Com medo de água
Obras de modernização da drenagem urbana, concluídas há meses na avenida Nove de Julho, não resistem às chuvas deste início de ano, prejudicando – novamente – o comércio local
A forte chuva que caiu na primeira semana do ano em Ribeirão Preto não foi um evento extraordinário. Ainda assim, bastou para reabrir feridas recentes na avenida Nove de Julho, uma das mais simbólicas do Centro.
Paralelepípedos soltos, pontos de erosão, água retornando pelas galerias. O desconforto não foi apenas visual. Para quem vive do comércio ali, o estrago se mede em insegurança, queda de fluxo e a sensação de que um ciclo de promessas voltou a girar.
Por outro lado, há otimismo. A notícia da notificação feita pela Prefeitura à empresa responsável pela obra já foi dada. O que resta agora é entender por que uma avenida que passou meses interditada para a modernização da drenagem urbana não resistiu às primeiras chuvas mais intensas.
O problema é menos simples do que um bueiro entupido. “A Nove de Julho é estratégica para a mobilidade da cidade. É patrimônio, mas também é eixo urbano”, reforça Anderson Manzoli, engenheiro com experiência em pavimentação e sistemas de drenagem. “O maior desafio não é técnico, é decidir o que se quer dela”, explica. Para Manzoli, Ribeirão Preto oscila entre tratar a avenida como cartão-postal histórico ou como corredor funcional. “Hoje não temos bem definida nenhuma das duas coisas. E quando a ideia nasce indefinida, o projeto corre o risco de nascer errado”, acrescenta.
Essa indefinição cobra preço. Projetos de drenagem, explica o engenheiro, são calculados para uma finalidade específica. Preservar características históricas, suportar tráfego intenso, receber ônibus ou favorecer o pedestre. Misturar tudo sem hierarquia tende a produzir soluções frágeis. “Engenharia e Arquitetura resolvem qualquer uma dessas opções. O problema é tentar resolver todas ao mesmo tempo”, analisa ainda o engenheiro.
Manzoli é direto ao apontar o que considera o erro mais grave em obras públicas. “O pior é o erro de projeto. Se a ideia nasce errada, mesmo que bem executada, não atende às necessidades”, afirma. Segundo ele, execuções malfeitas podem ser refeitas; projetos equivocados, não. Em obras como a da Nove de Julho, a garantia estrutural deveria ser de ao menos cinco anos, com vida útil de uma década, desde que haja manutenção e que a via não seja submetida a “mau uso”, como tráfego pesado incompatível.
O fato de problemas surgirem tão cedo, na leitura do engenheiro, é um sinal de alerta. “Uma obra inaugurada recentemente não deveria apresentar esse tipo de falha”, confirma. Para ele, a saída técnica é objetiva: fazer perícia e auditoria independentes. “Um relatório bem feito identifica se o problema está no projeto ou na execução. Pelos estragos, sem dados técnicos, é razoável supor que a drenagem esteja subdimensionada. Resta saber se o projeto já nasceu assim ou se a execução não seguiu o que foi projetado”, raciocina.
O engenheiro rejeita a ideia de que a chuva seja a vilã. “Projetos existem para dar destino à água. Temos capacidade técnica para isso.” O gargalo, segundo ele, está no modelo de contratação. “Empresas que prometem fazer abaixo do preço de mercado vencem licitações e depois entregam menos do que deveriam, quando não abandonam o contrato”, comenta.
A solução passa por acompanhamento desde a licitação, auditorias semanais de cronograma físico e financeiro e fiscalização independente. “Parece mais caro, mas sai mais barato e funciona”, crava Manzoli.
O COMÉRCIO NO MEIO DO CAMINHO
Para Roberto Uahib, empresário há três décadas na Nove de Julho, a história recente não cabe em relatórios. “Primeiro foi o túnel da Independência com a Nove de Julho: três anos e meio em obra. Depois, a reforma da própria avenida, por quase dois anos. Foi caótico!”, critica. Ele descreve fechamentos sem aviso, mudanças constantes de fluxo e uma desinformação que alterou a rotina do comércio. “Não havia planejamento de entrega. A fiscalização da Prefeitura foi absurda”, continua.
