A jornada de Karina
Karina Aparecida Januário Paes e a filha, Lauana, em um raro momento livre na agenda da mãe

A jornada de Karina

Entre dois empregos, noites curtas e muito cansaço, uma mãe de Ribeirão Preto transforma o próprio sacrifício em combustível para o sonho da filha

"Às vezes bate um desânimo, mas desistir nunca passou pela minha cabeça.” Karina Aparecida Januário Paes, 44 anos, de Ribeirão Preto, resume a rotina de quem dorme pouco, trabalha muito e sonha grande. Todos os dias, ela levanta antes do sol nascer, às 5h40, e só se deita por volta da 1h da manhã. Nesse intervalo, enfrenta duas jornadas de trabalho – como assistente de farmácia na Unimed e agente de segurança na Unaerp –, treina crossfit quatro vezes por semana, ajuda a cuidar da mãe de 73 anos e ainda encontra forças para incentivar a filha, Lauana, 22, a seguir estudando.


“Meu sonho era fazer uma faculdade, mas a vida acabou não me dando essa oportunidade. Então decidi dar à minha filha o que eu queria pra mim. Uma boa formação, uma carreira brilhante”, conta.
Desde a infância, Karina aprendeu que nada viria fácil. “Comecei a trabalhar com 10 anos, como guardinha – hoje se diz jovem aprendiz – e já tinha responsabilidades. Minha mãe trabalhava fora e eu cuidava do meu irmão mais novo.” Mesmo com tantas tarefas, a menina Karina se mantinha focada nos estudos e via neles um caminho de mudança. “Sempre fui dedicada. Sabia que estudar era importante pra dar uma vida melhor pra minha mãe.”


Mas os planos precisaram ser adiados. “Eu era o arrimo da família e não havia financiamento estudantil, bolsa de estudo ou qualquer programa de apoio. Não tinha como pagar uma faculdade”, lembra. 
O tempo passou, ela conheceu Everton, hoje seu marido, e novas prioridades surgiram. A casa, as contas, a filha. “Quando a Lauana nasceu, o meu sonho ficou para trás, mas com o tempo percebi que podia realizá-lo através dela”, diz, referindo-se à filha. Hoje, Karina vive para garantir a ela a oportunidade que não teve. “Ela sempre disse que queria cursar Direito e que tinha que ser na Unaerp. Então eu me esforço, corro atrás. É por ela que levanto todo dia”, afirma.


A rotina é exaustiva, mas ela não deixa de cuidar de si mesma. “Faço crossfit de segunda a quinta e academia na sexta, no intervalo do trabalho. Nem eu acredito que dou conta de tudo isso”, comenta.
Durante os dois primeiros anos de faculdade da filha, Karina viveu uma verdadeira maratona diária. “Levava a Lauana pra faculdade de manhã, depois ia trabalhar. Era uma loucura. E ainda andava de moto, no meio do trânsito de Ribeirão Preto! Mas deu tudo certo”, garante.


O esforço não passou despercebido. “Minha filha reconhece cada sacrifício que faço. Ela é esforçada, determinada e sabe o que quer. Acho que aprendeu com a mamãe”, diz Karina, entre risadas.
Com Lauana prestes a realizar o sonho de se formar, Karina começa a se permitir sonhar de novo. “Hoje também vejo que posso estudar. Lá atrás, eu jamais teria condições, mas agora é diferente. Nunca é tarde pra recomeçar.”


Entre a fadiga a esperança, encontra força naquilo que sempre acreditou: o poder transformador da educação. “Sempre digo para minha filha e para outras mulheres: ‘nunca desistam dos seus sonhos’. É gratificante se colocar como uma mulher guerreira e determinada. Em algum momento, a vida muda e pra melhor”, acredita.
Em um país onde tantas histórias se perdem na pressa do cotidiano, a trajetória de Karina exemplifica a bravura presente nas pequenas resistências diárias. No acordar cedo, no recomeçar cansada, no seguir em frente mesmo sem tempo para respirar. Ela não busca reconhecimento, mas apenas garantir um futuro melhor para quem ama. E, sem perceber, já se tornou exemplo do que é ser verdadeiramente “brava gente”. 

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