Leitura que se sente: linha braille amplia acesso, mas ainda esbarra no alto custo
Silvânia Santos utiliza a linha braille no dia a dia; recurso ampliou seu acesso à leitura e aos estudos

Leitura que se sente: linha braille amplia acesso, mas ainda esbarra no alto custo

Tecnologia assistiva amplia autonomia e inclusão, mas ainda está distante da realidade de muitas pessoas com deficiência visual, especialmente surdocegas

Em um cotidiano cercado por informações visuais — placas, telas e endereços —, o acesso à leitura ainda não é igual para todos. Para pessoas com deficiência visual, a leitura tátil segue sendo essencial para garantir autonomia e participação social. Mais do que um sistema, o braille representa acesso direto à linguagem e, mesmo com o avanço de tecnologias baseadas em áudio, continua indispensável.

 

Isso porque nem todos podem contar com o som como recurso. No caso da surdocegueira, por exemplo, o braille se torna a principal forma de comunicação e acesso à informação — uma ponte direta com o mundo.

 

É nesse contexto que a linha braille ganha destaque. O dispositivo eletrônico converte conteúdos digitais em leitura tátil por meio de células com pontos em relevo que se movimentam conforme o texto exibido. Na prática, funciona como uma tela que pode ser lida com a ponta dos dedos. Modelos mais avançados contam com sistema Android, permitindo o uso de aplicativos, leitura de mensagens e acesso a redes sociais, favorecendo a comunicação e a interação.

 

Foi a partir da necessidade de ampliar esse acesso que surgiu o projeto Linha Braille Acessível, idealizado pela professora de idiomas Cristiana Cerchiari, de São Paulo. Pessoa com deficiência visual, ela percebeu, na prática, o impacto da tecnologia no aprendizado dos alunos e também os limites de acesso ao equipamento. “A linha braille torna a nossa vida mais acessível, mas não é acessível ao bolso.”

 

Cristiana Cerchiari, idealizadora do projeto Linha Braille Acessível, que busca ampliar o acesso ao equipamento no Brasil

 

O alto custo do equipamento ainda é um dos principais obstáculos. Hoje, no Brasil, os modelos mais básicos partem de cerca de R$ 20 mil, enquanto versões mais completas podem ultrapassar R$ 40 mil — e, em alguns casos, chegar a valores ainda mais elevados, dependendo da tecnologia embarcada.

 

Esse cenário faz com que o acesso individual ao recurso ainda esteja distante da realidade de muitos.

 

Antes da criação do projeto, Cristiana chegou a levar sua própria linha braille para as aulas e revezar o uso entre os alunos — uma solução que, ao mesmo tempo em que demonstrava o potencial da tecnologia, evidenciava a desigualdade de acesso.

 

Criado em 2021, o projeto já possibilitou que mais de 15 pessoas tivessem acesso à linha braille em diferentes regiões do país, conectando histórias de inclusão que vão além da leitura. A iniciativa também alcança moradores de Ribeirão Preto e cidades da região, ampliando o impacto local a partir de uma mobilização nacional. “Depois de usar a linha braille, os alunos relatavam que o processo de memorização das palavras se tornava mais rápido”, explica.

 

Entre as histórias, o impacto vai além da leitura. É o caso de Rubens, pessoa surdocega que voltou a utilizar tecnologias assistivas com o apoio da linha braille. Com o equipamento, passou a se comunicar por mensagens e acessar conteúdos digitais, evidenciando como o recurso favorece não apenas o acesso à informação, mas também a conexão com outras pessoas.

 

Em Ribeirão Preto, a trajetória de Silvânia Santos revela como o braille pode transformar vidas. Natural do interior de Minas Gerais, ela não frequentou a escola na infância por acreditarem que não teria condições de aprender. Foi somente após conhecer a Adevirp (Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região) que teve contato com o braille. “Quando escrevi meu nome pela primeira vez, foi uma alegria enorme. Me senti liberta.”

 

Já adulta e mãe de dois filhos, encontrou no método uma nova possibilidade de autonomia, que a levou à conclusão do ensino médio. Hoje, com a linha braille conquistada por meio do projeto, a leitura passou a fazer parte da rotina de forma mais acessível. “Se não fosse o braille, eu não saberia escrever nem o meu nome.”

 

A experiência também revela trajetórias distintas. O casal Guilherme Sandrin Parizi, agente de administração, e Paula Pinhoni, bancária, compartilha vivências complementares, marcadas por diferentes momentos de contato com o braille.

 

Para Paula, o aprendizado veio na vida adulta, em meio ao processo de perda visual. “Foi um tanto chocante entender que as coisas dali em diante seriam diferentes.” Leitora desde a infância, ela encontrou no braille uma forma de retomar a relação com os livros. “O braille me trouxe liberdade.”

 

Já Guilherme teve no braille sua principal forma de acesso à leitura desde o início. “Foi minha única forma de aprendizagem.” Ambos destacam que, apesar dos avanços tecnológicos, a leitura tátil continua sendo essencial. “Sem o braille, a gente perde a grafia das palavras”, explica Paula.

 

Guilherme complementa: “Quando ouvimos, não sabemos se a palavra é com ‘c’ ou com ‘ss’.”

 

Com a tecnologia, o acesso a conteúdos digitais ampliou as possibilidades de leitura e escrita. Hoje, o casal lê diferentes materiais e mantém o hábito de compartilhar esse momento. “A gente sempre lê algo junto e depois conversa sobre o que leu.”

 

Mais do que um recurso de acessibilidade, o braille segue sendo uma ferramenta fundamental de inclusão. Em um mundo pensado para quem enxerga, a leitura com a ponta dos dedos continua sendo o caminho para garantir acesso, autonomia e participação.

 


Linha braille: dispositivo que transforma conteúdos digitais em leitura tátil por meio de pontos em relevo.Linha braille: dispositivo que transforma conteúdos digitais em leitura tátil por meio de pontos em relevo


*Com a colaboração da estagiária Gleice Priscila dos Santos

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