Os problemas, diz Uahib, não terminaram com a liberação do trânsito. “Canteiro central igual ao de dois anos atrás. Jardinagem prometida, nada. Paralelepípedo levantando, inundação, galeria jogando água para fora”, lista. Para ele, a gestão atual herdou um passivo pesado, mas o sentimento de abandono persiste. “A vitalidade da Nove de Julho hoje fica impedida”, pondera.
A equação se agrava com imóveis vazios e aluguéis irreais. “Os proprietários são herdeiros, vivem numa bolha. Pedem valores incompatíveis com o movimento”, avalia o comerciante. O resultado, segundo ele, foi um esvaziamento visível. “Mais de 120 fechamentos entre a avenida e os arredores. O único que voltou foi um grande varejista”, diz.
Uahib defende medidas de estímulo, como isenção temporária de IPTU e fiscalização constante. “Sem policiamento, a avenida fica abandonada. O custo de segurança é alto. Mesmo assim, a esperança é grande. É a avenida mais charmosa de Ribeirão Preto”, declara.
A leitura de Lauro Henrique dos Santos, há 20 anos na região, é mais “clínica”. “A Nove de Julho ficou abandonada por mais de uma década, sem zeladoria desde 2012. Entrou em coma”, comenta. A obra iniciada em 2023, para ele, foi como a passagem de um paciente pela UTI. “Agora está em casa, mas ainda doente. Precisa de home care.”
Lauro estava na loja no fim de tarde da chuva mais intensa. Viu a água fazer estragos, mas mesmo assim reconhece avanços. “Está melhor do que o caos vivido. O problema é que a obra, oficialmente, não terminou. Falta o paisagismo, prometido em parceria com o Sesc, e, sobretudo, uma política pública de reparação aos comerciantes. E um plano de incentivo para a reocupação da avenida”, diz.
O diálogo com a atual gestão, segundo ele, melhorou, mas segue aquém do necessário. O movimento “Vem pra Nove”, do qual participou, encontrou mais portas abertas agora, embora ainda distantes do ideal. “Temos disposição para colaborar”, garante. O caminho, afirma Lauro, passa por um Plano de Recuperação Econômica que una Executivo, Legislativo, entidades de classe, Sistema S e proprietários de imóveis. “A Nove de Julho é patrimônio da população. Não pode ficar restrita ao passado.”
OUTROS LADOS
Em nota, a Prefeitura de Ribeirão Preto informou que notificou formalmente a empresa Era-Técnica Engenharia Construções e Serviços Ltda, responsável pelas obras de mobilidade urbana na avenida, para a realização imediata das manutenções apontadas em vistoria técnica. Foram identificadas irregularidades no pavimento em paralelepípedos e um ponto de erosão. Este, segundo a Prefeitura, já foi reparado emergencialmente.
Como a obra está dentro do prazo de garantia contratual, de cinco anos, todas as correções devem ser feitas pela empresa, sem custo adicional ao município. A Secretaria de Obras afirma que acompanhará e fiscalizará rigorosamente os serviços e que adotará medidas legais caso a notificação não seja atendida. A gestão atual ressalta ter antecipado a entrega da obra em um mês para encerrar um período prolongado de transtornos e diz discutir soluções para o paisagismo, etapa não prevista no projeto original.
O caso ganhou contornos mais amplos depois que o Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (Conppac) acionou o Ministério Público por improbidade administrativa contra o ex-prefeito Duarte Nogueira e ex-secretários, alegando falhas na elaboração do projeto. Dez meses após a entrega, o conselho aponta problemas de pavimento e drenagem. A equipe do ex-prefeito informou que os projetos foram elaborados por equipes especializadas e acompanhados conforme a legislação. A empresa, procurada, não se manifestou.