O tempo da natureza
Psicólogo Leandro Gabarra transforma trajetória no trabalho social em um espaço coletivo que articula saúde mental, cultura e práticas ecológicas em Ribeirão Preto
Na Casa Comum, até uma poça d’água tem significado. Não é descuido, nem sujeira. É respeito ao tempo. Tempo da terra, da chuva, da absorção. Tempo que escapa da pressa da cidade — e que Leandro Gabarra aprendeu a respeitar e transformar em proposta de vida. Psicólogo formado há mais de duas décadas, Leandro, 48 anos, carrega uma trajetória inteira voltada ao trabalho social em territórios vulneráveis, especialmente na periferia e com adolescentes em situação de vulnerabilidade. Passou por projetos sociais, educação e atendimento a jovens em situação de conflito com a lei. “Sempre em lugares mais vulneráveis”, como resume. Foi nesse caminho que construiu sua carreira e uma forma coletiva de enxergar o mundo.
A Casa Comum nasce desse percurso — e também de uma herança afetiva. A antiga casa da família, grande demais para ser apenas moradia, como dizia sua mãe, virou outra coisa depois da pandemia. A ideia, que ecoa o conceito de uso social da terra, transforma o espaço privado em bem compartilhado, ampliando sua função para além de uma lógica individualista, muitas vezes marcada pela especulação imobiliária e pela transformação de um direito essencial – e previsto na Constituição Federal – em mercadoria e lucro. Virou espaço colaborativo. Virou trabalho. Virou ponto de encontro. Hoje, o lugar reúne psicoterapia — muitas vezes gratuita ou a preços simbólicos —, oficinas de teatro, cerâmica, música e encontros que misturam arte, saúde mental e educação, na Avenida Caramuru, no Jardim Sumaré. Uma lógica simples sustenta tudo: quem pode pagar mais ajuda quem não pode pagar nada, em diferentes faixas de contribuição. “É uma economia da troca, não da especulação”, define.
Reduzir a Casa Comum a um centro de atendimento, porém, seria pouco. O que está em jogo ali é também um modo de existir e de se relacionar com o território. Por exemplo, não se usa veneno no cultivo de alimentos. O lixo não é descartado — é responsabilidade. Folhas viram adubo, restos viram compostagem, recicláveis são separados e destinados a ecopontos, contribuindo inclusive para a geração de renda de cooperativas. Materiais ganham novos usos, evitando consumo desnecessário. A água da chuva não é expulsa por calhas: fica, infiltra, ensina. E nesse processo reaprende-se a olhar para aquilo que normalmente seria ignorado. Entre capivaras ocasionais, terra viva e mutirões, o espaço propõe um deslocamento silencioso: lembrar que ninguém está separado do ambiente que ocupa. “Queremos que as pessoas se sintam parte desse lugar”, diz Leandro. Parte — não usuárias, não clientes.
Cerca de 200 pessoas passam por ali todos os meses. Jovens que não teriam acesso a terapia, muitas vezes sem condições sequer de pagar transporte, artistas em formação, gente que chega sem saber exatamente o que procura e encontra um espaço possível. Às vezes, encontra só um tempo diferente, uma pausa rara em meio ao ruído cotidiano.
Leandro resiste à ideia de protagonismo. Prefere falar no plural. “Aqui tem muitos bravos”, costuma dizer. Ainda assim, sua marca está em cada detalhe — do cuidado clínico à recusa do veneno; do uso social da terra à insistência em criar alternativas coletivas de acesso. Em um mundo que acelera e descarta, a Casa Comum propõe o contrário: permanecer, reaproveitar, cuidar — e compartilhar.
Foto: Revide