Sempre em frente
“Enquanto eu tiver saúde, sigo trabalhando”, promete José Luiz Seleguim, 71, ao lado do chefe Mike do Carmo Bento, 36

Sempre em frente

Eles seguem trabalhando, estudando e recomeçando; são exemplos que ajudam a explicar um novo conceito para a velhice, mais ativa do que nunca depois dos 50, 60, 70 anos ou mais

Banho, barba, terno, gravata. A rotina de José Luiz Seleguim vinha no piloto automático, mesmo depois da aposentadoria. Certo dia, a cena terminou com uma frase da esposa que o arrancou do transe. “Uai, pra onde você vai?”. Ele respondeu sem pensar. “Vou pro banco, vou trabalhar”. Ela devolveu com sensação de deboche. “Só se for pro banco da praça. Você está aposentado”.


Hoje, aos 71 anos, Seleguim admite que a aposentadoria não trouxe o descanso prometido, mas um susto. “Tive uma redução no salário em torno de 60%. Para poder manter o padrão de vida tive que voltar a trabalhar”, conta. Quatro anos atrás, aos 67, ele recomeçou. Desta vez como gerente de relacionamento em uma distribuidora de equipamentos industriais, na zona norte de Ribeirão Preto. A volta foi decisão econômica e, com o tempo, virou também um projeto de identidade. “Eu me sinto muito útil, ajudo bastante a empresa com a minha experiência e me sinto muito bem trabalhando”, diz.


Na entrevista de contratação, o diretor-geral da empresa, Mike do Carmo Bento, circulou a data de nascimento no currículo e fez questão de inverter a lógica que tantos 60+ conhecem de cor. “Na nossa empresa, a data de nascimento não vale nada. O que vale é o caráter e o profissionalismo”, disse. Seleguim aceitou o salário, o cargo e recebeu uma chance sem condescendência. “Foi uma grande alegria”, declara.

 


A história ilustra um mundo que envelhece e começa a usar uma palavra nova para categorizar os idosos que se recusam a parar. NOLT, sigla de New Older Living Trend (algo como “Nova Tendência de Vida na Maturidade” na tradução do inglês), é a tentativa de nomear o comportamento de pessoas que seguem em movimento, estudam, mudam de carreira, empreendem, aprendem tecnologia, reorganizam o tempo e o desejo.


Segundo o Censo Demográfico, 8,3 milhões de brasileiros 60+ trabalham regularmente, recorde desde o início da série em 2012, de acordo com a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional de Análise de Domicílios) analisada pelo IBG (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O dado indica que a velhice, no plural, voltou a ocupar o mercado e a universidade, às vezes por escolha, muitas por necessidade.

 

O QUE É NOLT AFINAL?


O professor de Economia José Rita Moreira define o NOLT como um conceito sociocultural, difundido em debates sobre longevidade nas redes sociais. Para ele, trata-se de uma mudança de mentalidade. “Envelhecer deixa de ser sinônimo de recolhimento e passa a significar autonomia, propósito e protagonismo, com impactos no trabalho e no consumo”, explica. Ele observa que o “NOLT não é movimento formal, tampouco associação com liderança definida. É uma lente”.


Nessa lente, Seleguim é um exemplo, pois segue ativo no mercado aos 71 e não se descreve como alguém “encerrando ciclos”. Ele se vê como alguém útil em relação com o mundo. “Você voltando a trabalhar se sente útil, volta a ter uma vida profissional ativa.” A palavra “útil” aparece como um antídoto contra a sensação de invisibilidade que a aposentadoria pode impor.


Segundo José Rita, a geração 60+ de hoje vive mais e, em muitos casos, vive melhor, mas convive com pressões financeiras e transformações do trabalho. A informalidade é parte desse cenário. Em 2025, uma análise da FGV apontou que cerca de 57% dos 60+ ocupados estavam na informalidade, sinal de que o trabalho na maturidade pode significar autonomia, mas também vulnerabilidade. 


Ao mesmo tempo, há uma mudança cultural em curso. Não por acaso a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2021 a 2030 como a Década do Envelhecimento Saudável, com a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde) incentivando ações para melhorar a vida das pessoas mais velhas e de suas comunidades, inclusive mudando a forma como sociedades pensam e agem em relação à idade. 

 


“Eu quero aprender”, crava a estudante universitária Sílvia Maria Lucas, 52

 

Sílvia Maria Lucas, 52 anos, secretária, entrou na faculdade de Psicologia aos 49. “A decisão veio de um desejo antigo, não de impulso”, diz. O que parecia atraso virou oportunidade quando amigos e a empresa onde trabalha ofereceram incentivo. “Esse apoio foi fundamental para que eu decidisse voltar a estudar.” Ela descreve uma maturidade que muda o jeito de aprender. “Você aprende com propósito e não por obrigação. O estudo deixa de ser ‘tenho que passar de semestre a todo custo’ e vira ‘eu quero aprender’”, afirma. 


Silvia é o retrato do que o professor Wilson José Alves Pedro, do Departamento de Gerontologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), chama de “pluralidade do envelhecer”. Para ele, a primeira demarcação é jurídica e tem peso político. “O termo que eu recomendo que se trabalhe é pessoa idosa”, diz, lembrando que essa categoria dá visibilidade a direitos e políticas públicas. Ao mesmo tempo, ele insiste que “a velhice é diversa e plural” e que há muitas autoidentificações em circulação, de terceira idade a sêniores, passando por expressões recentes como NOLT.

