto e uma em São José do Rio Preto. Atualmente, o filho de Sueli, Thiago Hayashida, também cuida do negócio.
Crescer, para Sueli, nunca significou romper com a essência do Mirai. O cardápio-base permanece o mesmo, mas cada unidade ganhou identidade própria. Na do Shopping Iguatemi, entrou a culinária tailandesa. “Contratamos um chef de Barcelona. Ele ficou um ano com a gente introduzindo esse cardápio”, conta. Na unidade da avenida João Fiúsa, a brasa virou protagonista no preparo de peixes, polvo, lagosta e robatas. “Ali era uma churrascaria, por isso tem um braseiro grande e decidimos variar. A gente vai inovando para não ficar enjoativo”, explica a empresária.
Música ao vivo, jazz, DJ, carta de vinhos, saquês e drinks autorais ajudaram a ampliar o público nas unidades sem descaracterizar a proposta.
O NOVO E O ANTIGO
Para Sueli, comida japonesa é feita para se comer primeiro com os olhos e “para ser saboreada”. Por isso, ela evita reduzir a experiência ao consumo rápido. Sem demonizar os rodízios, faz uma ressalva: quantidade não pode substituir qualidade. Para ela, a estética, o cuidado e o respeito ao ingrediente fazem parte da cultura japonesa — e são valores que o Mirai preserva.
O controle rigoroso da matéria-prima é quase um ritual. Até hoje é Sueli quem compra os peixes e frutos do mar. Há peixeiro exclusivo, limpeza em temperatura controlada, maturação, atenção às técnicas mais atuais. Vieira, bluefin, ovas, ouriço, ostras, mexilhões e lagostas convivem com pratos clássicos que o público se recusa a abandonar. “Se a gente tira, o cliente pede. Então, convivem o novo e o antigo”, diz a empresária.
Mais do que restaurante, o Mirai tornou-se referência afetiva. Hoje, Sueli vê clientes que eram crianças voltarem com seus filhos e até netos. “Às vezes a criança prefere vir comer no Mirai do que um sanduíche. Isso é muito bonito”, encanta-se. Esse traço de continuidade se repete entre a equipe do restaurante: há funcionários com 30, 25, 20 anos de casa. “Somos uma família”, diz a empresária. O acolhimento se estende aos serviços. O delivery, por exemplo, tem embalagens desenvolvidas especialmente para preservar sabor e textura, e os eventos são sempre personalizados. “O cliente pede, a gente serve.”
Atenta ao futuro, Sueli consulta cafés especiais, confeitaria japonesa e toques de culinária coreana. “Não dá para estacionar”, diz. Sob seu comando, a trajetória do Mirai traduz essa ideia: experimentar o novo. Depois de três décadas, fez do Mirai, mais do que um restaurante japonês, praticamente um “embaixador cultural”, onde a tradição e a reinvenção caminham juntas.
OZASHIKI
Refere-se a um estilo tradicional japonês de banquete ou festa privada, realizada em uma sala forrada com tapetes de tatame. Frequentemente associado à cultura das gueixas (ou maiko/geiko), esses eventos envolvem refeições refinadas (kaiseki), conversas, apresentações de dança e jogos interativos. Tradicionalmente, ocorre em um ochaya (casa de chá) ou ryotei (restaurante tradicional), em ambiente intimista de tatame.
DICAS DA SUELI...
... para quem está começando na comida japonesa: Experimente o Pad Thai (macarrão de arroz com legumes, camarão ou frango), na unidade do Iguatemi
... e para quem gosta de experimentar: Peça Sake Sekitan (salmão na brasa com molho de laranja), na unidade Fiúsa