O próximo salto do agro brasileiro
Por Tirso Meirelles, presidente do Sistema Faesp/Senar
O Brasil protagonizou, nas últimas cinco décadas, uma das maiores transformações da agricultura mundial. De um país que dependia da importação de alimentos, tornou-se potência agropecuária, referência em agricultura tropical e protagonista na segurança alimentar global. Essa conquista nasceu da ciência, da pesquisa, da mecanização, do melhoramento genético, da assistência técnica e, sobretudo, da capacidade do produtor rural de incorporar conhecimento, superar adversidades e produzir cada vez mais.
Os números dimensionam essa revolução. Entre 1975 e 2023, a produção brasileira de grãos passou de 35,8 milhões para cerca de 259 milhões de toneladas. A de carnes avançou de 2,9 milhões para 30,1 milhões de toneladas e a de leite, de aproximadamente 7 bilhões para quase 35 bilhões de litros. Esse crescimento ocorreu em ritmo muito superior ao da expansão da área cultivada. Produzimos mais por hectare, utilizando tecnologia para transformar produtividade também em sustentabilidade.
Agora, precisamos preparar o próximo salto. O Brasil conquistou posição de destaque mundial na exportação de soja, milho, café, açúcar, algodão, celulose e proteínas. Essa força continuará estratégica. Mas podemos avançar muito além das commodities, agregando valor ao que produzimos e ampliando nossa presença internacional com alimentos processados, ingredientes sofisticados, bioprodutos, tecnologia e marcas brasileiras.
Essa transformação exige planejamento. O agro não pode depender apenas de políticas desenhadas a cada safra. O Brasil necessita de uma política de Estado com horizonte de dez, vinte ou trinta anos. Crédito, seguro rural e segurança jurídica precisam oferecer previsibilidade. Armazenagem, rodovias, ferrovias, hidrovias e portos devem acompanhar o crescimento da produção. Da mesma forma, investimentos em conectividade, irrigação, defesa agropecuária, inteligência artificial, agricultura de precisão, pesquisa e formação profissional serão determinantes.
É nesse ambiente que também precisam ser avaliadas mudanças nas relações de trabalho, como a discussão sobre a escala 6x1. A busca por melhores condições para os trabalhadores é legítima, mas qualquer alteração deve considerar as particularidades das atividades essenciais e ininterruptas. No campo, não se interrompe a ordenha, a alimentação dos animais ou uma colheita que depende de uma janela climática. Mudanças sem atenção a essas características podem elevar custos, reduzir competitividade e atingir o preço dos alimentos.
Outro desafio é abrir e diversificar mercados. Precisamos vender mais, mas também vender melhor. Isso passa por acordos comerciais, redução de barreiras e uma estratégia internacional capaz de associar o alimento brasileiro à qualidade, sanidade, sustentabilidade e inovação. Queremos que o consumidor reconheça não somente o café, a carne, o suco ou a soja que o Brasil produz, mas também as empresas e marcas que transformam essas matérias-primas.
E essa nova etapa precisa alcançar principalmente pequenos e médios produtores. Tecnologia não pode ser privilégio de poucos. Assistência técnica, capacitação, gestão, cooperativismo, conectividade e crédito são fundamentais para democratizar a inovação. É também com esse propósito que investimos em Centros de Excelência: aproximar conhecimento e novas tecnologias de quem está na ponta, produzindo.
O mundo continuará demandando mais alimentos, mas exigirá qualidade, rastreabilidade, segurança e menor impacto ambiental. O Brasil reúne condições singulares para responder a esse desafio: recursos naturais, ciência, agroindústria, experiência empresarial e produtores que aprenderam a trabalhar com eficiência em ambiente tropical.
Ser um dos grandes celeiros do mundo é uma conquista. O próximo salto é fazer com que o Brasil plante, colha, transforme, industrialize, desenvolva tecnologia, construa marcas e conquiste o consumidor global. Não basta ampliar nossa presença no comércio mundial de alimentos. Precisamos ampliar a parcela de valor que fica no Brasil.