As bancas resistem

As bancas resistem

Entre revistas, jornais, palavras cruzadas e histórias em quadrinhos, jornaleiros contam como é manter uma banca em Ribeirão Preto em tempos de internet e redes sociais

As bancas de jornal ainda estão lá. Não muitas, é verdade, mas persistem. Oficialmente, 22 estão cadastradas e funcionam em Ribeirão Preto. Número bem menor do que as mais de 200 que vendiam revistas e jornais no final dos anos 1990. Espalhadas por esquinas movimentadas, avenidas e ruas de bairros tradicionais ou do Centro da cidade, elas resistem vendendo, na maioria das vezes, revistas – cada vez mais raras, como a Revide –, palavras cruzadas, álbuns de figurinhas e jornais em papel, que dividem espaço com refrigerantes, balas e cigarros. 


“É preciso se reinventar, mas sempre haverá espaço para as bancas”, acredita Mário Aparecido Rufino, dono da Banca Paulista, inaugurada em 1975, na avenida Independência, e hoje tocada com a ajuda de uma das filhas, Camila. Ela faz previsão mais realista: “a banca deve terminar na geração do meu pai. Os netos deles seguiram outros caminhos.” 


Instalado há 22 anos atrás do balcão da Banca Irajá, em uma esquina das ruas Dr. Isaac Teodoro de Lima e Thomás Nogueira Gaia, Marco Antônio Machetti repete todos os dias a mesma rotina: abre às 7h e fecha às 17h. “Trabalho sozinho. Domingo só fecho mais cedo, mas a banca está sempre aberta, todo dia”, diz. Foi no ramo de venda de revistas e jornais que Marco se reconstruiu depois do fechamento da Antártica, em Ribeirão, onde trabalhava no almoxarifado. Quando decidiu que queria o próprio negócio, escolheu a banca. “Era a primeira vez. Aprendi na prática a fazer cadastro na distribuidora, acordar às 4h da manhã para buscar revistas, criar relação com cliente.”


O tempo passou, os jornais minguaram, mas a banca continuou. Marco gosta de pensar que ela também ajuda a manter vivos os pequenos comércios da vizinhança. “O cliente vem pegar uma revista e aproveita para comprar pão na padaria da frente ou marmita no restaurante ao lado. Acho que é uma construção, parceria”, diz. O comércio resiste em comunidade.


Rogério Dias, por sua vez, é da terceira geração de jornaleiros. Desde os 13 anos, quando ajudava seu tio Ivair em uma banca do Centro, nunca fez outra coisa. Hoje, comanda outra vizinha ao RibeirãoShopping, depois de já ter passado pela avenida Presidente Vargas e pela rua General Osório. “Nunca pensei em sair do ramo. Eu gosto de banca. É meu prazer. Para mim, sempre deu certo”, afirma. 


Os tempos mudaram, ele reconhece, mas nem tanto. Se antes vendia passes de ônibus e pilhas de revistas semanais, hoje vende mangás, gibis da Marvel, palavras cruzadas e as revistas Veja, além de distribuir a Revide que, segundo Rogério, “continua saindo bem”. A clientela também é a mesma: em parte, fregueses que ele chama pelo nome, gente que o viu crescer e seu filho nascer dentro da banca. O filho, no entanto, preferiu cursar Direito. “Ele não quer saber de banca. É de outra geração. Eu não sei quem está certo, se eu ou ele”, admite Rogério, sem ressentimento.


A cena se repete na banca de Mário e Carmelita Rufino, aberta quando os anos 1980 e 1990 ainda prometiam dias dourados para as revistas. Ali, eles chegaram a ganhar troféu nacional de campeões de vendas da revista Playboy. “Na época, circulava muito título. Vendia bastante, tanto jornais quanto revistas”, lembra Camila, filha do casal. 


Hoje, eles abrem todos os dias, mas fecham mais cedo, por causa da idade avançada de Mário. O que se vende é, sobretudo, palavras cruzadas e HQs. “Muitas editoras fecharam. O custo de produção ficou alto. E o público se questiona por que pagar por uma matéria que se pode ler de graça na internet”, diz Camila, que cresceu assistindo à mudança inevitável. Ainda assim, a banca permanece, por teimosia e afeto. “Meus pais literalmente me criaram na banca. Para mim, significa constância... me ensinou o amor pelo trabalho”, diz Camila, que, ao mesmo tempo, reconhece um limite: “se eu tirasse a banca do meu pai, seria injusto.”

 

PONTO DE ENCONTRO… E BRIGAS


Marco se lembra de um episódio que o marcou: em um domingo, perto da hora do almoço, dois clientes, torcedores rivais, encontraram-se na banca. Ele tentava organizar as pilhas de revistas quando, de repente, a discussão virou briga. “Era um Come-Fogo clássico. De um lado, um comercialino roxo, do outro, um botafoguense raiz. Os dois se exaltaram e quase chegaram às vias de fato. Eu e outros clientes precisamos intervir”, conta, emendando que é raro ocorrer situações perigosas por ali. “Na maioria das vezes, a banca é espaço de conversa, de amizade. Aqui se troca ideia de futebol, política, novela. É como se fosse uma extensão da sala de casa, mas ao ar livre”, diz.


