Tempo de recomeçar
Aos 50, 60 ou quase 80 anos, trabalhadores de Ribeirão Preto provam que mudar de profissão não é sinal de fim de linha e, sim, um novo começo mais consciente, humano e cheio de sentido
A rotina de Sandra Moreira Antequera começa cedo. Antes mesmo de ligar o carro, ela faz suas orações, escolhe uma música animada e se prepara para mais um dia de trabalho. Aos 60 anos, mãe de três filhos, após uma carreira sólida no setor bancário, ela passou a trabalhar como motorista de aplicativo. “Foram 30 anos trabalhando como contato comercial, visitando lojas e concessionárias de veículos em Ribeirão Preto e região. Sempre gostei muito do meu trabalho, mas com o tempo fui sentindo a necessidade de mudança”, conta. O cansaço mental e o desejo por mais tranquilidade falaram mais alto. “Como sempre gostei de dirigir, pensei: por que não tentar ser motorista?”.
A decisão foi recente, mas veio acompanhada de entusiasmo. Depois de três décadas no setor bancário, Sandra, 60, trocou reuniões e planilhas pelo volante.“Não senti grandes dificuldades. Às vezes bate uma pequena insegurança, mas acredito que seja normal.” Para ela, a idade tem sido mais aliada do que obstáculo. “Percebo até uma confiança maior dos passageiros. A gente tem mais experiência, né!?”, diz, rindo, antes de sair da garagem do condomínio onde mora, na zona Leste de Ribeirão Preto, para mais um dia de trabalho.
Os filhos apoiaram a mudança, ainda que com certa apreensão. “Eles se preocupam porque muita gente fala que é perigoso”, explica, mas Sandra não pretende ficar parada. “Decidi começar porque não consigo ficar sem trabalhar. Quero buscar outras opções, me descobrir em algo que me faça sentir segura e feliz. Não me sinto com 60 anos. Tenho garra, energia e vontade de trabalhar. Isso faz bem pra cabeça, pra alma e pro coração.”
RECARREGANDO
Aos 55 anos, Moisés Abdala Filho também precisou reaprender o significado de recomeçar. Publicitário formado pela Universidade de Ribeirão Preto, com passagem por multinacionais e experiência recente no setor automotivo, ele aceitou uma oportunidade como operador de supermercado, um movimento que exigiu humildade e adaptação. “Até pouco tempo atrás, estava vendendo carros. O grande desafio foi me adaptar a uma nova função, a um novo trabalho mesmo”, afirma.
Viúvo desde 2018 e pai de três filhos, Moisés acredita que a maturidade traz uma leitura mais clara da realidade. “Sinto que o mercado de trabalho ainda olha torto para quem tem mais idade”, acrescenta. Mesmo assim, ele segue firme. “Espero cooperar com a empresa e subir degraus, construindo com o meu trabalho. Entendo que estou aprendendo sempre e usando o conhecimento para aprender de uma maneira melhor.”
Ele resume bem quando perguntado que mensagem deixaria para quem precisa recomeçar profissionalmente. “Minha história é de persistência e resiliência. Nunca é tarde para recomeçar. É como recarregar as baterias e seguir em frente.”
REINVENTANDO
Se para muitos recomeçar aos 50 já é desafiador, Paulo Roberto Cizotto é exemplo de que a reinvenção não tem prazo de validade. Aos 79 anos, ele segue ativo no mercado de trabalho. Aposentado, com formação em Publicidade e Propaganda, Paulo construiu uma longa trajetória em vendas, que começou ainda jovem, como office boy.
“Fui vendedor na Mirabel Produtos Alimentícios e fiquei lá por 20 anos, até a empresa ser vendida. Quando isso aconteceu, todos os funcionários foram dispensados”, relembra. Diante do impacto, decidiu seguir como autônomo. Depois, atuou como comprador e gerente de uma pequena rede de bombonieres no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo.
Há cerca de 15 anos, mudou-se para Ribeirão Preto em busca de novas oportunidades. Pai de duas filhas e avô de um menino de 4 anos, encontrou no varejo alimentar uma porta aberta quando muitas já estavam fechadas. “O maior desafio sempre foi encontrar quem oferecesse oportunidade para pessoas com mais idade. O supermercado abriu suas portas. Participei de um feirão de empregos meio que apenas para ver o que daria, sem muita esperança, mas deu certo e aqui estou”, diz, com simplicidade.
No supermercado, ele atua em diversas funções na rotina de uma rede varejista. “Com quase 80 anos, o futuro é sempre amanhã. Mais cinco ou dez anos, tudo é possível. Se um dia tiver que mudar, e for para melhor, a gente vai”, afirma.
REABASTECENDO
Histórias como as de Sandra, Moisés e Paulo refletem um movimento cada vez mais presente no Brasil. Segundo dados do IBGE e de estudos recentes sobre envelhecimento ativo, divulgados em 2024 e 2025, cresce o número de pessoas acima dos 50 anos que permanecem ou retornam ao mercado de trabalho, seja por necessidade, realização pessoal ou desejo de manter-se mental e socialmente ativo.
Em 2024, cerca de 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas — ou seja, um em cada quatro idosos está no mercado de trabalho. O país soma hoje mais de 13,4 milhões de trabalhadores com mais de 50 anos, impulsionados tanto pelo envelhecimento da população quanto pelo desejo ou necessidade de seguir ativos.
Entre 2012 e 2024, a população 60+ cresceu 55%, enquanto a participação desse grupo no mercado avançou quase 70%, indicando que longevidade e trabalho caminham cada vez mais juntos.
Mais do que números, são trajetórias que desafiam estereótipos. Elas mostram que maturidade não é sinônimo de estagnação, mas de consciência — e que recomeçar pode ser menos sobre idade e mais sobre coragem de seguir em movimento.