Reflexões para os idosos de amanhã
Tema da redação do Enem provoca jovens a refletirem sobre ser idoso em um país que envelhece a cada ano
“Perspectivas acerca do envelhecimento da população brasileira” foi o tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) deste ano — porta de entrada para o Ensino Superior público no Brasil —, chamando a atenção para a importância de se refletir, ainda jovem, sobre como será a vida em um país com metade ou maioria de idosos. É o que acontecerá em algumas décadas se o crescimento proporcional da população idosa mantiver o ritmo apurado nos últimos dois Censos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Segundo dados do órgão, na década de 1950 a expectativa de vida do brasileiro, ao nascer, era de 48 anos. Em 2024, chegou a 76,6 anos. A Projeção das Populações do instituto mostra que, em 2014, a proporção de brasileiros com mais de 60 anos era de 12% em um universo de 200 milhões de habitantes. Dez anos depois, subiu para 16,1% — mais de 34 milhões de pessoas —, e a projeção é de que, em 2034, esse grupo represente 20,9% de uma população estimada em 218 milhões de habitantes.
Válida, portanto, a provocação feita à ponta mais jovem do espectro etário para que reflita sobre as necessidades da outra ponta, onde um dia chegará. Assim, poderá cobrar, junto aos governos, políticas públicas de curto, médio e longo prazos para atender a uma população idosa que só aumenta em proporção e longevidade.
E como esta deve ser uma preocupação de todos, ouvimos autoridades que contribuem para essa reflexão.
ENVELHECERES DIFERENTES
Para a psicóloga Larissa Spaziani, formada pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), em um país repleto de desigualdades como o Brasil, sabe-se que o processo de envelhecimento não acontece da mesma forma para todas as pessoas. É necessário considerar fatores como renda, gênero, etnia, acesso à saúde e oportunidades ao longo da vida para projetar como cada indivíduo pode chegar à terceira idade.
Segundo ela, para oferecer qualidade de vida aos idosos, é fundamental promover políticas e ações que compreendam quatro dimensões: físicas, emocionais, sociais e comunitárias.
“Considero imprescindíveis ações voltadas à saúde mental, que incluem espaços de convivência e oficinas de estimulação cognitiva; participação em projetos que aproximem gerações, como universidades abertas, oficinas de tecnologia ou atividades em escolas, contribuindo para que o idoso exerça seu papel social de maneira ativa”, afirma.
Larissa destaca como um marco importante no cuidado com a população mais velha a criação do Estatuto do Idoso, em 2003. “Desde então, vimos avanços importantes. Com o aumento da população idosa, percebe-se que há uma preocupação maior com qualidade de vida e autocuidado ao longo de toda a trajetória.”
No entanto, ela ressalta que ainda há um longo caminho a percorrer. “Percebo que tanto no Brasil quanto em nosso município existe um movimento crescente por parte da sociedade e dos governantes para assegurar direitos e oferecer políticas públicas voltadas ao idoso. São passos importantes, mas temos que diminuir a distância entre o que está previsto em lei e o que é efetivamente ofertado na prática”, declara.
A psicóloga entende que tanto o Brasil quanto a cidade de Ribeirão Preto ainda estão em processo de preparação para lidar com o envelhecimento populacional, mas alerta que o país envelhece rapidamente e as transformações sociais nem sempre acompanham esse ritmo. “Estamos caminhando, mas é um percurso que exige investimento contínuo, políticas integradas e, principalmente, uma mudança cultural sobre o que significa envelhecer”, conclui.
RIBEIRÃO PRETO
Conforme dados do Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados do Estado de São Paulo), em Ribeirão Preto a população com 60 anos ou mais já representa 18,2% dos 711.054 habitantes aferidos no Censo de 2024 — um total de 129.964 pessoas.
Na Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto, a Área Técnica de Saúde da Pessoa Idosa visualiza o envelhecimento populacional como um desafio permanente. A chefe do setor de ações programáticas em atenção primária, Adriana Bispo, detalha algumas das ações já conduzidas pelo departamento para esse público.
