Conheça quais serão as principais mudanças com a chegada da TV 3.0 no Brasil
Professor Francisco Machado explica sobre os possíveis impactos que a inovação pode trazer para a educação, a comunicação e a rotina dos brasileiros
Na última semana, o Brasil deu mais um passo em direção a uma nova mudança tecnológica: a chegada da TV 3.0, sistema de transmissão que integra radiodifusão e internet. O decreto que regulamenta o modelo foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quarta-feira, 27 de agosto. A previsão é de que o novo formato já possa ser testado durante a Copa do Mundo de 2026.
Para explicar as transformações que vêm com a TV 3.0, o Portal Revide conversou com o professor Francisco Machado Filho, diretor da TV Unesp de Bauru e presidente da Associação Brasileira de Televisão Universitária (ABTU). Ele detalhou como será a integração entre radiodifusão e internet, os novos serviços disponíveis e as possíveis consequências para a educação e para o mercado de comunicação.
Portal Revide: O que é a TV 3.0 e quais mudanças ela traz em relação ao modelo atual?
Francisco Machado Filho: A TV 3.0 é uma evolução do padrão brasileiro de televisão, chamado Full HD, ou SBTVD. A principal mudança é permitir o envio e o consumo simultâneo de conteúdo tanto pela radiodifusão (broadcast) quanto pela internet (broadband). Agora, as televisões poderão transmitir gratuitamente uma programação tradicional — como uma novela — e, ao mesmo tempo, oferecer novos quadros, interatividade, compras, acessibilidade e outros serviços que hoje só são possíveis via internet. Outro ponto é a publicidade personalizada. Além das propagandas nacionais e regionais, será possível exibir anúncios direcionados ao usuário, de acordo com o login feito ao ligar a TV.
Há quanto tempo se discute a chegada da TV 3.0 no Brasil?
É difícil precisar, porque a TV 3.0 é uma continuidade da TV Full HD. As mesmas universidades e empresas que participaram do desenvolvimento do padrão em 2007 seguiram o processo, ampliando e atualizando até chegar ao modelo 3.0. Podemos dizer que há mais de 15 anos o Brasil vem discutindo formas de modernizar a transmissão televisiva.
A TV 3.0 pode aumentar a competitividade da TV aberta frente às plataformas de streaming?
Ainda é cedo para afirmar, porque não sabemos quais programas e formatos farão parte do catálogo das emissoras. Hoje, para assistir a algo além da programação linear, é preciso assinar um serviço de streaming. Com a TV 3.0, será possível acessar conteúdos sob demanda gratuitamente, diretamente pela televisão. Isso abre espaço para que a TV aberta ofereça experiências semelhantes às plataformas digitais. Mas é importante destacar: isso não significa que os filmes das plataformas de streaming estarão disponíveis na TV aberta. A diferença é que o telespectador poderá escolher dentro do catálogo da emissora, sem depender apenas da grade horária. Muitos já fazem isso pela internet ou por TVs conectadas. A novidade é que essa experiência passa a ser oferecida na televisão aberta, gratuita e de alcance massivo.
A TV 3.0 já está em funcionamento em outros países?
Sim. A Coreia do Sul e os Estados Unidos já utilizam versões da TV 3.0, mas com padrões diferentes de transmissão. A Coreia tem experiência de mais de três anos; os Estados Unidos iniciaram em 2023. Não é uma comparação direta, mas a tecnologia já está em operação internacionalmente.
Como está a questão dos custos de implementação no Brasil?
Esse é um ponto sensível. Radiodifusores e Governo Federal discutem formas de obter subsídios, linhas de crédito e investimentos para viabilizar a mudança, que envolve desde antenas e transmissores até equipamentos dentro das emissoras. Será um custo considerável, e não há prazo obrigatório de adesão, como ocorreu na migração para o Full HD. O Governo estima que, nos próximos 10 a 15 anos, os dois sistemas coexistam.
Quais os efeitos da TV 3.0 sobre as desigualdades socioeconômicas no país?
Mesmo diante do cenário de desigualdade, acredita-se que a TV 3.0 vai ampliar o acesso não só a conteúdos, mas também a serviços públicos. Marcação de consultas, acesso ao Meu SUS ou ao GOV poderão ser feitos pela televisão, até mesmo sem internet. Isso significa que quem não tem internet continuará tendo acesso à TV e a esses serviços por meio da radiodifusão. A tecnologia abre oportunidades para que pessoas de baixa renda tenham acesso a novos recursos e conteúdos otimizados.
A TV 3.0 pode mudar o formato dos programas tradicionais?
Sim. Essa é, inclusive, a minha pesquisa na Unesp: investigar quais serão os novos gêneros e formatos. A TV 3.0 permite programas híbridos (TV e internet) e também aqueles baseados em inteligência artificial. Será necessária uma nova classificação, importante também para o mercado publicitário. Não será uma mudança imediata, mas abre espaço para inovações no conteúdo televisivo.
Como as TVs universitárias podem ser impactadas?
Esse é um ponto delicado. A TV 3.0 continua voltada a radiodifusores, emissoras comerciais e canais públicos com concessão aberta. Por enquanto, o decreto não contempla TVs universitárias e comunitárias, a não ser aquelas vinculadas à EBC. Nossa luta é para que o governo crie políticas de comunicação que garantam espaço para as TVs universitárias na TV 3.0. Caso contrário, corremos o risco de que essas emissoras desapareçam do sistema.
Qual pode ser o impacto no campo educacional?
O impacto tende a ser grande. A televisão ensinada hoje nos cursos de comunicação vai deixar de existir, o que exige repensar a formação acadêmica. Além disso, a TV 3.0 abre inúmeras possibilidades: aulas interativas, aplicação de provas, envio de documentos. O streaming pela televisão não se limita ao audiovisual, pode incluir atividades educacionais transmitidas por radiodifusão. Isso amplia muito as possibilidades para cursos online e a distância.
De que forma os canais públicos podem se beneficiar?
Os canais públicos ganharam destaque no decreto. O texto determina que eles sejam agrupados e que o aplicativo correspondente esteja obrigatoriamente na primeira tela da televisão, sem possibilidade de alteração, nem por fabricantes nem por usuários. O problema é que no Brasil ainda não há consenso sobre o que é comunicação pública. Hoje, considera-se comunicação pública apenas aquela vinculada ao Governo (EBC), canais legislativos e Judiciário. As TVs universitárias, mesmo ligadas a instituições públicas, têm concessão como educativas, não como públicas. Esse debate precisa avançar para que se reconheça também a comunicação voltada ao interesse público, mas fora da lógica governamental ou comercial. Infelizmente, o decreto perdeu a oportunidade de rever esse conceito.
Foto: arquivo pessoal