‘Aqui me tens de regresso’
Em meio a desafios sociais e urbanísticos, Centro de Ribeirão Preto vê ocupação de bares aumentar e tenta se fixar como referência quando o assunto é boêmia
A combinação de falta de planejamento urbano, esvaziamento econômico e obras intermináveis parecia selar o destino da região central de Ribeirão Preto. Mas, enquanto parte da cidade se afastava, o movimento contrário começou a surgir em forma de mesas, cadeiras, porções e drinks, além de cerveja gelada e incontáveis chopeiras, que passaram a ocupar calçadas intransitáveis há alguns meses. Hoje, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), ao menos 40 bares e restaurantes funcionam no quadrilátero central, número 10% maior do que o de um ano atrás.
“O Centro sempre foi destino, não escolha”, diz o empresário Thiago Parafuso, cuja casa, inaugurada em 2018, ajudou a redefinir a paisagem humana da região próxima à praça Sete de Setembro. “A gente buscava esse pedaço da cidade muito antes da abertura”, acrescenta. O ribeirão-pretano Paulo Laimgruber confirma essa mudança de percepção. “As pessoas entenderam o valor histórico e cultural das ruas do Centro. A sensação de ‘lugar real’, de sentar numa cadeira de madeira, ouvir música, beber uma cerveja gelada... É um jeito de habitar a cidade” comenta.
Entre os pioneiros dessa reocupação está também Marcelo Mobiglia, guardião de um dos pontos mais antigos da região. “Meu pai abriu o empório em 1966, quando isso aqui era bairro, então o foco era a venda, armazém e balcão de madeira”, lembra. “Hoje estamos na segunda geração, preservando parte dessa alma antiga. Apesar dos pesares, não pensamos em sair daqui”, garante. Para ele, a chegada dos novos bares não ameaça os tradicionais. “Redesenha o fluxo. Os clientes acabam voltando quando tem qualidade. O Centro sempre teve vocação boêmia. A diferença é que agora ela se renova”, diagnostica.
Se a primeira onda foi impulsionada por instinto, a segunda nasceu de identidade. Wesley Rios representa essa nova safra de empreendedores que aposta na estética da espontaneidade. “Escolher o Centro foi instinto. As pessoas querem lugares onde a vida acontece. Querem movimento. O Centro ensinou aos bares que não dá para competir com autenticidade, então começamos a abraçar o que ele oferece”, afirma.
Mas a ocupação não acontece sem fricções. A região central de Ribeirão ainda convive com problemas estruturais graves, como concentração de pessoas em situação de rua, imóveis degradados e abandonados, conflitos entre diferentes usos, falta de estacionamento e ausência de políticas robustas de zeladoria. Mesmo assim, a simples presença de gente nas ruas, sobretudo à noite, tem efeito direto sobre a segurança urbana. Fluxo de pedestres, iluminação e comércio aberto são fatores conhecidos por reduzir vulnerabilidades.
O Pinguim, um dos endereços mais emblemáticos da história boêmia de Ribeirão Preto e principal ponto turístico da cidade, também é item nessa transformação. Fundada em 1936, a casa tornou-se referência nacional pela liturgia do chope e por um ritual de atendimento que atravessou gerações. Para muitos urbanistas, o Pinguim funciona como âncora simbólica e, mesmo em períodos de esvaziamento, manteve a vida circulando quando as lojas fechavam as portas, no Centro.
O professor de economia José Rita Moreira explica o fenômeno: “a região central atravessa um momento singular. Depois de décadas de perda de vitalidade e esvaziamento comercial, há um ponto claro de inflexão. O que começou como aposta isolada virou tendência consistente, com impacto direto na dinâmica econômica da cidade”. Para ele, essa mudança vai além do setor gastronômico. Indica uma transformação no padrão de consumo e na forma como a população percebe o valor dos espaços urbanos. “Quando há circulação, há consumo; quando há consumo, surgem oportunidades. Esse é o motor do desenvolvimento urbano”, pontua.
A abertura de bares ativa o comércio de rua, fortalece pequenos negócios, atrai serviços complementares, emprega e reduz áreas ociosas. “Em cidades que viveram processos semelhantes, a vitalidade só voltou quando a iniciativa privada percebeu que a experiência urbana se transformou em ativo econômico”, diz Moreira. Mas a equação não fecha sem participação estatal. “O poder público tem papel decisivo, garantindo segurança, iluminação, transporte e regulamentação adequada. São condições básicas. O Centro precisa de política pública contínua, não episódica”, decreta.
Na linha de frente dessa discussão, Vinícius Iozzi, diretor-executivo da Associação de Bares e Restaurantes da Alta Mogiana (Abrasel), reforça que o movimento é global. “O aumento da ocupação do Centro é notório. Vemos isso em diversas cidades. Há uma tendência de retorno aos espaços históricos”, afirma. Mas ele alerta que ainda temos problemas gritantes na cidade. “A avenida Nove de Julho é um deles. Falta transporte público noturno e falta regulamentação no Plano Diretor para criar uma área que favoreça a vida noturna. Hoje, não conseguimos estruturar um corredor cultural porque a cidade não oferece as condições necessárias”, cita.
Iozzi também aponta um desafio que afeta diretamente a experiência dos frequentadores, que é a presença constante de pessoas vendendo itens ou pedindo ajuda. “É indiscutível que o público se incomoda. Não estamos falando de repressão, mas de políticas públicas eficazes para reduzir a vulnerabilidade social. Sem isso, continuaremos enxugando gelo”, opina. Ele defende medidas simples, como exigir documentação sanitária das cozinhas inscritas em aplicativos de delivery. “Isso incentivaria a formalização e melhoraria a segurança alimentar. A informalidade existe porque falta porta de entrada”, acredita.
Apesar dos obstáculos, o diretor da Abrasel vê mais potencial do que limites. “Ribeirão é carente de vida noturna. Em cidades menores, como Araraquara, São Carlos e São José do Rio Preto, você encontra estabelecimentos funcionando até tarde. Aqui, muitas cozinhas fecham antes da meia-noite por falta de mão de obra ou apoio estrutural. Há muito espaço para crescer, no Centro e em toda a cidade”, declara.
Antes que a porção esfrie, percebemos que ainda há ruídos, falhas urbanas e desigualdades profundas. Mas há também mesas ocupadas, copos brindando, gente caminhando, calçadas cheias. Um movimento orgânico que reabre portas que o tempo havia fechado. Ou, como resume o professor José Rita, “o renascimento do Centro não é acaso. É fruto da combinação de oportunidade, visão empresarial e desejo coletivo por espaços mais humanos e vibrantes”.