“A rede municipal de Saúde disponibiliza para os idosos a vacinação específica prioritária, a agenda de consultas protegida para pessoas a partir de 70 anos, o agendamento pelo aplicativo Saúde Digital, além de respeitar a prioridade no atendimento presencial”, lista.
O setor também promove atividades físicas por meio do Programa de Integração Comunitária (PIC), com grupos de caminhada nas unidades de saúde, hortoterapia, grupos de artesanato e práticas como yoga, tai chi chuan, auriculoterapia e reiki.
“Pontuamos que as Unidades de Saúde realizam consultas com médicos, enfermeiros e farmacêuticos, atendimento multiprofissional e encaminhamentos de saúde necessários”, afirma Adriana, acrescentando que as farmácias das unidades disponibilizam um rol de medicamentos.
Já a Secretaria Municipal de Assistência Social de Ribeirão Preto, na figura do secretário Júlio Balieiro, destaca instrumentos voltados especificamente para o fortalecimento do convívio social e da autonomia da pessoa idosa, como o Centro de Convivência do Idoso, que promove cursos, atividades culturais, danças e ações de sociabilidade.
“No âmbito da Subsecretaria de Proteção Social Básica, as equipes técnicas dos CRAS realizam avaliação individualizada, definem prioridades de atendimento, orientam sobre acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC) do INSS e encaminham para benefícios eventuais quando necessário”, afirma Balieiro.
Também são recebidas denúncias e realizado o monitoramento contínuo da demanda de acolhimentos pela Subsecretaria de Proteção Social Especial — Média Complexidade, com a Seção de Serviços à Pessoa Idosa. “Já os CREAS atendem pessoas idosas em situação de ameaça e violação de direitos, como violência física, psicológica e negligência”, conclui o secretário.
E A REDAÇÃO?
Convidado a comentar o tema “Perspectivas acerca do envelhecimento da população brasileira”, o escritor e professor de redação Luiz Puntel destaca que havia muitos repertórios possíveis para serem utilizados pelos participantes durante a escrita.
“Os candidatos foram convidados a dissertar, de forma argumentativa, a respeito dessa temática. Certamente, em sala de aula, os professores de redação a discutiram com seus alunos, já que teve destaque na mídia. Os candidatos devem ter ficado atentos à proposta de intervenção, ou seja, à solução dada ao tema proposto”, avalia.
Segundo ele, aqueles que treinaram durante o ano, escrevendo sobre temas variados, souberam citar repertórios como filmes ou romances que abordam a velhice, além de utilizar ministérios e órgãos estatais competentes como agentes para a solução.
ADAPTAÇÕES CONTÍNUAS
Para Larissa Spaziani, os serviços já existentes em Ribeirão Preto representam avanços importantes na direção de um envelhecimento mais ativo e integrado.
“Iniciativas como vacinação prioritária, agenda protegida, grupos do PIC, práticas corporais, atendimento multiprofissional, além das ações culturais e sociais ofertadas pelos Centros de Convivência dialogam diretamente com o que entendemos como cuidado integral, fundamental para a promoção da saúde mental ao longo do envelhecimento”, avalia.
Ela ressalta que essas medidas indicam que Ribeirão Preto avança de forma significativa no cuidado com os idosos e com o envelhecimento saudável. “Essas ações demonstram o reconhecimento de que a pessoa idosa não é apenas alguém que necessita de assistência, mas um sujeito com história, desejos, potencialidades e necessidade de pertencimento.”
Por outro lado, reforça a importância de os órgãos públicos seguirem atentos aos novos desafios que surgem com o envelhecimento populacional acelerado, o que exige adaptações contínuas.
“É natural que surjam novos desafios e que as políticas precisem se adaptar continuamente. Ampliar o alcance das ações, integrar ainda mais os setores da saúde e da assistência, fortalecer o suporte às famílias cuidadoras e expandir as iniciativas voltadas à saúde mental são caminhos que podem potencializar ainda mais o que já vem sendo construído”, conclui.
Foto: Canva