Aos 75 anos, Mário também aprendeu a lidar com as múltiplas faces da banca. “A gente já viu de tudo por aqui: namorado planejando pedido de casamento, gente que vinha só para conversar, matar o tempo. Banca era isso... ponto de encontro. Só que, com o tempo, mudou. O pessoal lê menos jornal, menos revista. Hoje, a pessoa passa, compra um doce, pega uma figurinha para o filho e segue a vida, mas o espírito é o mesmo”, afirma.


“Trabalhar com comércio é assim mesmo, seja na banca ou em uma loja de roupas. Vamos esbarrar com gente de todo o tipo e isso é uma das coisas mais legais”, opina Rogério. Na hora em que a reportagem esteve na banca dele, pelo menos duas dezenas de clientes passaram buscando as mais diferentes mercadorias. Um pediu cigarro, dizendo: “O de sempre, Rogério”. Outro, com o filho pequeno, pediu para o menino escolher um doce. Ao sair, agradeceu e terminou com um “até amanhã, Rogério”.


Essa proximidade se confunde com o hábito, a rotina. “E é exatamente essa a maior motivação dos clientes: a rotina. Eles se acostumaram a ler no papel, a admirar uma revista. Tudo é uma espécie de ritual. E é exatamente por isso que a banca continua”, explica Marco.


Rodeado por papel, Rogério tenta distribuir a atenção por igual entre o movimento na rua e a tela do celular. “Não gosto muito de redes sociais, mas hoje não tem saída”, explica, enquanto as notícias correm pelos aplicativos em uma velocidade – e profundidade – diferentes das que se costuma dispensar às que estão ali, impressas.

 

ENTRE A DISTRIBUIÇÃO E O ESVAZIAMENTO


Em agosto, a Fiscalização Geral da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto retirou a estrutura de uma banca de jornal desativada há três anos, que ficava na chamada Praça da Ceterp, à rua Anivaldo Ponton, no Jardim Monte Alegre – aos poucos, as estruturas com cadastro vencido têm sido retiradas para evitar acúmulo de lixo ou mesmo invasão. 


A instalação de novas bancas parece impensável. Em 2025, nenhuma nova foi instalada. A administração pública precisa autorizar a instalação. O pedido é feito através de protocolo disponível no portal da Prefeitura e analisado por um setor técnico. Os critérios avaliados para a concessão do espaço e autorização de instalação da estrutura incluem o impacto no tráfego e na circulação de pedestres, a proximidade com outras bancas já existentes, a segurança do local, a acessibilidade para pessoas com deficiência e a adequação do espaço urbano. Também são considerados aspectos como iluminação, área de recuo em relação à calçada e a possibilidade de interferir em estabelecimentos vizinhos ou em pontos de transporte público. Só depois de aprovada essa análise detalhada o protocolo pode ser deferido.


“Até hoje vendo apenas revistas e jornais. Meu foco é esse, mesmo sabendo que o impresso caiu bastante. Mesmo assim, ainda há uma procura legal, por revistas principalmente, e aos finais de semana por jornal”, diz Marco Antônio Machetti, reforçando o papel das bancas na manutenção de títulos que, muitas vezes, já desapareceram das grandes redes. Cada exemplar que chega às mãos de um leitor representa a sobrevivência de um segmento que muitos acreditavam estar fadado à extinção.


A família Rufino observa o efeito da diminuição do mercado. “Quase 80% do que vendíamos antes sumiu. O jornal A Cidade, por exemplo. No domingo vendíamos, em média, 120 unidades só dele. Hoje não existe mais. Mas continuamos aqui, porque o que fazemos vai além de vender”, afirma Mário.


Essa função de distribuição se entrelaça com a memória afetiva de clientes que frequentam a banca há décadas. Camila lembra que alguns “não como o café matinal: não falham um dia sequer, como o Dr. Luís Vicente, Renato Andrade, Dr. Décio de Lima, o Pingo, Paulo de Guatapará… Alguns não estão mais entre nós, mas seus filhos e netos continuam vindo. Isso mostra como a banca é um elo entre gerações”, diz. 


Todos os donos de bancas ouvidos para esta reportagem disseram “não” à seguinte pergunta: “trocaria de profissão”? A maioria disse amar o que faz, mesmo trabalhando todos os dias, sem folga. “Não dá pra tirar férias, é uma coisa meio fora de questão”, conta Marco. Mas também há realismo: “a maior dificuldade para quem não é do ramo hoje é o horário. Tem que trabalhar todo dia, feriado, domingo, sem parar. A geração nova não quer isso, mas enquanto houver quem valorize, haverá bancas”, acredita Rogério. 

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