Poder de transformação
Da coleta de recicláveis em Osasco ao ativismo ambiental em Ribeirão Preto, Kelly explica como a infância difícil moldou sua vida e a motiva a mudar a de muita gente
A memória mais antiga que surge quando Kelly Cristina da Silva fecha os olhos não é a de uma boneca, de um quintal ou uma festa de aniversário. É a de um barraco na favela, em Osasco, cercado por caçambas de lixo. Segunda de cinco filhos, ela cresceu aprendendo que sobreviver exigia trabalho – desde criança. Na infância, quando não estava na escola, estava nas ruas recolhendo papelão, latinhas e o que mais pudesse ser vendido para ajudar os pais a colocarem comida dentro de casa.
Não há um dia específico que marque o início dessa rotina. Catar recicláveis não foi uma escolha pontual, mas uma necessidade constante. O dinheiro rendia pouco e as compras eram feitas “de caneca”: um pouco de arroz, um pouco de feijão, o suficiente para não passar fome naquele dia. Ainda assim, a fome rondava. E foi nesses momentos mais duros que Kelly começou a entender, sem saber dar nome a isso, a força da natureza.
Quando não havia dinheiro, ela caminhava pelo mato e encontrava brotos de abóbora. “Se não fossem esses brotos, eu teria passado fome de verdade”, conta. Essa relação visceral com o meio ambiente moldou, anos depois, o sentido que o lixo passaria a ter em sua vida.
Na escola, a dureza continuava. Kelly sofria preconceito, era chamada de “piolhenta”, chorava e perguntava à mãe por que a vida precisava ser daquele jeito. O medo de não sobreviver ou de jamais sair daquela realidade existia, mas era enfrentado com uma fé simples, ensinada em casa. A mãe dizia para pedir a Deus, confiar, que a luz viria.
A mudança começou aos 12 anos, quando a família se mudou para Ribeirão Preto em busca de um clima quente para ajudar no tratamento de uma bronquite que atacou um irmão de Kelly. Na nova cidade, ela entrou para a Guarda Mirim e deixou de catar papelão por necessidade básica.
Já adulta e cursando Gestão Ambiental, Kelly voltou a olhar para o lixo com outros olhos. Em 2014, criou um ponto de descarte no bairro onde morava. Para segurar as placas de aviso, usou pneus velhos. Achou tudo muito sem graça. Pintou um pneu de amarelo, colou dois CDs como olhos e percebeu que parecia um personagem. Nascia ali o primeiro “Minion” de pneu reciclado. O entulho virou arte. O terreno vazio ganhou cor. E Kelly descobriu que podia transformar o que era descartado em alegria.
Vieram as tartarugas, os super-heróis, personagens infantis. Mais de 500 peças espalhadas, chamando atenção para o descarte correto e para a reciclagem. Pela internet, o trabalho cruzou fronteiras. Kelly trocou ideias com pessoas do México e da Bolívia, viu sua arte circular fora do Brasil e entendeu que o impacto era educativo, social e profundamente humano.
Hoje, ela coordena o projeto CataSonho, ligado à Universidade de São Paulo, uma iniciativa que transforma a vida de catadores de recicláveis por meio da capacitação e da valorização profissional.
“É o sonho do futuro que une o meu passado”, define. O que mais a emociona é ver esses trabalhadores deixando de ser invisíveis para se reconhecerem como agentes ambientais essenciais para a cidade, algo que ela própria precisou aprender na prática.
Mas o preconceito não ficou no passado. Mesmo formada, com casa e carro, Kelly ainda é julgada pelas unhas manchadas de preto dos pneus. “As pessoas não entendem a importância desse ato”, diz. Para ela, ser catador é exercer um trabalho digno e importante, que retira do meio ambiente aquilo que faz mal, devolvendo valor à sociedade. É por isso que hoje atua também no Fundo Social de Solidariedade, auxiliando na implantação do CataSonho e aproximando o poder público dessa realidade.
Foto: Lidia Muradás