Receita de cidadania
“O cuidado com a cidade é fundamental porque envolve três pilares: o poder público, as empresas e o cidadão.”, destaca Gula Biag

Receita de cidadania

Empresário de Ribeirão Preto, Gula Biagi concilia trajetória na gastronomia com projeto que já plantou mais de 14 mil árvores

Em Ribeirão Preto, é comum encontrar Gustavo Biagi – o Gula Biagi – em dois cenários distintos: organizando um evento gastronômico ou plantando árvores pela cidade. Aos 52 anos, o empresário divide a rotina entre os negócios que construiu ao longo de quase três décadas e um projeto voluntário que, aos poucos, ganhou escala e passou a ocupar diferentes bairros.


Engenheiro mecânico de formação, ele começou a trabalhar com alimentos ainda na década de 1990, quando passou a produzir conservas durante a faculdade. “Na época, em 1995, o tomate seco praticamente não existia no Brasil, então foi uma ação pioneira”, conta. A partir dali, ampliou a atuação para eventos, buffet e locação de utensílios, consolidando quase três décadas de trabalho no setor.


O apelido Gula virou marca. À frente da Gula Biagi Gastronomia e Eventos, ele estruturou operações que vão de buffets a projetos de comida de rua. Em 2013, apostou em um modelo ainda pouco difundido na cidade. “Em 2012, já trabalhávamos com pizza em eventos. No ano seguinte, meu sócio queria abrir um ponto fixo, mas eu preferi seguir por outro caminho e sugeri um trailer – naquela época, nem se falava em food truck.” A iniciativa se expandiu e, em 2016, resultou em um food park com diferentes operações gastronômicas. O crescimento coincidiu com a popularização do formato no país e ampliou a presença do negócio em Ribeirão Preto.


A relação com a cidade, no entanto, ganhou outro eixo ao longo dos anos. O projeto ArboreSer começou de forma doméstica. “Foi um começo muito natural, com o plantio de árvores em frente à minha casa e ao meu comércio”, lembra. 


A prática se espalhou pela vizinhança e passou a envolver moradores, empresas e o poder público. Hoje, reúne ações de arborização urbana, educação ambiental e mobilização social. “A ideia é justamente transformar a cidade a partir do envolvimento do cidadão, estimulando mais consciência, fiscalização e atuação coletiva, para que a responsabilidade pelo espaço urbano não fique apenas com o poder público, mas seja compartilhada por todos”, diz.


Os números recentes indicam a dimensão da iniciativa. Entre abril de 2025 e março de 2026, o projeto realizou 66 ações e plantou 1.486 árvores, divididas entre 118 espécies, por 22 bairros de Ribeirão Preto. Mais de mil pessoas participaram das atividades no período. Desde a criação, já são mais de 14,5 mil mudas plantadas, com meta de chegar a 42 mil.


As ações seguem um calendário ligado ao período de chuvas, entre novembro e março, quando o plantio ganha escala. Nos demais meses, o foco recai sobre manutenção e intervenções pontuais. O projeto também atua com escolas, empresas e grupos independentes, ampliando o alcance das atividades.


Para Gula, o resultado vai além da arborização. “Já são quase 19 anos desde o início. Acredito que o principal legado é a transformação – tanto das empresas quanto dos cidadãos e, principalmente, do poder público, por meio de políticas públicas”, afirma. 


Atualmente, ele divide o tempo entre os negócios e o ArboreSer. “Hoje eu consigo equilibrar bem essas duas frentes. Tenho a possibilidade de dedicar meu tempo de forma dividida: cerca de 50% para a associação ArboreSer e 50% para os negócios da Gula Biagi, com eventos e locação.”


A proposta envolve uma dinâmica compartilhada. “O cuidado com a cidade é fundamental porque envolve três pilares: o poder público, as empresas e o cidadão. Cada um tem o seu papel nesse processo.” 


Ao longo dos anos, o projeto consolidou uma rede de voluntários e apoiadores, com presença em diferentes regiões da cidade. 


Foto: Lidia Muradás

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