 

“Envelhecer é diverso, não cabe em um único rótulo”, defende o professor da UFSCar Wilson José Alves Pedro


Wilson puxa a discussão para um conceito da antropologia: alteridade. “Essa capacidade de entendermos as múltiplas manifestações em que se dão os processos de envelhecimento”, explica. Ou seja, trata-se de reconhecer diferenças e permitir que cada pessoa se nomeie sem ser empurrada para um estereótipo.


Quando Sílvia diz que, aos 52, estar na universidade a faz “se sentir extremamente jovem”, não está negando a idade, mas negociando com ela. “Hoje vejo que entrei no momento que era pra ser, que nunca é tarde”, afirma. 


Nilton Cesar Pancim, 53, servidor público, cursa Direito no Centro Universitário Barão de Mauá. “Foi durante a pandemia que percebi essa necessidade”, conta. Ele fala de um recomeço menos romântico e mais prático. “O maior desafio foi a adaptação à nova rotina devido à conciliação entre a família, o trabalho e os estudos.” O incentivo da família vira elemento de sustentação.

“É se sentir vivo”, resume o estudante universitário Nilton Cesar Pancim, 53

 

“Acredito que sem essa motivação seria difícil prosseguir nessa fase da vida”, analisa. “Envelhecer não significa ficar mais lento”, diz o futuro advogado. Para ele, “a experiência contribui para a construção do conhecimento” e dá instrumentos para resolver problemas. 


Há um tipo de confiança que só aparece depois de muitas tentativas. Também na turma de Direito, mas na Unaerp, Nilsa Isabel Locatelli voltou à universidade por caminhos que misturam insistência, oportunidade e fé. Ela entrou na faculdade em 2002, interrompeu por dificuldades financeiras e nunca largou a formação continuada. Fez cursos livres e técnicos, tornou-se perita judicial e, em 2023, resolveu voltar à sala de aula. “O universo jogou nas minhas mãos e disse: vai lá e resolve”, diz. “Foi o que eu fiz. Sinto que sou um exemplo para todos à minha volta.”

 

A SEGUNDA CARREIRA

“Nunca cogitei parar”, lembra o advogado Maurício Lins Ferraz, 65

 

Maurício Lins Ferraz, ex-promotor de Justiça por 33 anos, aposentou-se sem qualquer fantasia de descanso. “Nunca sequer cogitei parar de trabalhar”, diz. O que veio primeiro não foi euforia, mas luto. “O sentimento foi de tristeza. O Ministério Público foi parte essencial da minha vida. Mas também veio a alegria de começar algo novo”, conta. Na mudança, o obstáculo foi o mercado. “Pesou muito o lado do empreendedorismo”, afirma. “Repentinamente, precisei ter a iniciativa de ingressar no mercado, ser visto e reconhecido.”


Maurício reconhece a existência de preconceito. “Por vezes somos olhados com discriminação”, diz, resumindo um tipo de julgamento que confunde idade com obsolescência. Mas, passada a primeira impressão, ele admite “ter tido muito respeito e reconhecimento” em seu exercício profissional. O que o move, hoje, tem tom íntimo: “na defesa dos interesses de um cliente, é muito mais gratificante o impacto direto, até emocional, que o resultado positivo de um trabalho proporciona”. O trabalho, aqui, vira uma forma de presença. E o ritmo não diminui. “Tenho tomado todo meu tempo, como antes”, arremata.


Wilson, o professor da UFSCar, chama atenção para o pano de fundo que torna essas trajetórias mais frequentes. “Transição demográfica, maior expectativa de vida, longevidade como desafio do século 21”. Para ele, conceitos como envelhecimento ativo e envelhecimento saudável ajudam a entender o cenário, com foco em autonomia, independência e participação social. O NOLT, na visão do pesquisador, pode funcionar como “uma pontinha do iceberg” capaz de mobilizar atenção, desde que não apague o debate sobre direitos e políticas públicas.


Ele também faz um alerta que vale como freio de linguagem. “O termo é legítimo como autoidentificação, mas é preciso perguntar a quem serve esse conceito”, diz, lembrando que há componente mercadológico e midiático na forma como certas nomenclaturas circulam. A recomendação prática é reconhecer as múltiplas formas de viver a maturidade, sem impor uma única narrativa.


Em Ribeirão Preto, Seleguim entende isso pelo avesso. Quando defende que empresas deem oportunidade para quem passou dos 60, ele não está pedindo favor. Está oferecendo “bagagem profissional” e “bagagem de vida”. Ele se emociona ao lembrar que chegou à cidade aos 18, vindo de Viradouro, “de família muito humilde”, e estudou à noite enquanto trabalhava no banco. A história tem a curva clássica do esforço brasileiro, com a diferença de não terminar quando o relógio marca a aposentadoria.


“Se eu sentir que algo vai me fazer bem, vou lá e faço”, afirma a estudante universitária Nilsa Isabel Locatelli, 64. Foto: Emily Luysa Gouvea Manica


Mike, o diretor, descreve por que contratou Seleguim sem transformar o gesto em caridade. “A gente precisava de pessoas comprometidas. E essa cadência das pessoas mais experientes é muito importante hoje em dia”, garante. Ele aponta para algo que a pressa corporativa costuma esmagar: a capacidade de analisar melhor, pensar melhor, entender gente. 


Se o NOLT é, como escreve José Rita, um modo de afirmar “não sou definido apenas pela idade cronológica, mas pelo modo como vivo”, Seleguim, Maurício, Sílvia, Nilton e Nilsa mostram que a frase tem muitas traduções. Para alguns, é sobrevivência financeira. Para outros, é projeto antigo, ambição adiada, sede de conhecimento. E há ainda aqueles para quem significa um impulso de continuar relevante, produzir, pertencer. “Peço a Deus todos os dias para que me dê saúde e vida para não parar”, conclui Seleguim. 

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