Construtoras doam recursos de ação judicial
Acordo entre Prefeitura e as construtoras Said e WTB garante recursos para a Catedral e sinaliza um modelo de parceria que pode inspirar outros empresários da cidade
Na tarde abafada da última quarta-feira, 1º de outubro, o saguão envidraçado do Centro Administrativo “Prefeito José de Magalhães” serviu de palco para um gesto burocrático, mas carregado de simbologia. O prefeito Ricardo Silva assinou um acordo judicial que destravou o repasse de quase R$ 1 milhão à Arquidiocese de Ribeirão Preto. O dinheiro, proveniente de um processo de desapropriação envolvendo as construtoras Said e WTB, será integralmente destinado ao início das obras de recuperação da Catedral Metropolitana de São Sebastião, construção imponente do passado que hámais de uma década ostenta rachaduras como cicatrizes de abandono.
“É uma tarde histórica. Fizemos um acordo que vai resultar no repasse desses valores para o restauro da nossa catedral. Corremos com os trâmites dentro da Prefeitura porque sabíamos da urgência. Mas isso é só o começo. Quero fazer um chamado para que mais empresários ajudem, para que mais pessoas se engajem. A Catedral não é apenas um patrimônio da igreja. É da cidade, é de Ribeirão, tem valor cultural, artístico, histórico”, disse o prefeito.
A restauração integral ainda precisa de muitos recursos, mas o gesto de quarta-feira abriu uma fresta de possibilidade. A Comissão de Preservação e Restauro calcula que serão necessários aproximadamente R$ 15 milhões para concluir todas as necessidades estruturais do prédio que norteou o crescimento da cidade. “O telhado é prioridade, porque o risco é iminente, mas estamos falando também de fundações, de estruturas internas, de todo um processo que só uma restauração completa pode resolver”, explica Renato Aguiar, presidente da comissão.
Representantes das construtoras que aceitaram o acordo pareciam conscientes do peso do gesto. Thiago Said, da empresa que leva o nome da família, diz que “é uma forma de devolver para a cidade aquilo que, de algum modo, passou pela história da nossa construtora”. E acrescenta: “a catedral é um símbolo de Ribeirão, e ficamos satisfeitos de contribuir para que esse símbolo não se perca.”
Welton Tadeu De Bortoli, CEO da WTB, lembrou que o acerto só foi possível graças ao “crédito conjunto” que a empresa mantinha com o município. “Era um processo de desapropriação que se arrastava havia anos. Encontramos uma solução que beneficia todo mundo. E, pessoalmente, acho que é uma causa daquelas que valem o esforço”, declarou.
Bortoli lembrou que a costura do acordo começou em um encontro promovido pela Comissão de Restauração da Catedral Salve Catedral, coletivo presidido pelo empresário Renato Aguiar que reúne integrantes da sociedade civil. “A ideia nasceu em um almoço em prol da catedral organizado por essa comissão. Foi ali que tivemos a primeira conversa mais objetiva sobre transformar um processo de desapropriação em recurso para a obra”, contou o CEO.
Segundo ele, a reunião funcionou como catalisador para uma negociação que, até então, parecia distante. “Muitas vezes, esses assuntos jurídicos ficam parados anos, mas quando a sociedade civil se mobiliza, cria-se um ambiente diferente, uma pressão positiva. A prefeitura se mostrou aberta, nós entendemos o momento e a necessidade e conseguimos chegar a esse resultado que beneficia toda Ribeirão Preto”, afirmou Bortoli.
O vice-prefeito Alessandro Maraca, a procuradora-geral do município, Taísa Cintra Dosso, o padre Francisco Jaber Zanardo Moussa – o padre Chico – e o arcebispo metropolitano, dom Moacir Silva, que abençoou o acordo, acompanharam sua assinatura. “A Catedral Metropolitana é a casa de todos. Não apenas dos fiéis católicos, mas de todos os cidadãos que reconhecem na fé, na cultura e na história elementos fundamentais da identidade de Ribeirão Preto. Recebemos esse auxílio com gratidão, mas conscientes de que o desafio é imenso e precisa do apoio de toda a sociedade”, declarou o arcebispo.
A expectativa da Arquidiocese é que a assinatura incentive outros empresários a buscarem caminhos semelhantes, transformando disputas jurídicas em combustível para a preservação de um dos principais símbolos de Ribeirão Preto. “Revitalizar o Centro não é só mexer em ruas e praças. É salvar os símbolos, e a catedral é um deles. Essa obra é parte desse esforço maior”, afirmou Ricardo Silva.
CAMPANHA SALVE A CATEDRAL
Desde o final de 2024, a campanha Salve a Catedral vem se consolidando como uma ponte entre a sociedade civil e o poder público em Ribeirão Preto. A iniciativa foi idealizada por empresários e profissionais de diferentes segmentos da cidade. Além disso, o projeto “Revitalização da Catedral de São Sebastião – Fase 1” foi aprovado pela Lei Rouanet, com autorização para captar até R$ 3,8 milhões, valor que já dá corpo à expectativa de intervenções iniciais.
A destinação dessas verbas demanda orçamentos de empresas credenciadas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), trabalhos de análise por órgãos federais e critérios rígidos de transparência, fatores que garantem segurança institucional ao processo e já foram aprovados. As obras devem começar em breve.
Mesmo assim, a campanha já celebra resultados concretos. São mais de R$ 1,2 milhão captados via Lei Rouanet apenas nos primeiros meses, com complementos provenientes de doações espontâneas e eventos promovidos pela comissão gestora. No início de 2025, a campanha recebeu um impulso significativo: a Cúria Metropolitana anunciou oficialmente a doação de R$ 500 mil, fruto de arrecadações coletivas entre as paróquias que compõem a Arquidiocese. Na ocasião, o arcebispo dom Moacir Silva afirmou que “o valor representa o empenho de todas as paróquias da Arquidiocese, que estão engajadas na restauração desse importante patrimônio histórico e cultural”.