Moldando o futuro
Nas oficinas que ministra, Tânia Caruzo lembra que não aprendeu artesanato por escolha

Moldando o futuro

Da fome e da violência à criação de uma técnica inédita no Brasil, Tânia Caruzo transformou o bagaço da cana em arte, renda e autonomia para si e centenas de outras mulheres

Aos 9 anos de idade, Tânia Caruzo acordava de madrugada para ir a uma pastoral da igreja católica, onde um padre distribuía sopa ao meio-dia. Chegava às 7h da manhã para garantir lugar na fila. Enquanto esperava, participava de oficinas de artesanato oferecidas pela ação social. A primeira peça que produziu se transformou em uma lembrança dolorosa. Feita com areia, era um presente de Dia das Mães. “Passei a tarde inteira fazendo. Quando cheguei em casa, meu pai tinha batido na minha mãe. Ela estava chorando. Entreguei a peça e ela jogou longe.” O episódio marcou a menina, que demoraria anos para voltar ao artesanato.


A infância de Tânia foi atravessada pela fome e pela violência. Na roça, cortando cana, ela carregava o caldeirão vazio. “Eu chupava cana escondida. Tinha vergonha”, conta. Por isso guardava o bagaço e o levava para casa.  Ainda não sabia que ali estava a matéria-prima que mudaria sua história. 


Quando o período do corte terminou, o bagaço acumulado suscitou uma questão. “Eu aprendi a fazer artesanato com areia. Pensei: e se eu fizer com bagaço, será que dá certo?” Foi a partir disso que, em 1992, Tânia desenvolveu uma técnica inédita no Brasil para transformar bagaço de cana em fibra e, depois, em peças artesanais. 


Mas o caminho até o reconhecimento foi duro. “O artesanato sofre muito preconceito”, denuncia.


A virada veio em uma feira do produtor rural. Sem dinheiro, mas com visão, Tânia procurou uma senhora que vendia pães. Propôs usar suas embalagens artesanais em troca de alguns reais por peça vendida. Ela vendeu tudo. “As pessoas compravam por curiosidade”, lembra. 


Ali, pela primeira vez, o artesanato virava possibilidade real de renda. Vieram feiras, televisão e reconhecimento. Tânia levou sua técnica para outros países. Hoje, ministra cursos no Brasil, na Angola, na Itália, nos Estados Unidos, inclusive por plataformas digitais. E também é contratada por prefeituras para ensinar a população de baixa renda. Atualmente, também ministra oficinas para as mulheres presas na Penitenciária de Ribeirão Preto.“É muito prazeroso saber que eu encontrei um caminho”, declara Tânia.


Ela casou-se cedo e viveu anos sob violência doméstica de um marido agressor. “Consegui sair de casa com meus filhos”, orgulha-se. E terminou de cria-los sozinha, trabalhando duro, produzindo peças, vendendo fibra, cola e conhecimento. O resultado é motivo de orgulho. Um dos filhos é doutor em tecnologia da informação, e outro, engenheiro eólico. “Sou testemunha viva de que a pobreza não torna as coisas impossíveis desde que você escolha um caminho”, declara.

 

CONQUISTA COLETIVA


“Qualquer resíduo vira arte. O bagaço, a serragem, o capim das praças. Isso gera renda, produto sustentável e transforma vidas”, defende Tânia, que vê potencial onde o descarte é regra. Ela defende políticas públicas reais – para mães atípicas, mulheres em situação de violência, idosos, pessoas em situação de rua – e o envolvimento das usinas de cana. 


A demanda, segundo ela, é enorme. “A gente não dá conta. Falta gente qualificada”, reclama. Por isso ensinar virou parte central de seu trabalho. E, além das peças que faz, Tânia vende fibra, insumo, técnica e autonomia. “Você precisa achar caminhos.”


Hoje, uma bolsa feita de bagaço de cana pode custar até mil euros no mercado internacional. “Isso é o salário de um doutor”, brinca. Para Tânia, é prova de que o artesanato é libertador. “Dá liberdade para mulheres que não sabem ler nem escrever. Dá independência e dignidade”, enumera.


O sonho que a move agora é aproveitar 100% dos resíduos sólidos das cidades e ver o artesanato ocupar o lugar que merece em um mundo que fala em sustentabilidade, mas pratica pouco. “Começa. Não desiste. Inova. Não fica presa na violência. Com um quilo de bagaço e um copo de farinha, você já começa”, aconselha sempre. 

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