Polícia para quem precisa

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Prefeitura inicia Atividade Delegada com militares em folga para aumentar segurança em áreas centrais e comerciais; especialistas avaliam ação positiva, mas reforçam limites

A Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto iniciou a implantação da Atividade Delegada, modelo que permite a atuação de policiais militares em horários de folga para reforçar o policiamento ostensivo. A operação começou com 16 agentes e oito viaturas distribuídas em cinco pontos considerados prioritários, com foco em áreas de maior circulação e registros de ocorrências.


Na prática, a medida amplia a presença policial em regiões como o Terminal Rodoviário, a Praça da Catedral, a Praça das Bandeiras, a Praça Santo Antônio e a avenida Saudade. Parte das equipes permanece fixa nesses locais, enquanto viaturas móveis fazem o patrulhamento em vias próximas, como as avenidas Dom Pedro, do Café e Álvaro de Lima.


Segundo a Prefeitura, a proposta é atuar de forma mais dinâmica, com possibilidade de realocar equipes de acordo com o comportamento das ocorrências. A iniciativa também prevê integração com a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e outros serviços municipais, incluindo abordagens que envolvam assistência social e saúde, especialmente em situações relacionadas à dependência química.


O investimento previsto é de cerca de R$ 333 mil por mês nesta fase inicial, podendo chegar a aproximadamente R$ 4 milhões ao ano. Os pagamentos aos policiais são feitos com base em horas trabalhadas, conforme critérios definidos pelo Estado.


APOIO CONDICIONAL


Entre representantes dos servidores municipais, a iniciativa é vista como mais um instrumento possível no enfrentamento da criminalidade, desde que acompanhada de outras medidas estruturais.
Para o presidente do Sindicato dos Servidores Municipais, Valdir Avelino, há justificativa para a adoção de mecanismos que ampliem a presença do poder público. “No cenário atual de aumento da violência, não faz sentido se colocar contra instrumentos que ampliem a capacidade de resposta. Quanto mais esforços forem somados, melhor para a população”, afirma.


Ao mesmo tempo, ele ressalta a necessidade de integração entre as forças de segurança. “Segurança não se resolve com cada um trabalhando isolado, mas com ações integradas, sem substituição de competências”, diz.


O dirigente também chama atenção para o papel da Guarda Civil Metropolitana no sistema local de segurança. “É fundamental que iniciativas como essa caminhem junto com a valorização da GCM, com investimento, ampliação do efetivo e reconhecimento do seu papel”, afirma.


Na avaliação do sindicato, o debate sobre recursos não deve ser tratado como uma escolha entre áreas. “Ribeirão Preto tem capacidade de investir em diferentes frentes ao mesmo tempo. A ampliação de instrumentos não substitui a necessidade de investimento contínuo na Guarda e nos serviços municipais”, completa.

 

IMPACTO ECONÔMICO


Entre os comerciantes, a leitura é de que o reforço policial pode ter efeitos diretos na atividade econômica, sobretudo em regiões comerciais. A gerente institucional da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), Larissa Eiras, afirma que a entidade vê a medida como positiva. “É uma iniciativa que fortalece o ambiente de negócios e contribui para a qualidade de vida na cidade”, diz.


Segundo ela, o aumento da presença policial atende a uma demanda recorrente do setor, especialmente em áreas com grande fluxo de pessoas. “A medida atende a um pleito por mais segurança em corredores comerciais estratégicos”, afirma e explica que a relação entre segurança e desenvolvimento é direta. “Segurança pública não é apenas uma pauta social. Ela também é um fator determinante para o desenvolvimento econômico.”


A expectativa é que a maior presença do poder público nas ruas contribua para estimular a circulação de consumidores e reduzir a sensação de insegurança. “Cidades mais seguras fortalecem o comércio, estimulam o turismo e garantem melhores condições para empreendedores e trabalhadores”, completa.

 

LIMITES


Do ponto de vista técnico, a eficácia da medida é vista com mais cautela. Para o advogado criminalista e especialista em Ciências Criminais Guilherme Rodrigues, o modelo tende a produzir efeitos restritos a determinadas áreas da cidade. “A eficácia é absolutamente questionável, uma vez que a atuação está voltada a pontos geográficos muito específicos, especialmente regiões com concentração de pessoas em situação de rua e usuários de drogas”, afirma. Segundo ele, a estratégia dificilmente impacta estruturas mais complexas da criminalidade. “Não atinge a criminalidade mais vultosa, como grandes traficantes, que não estão nesses locais”, diz.


O especialista também alerta para o risco de a política se limitar a intervenções superficiais. “Devemos tomar cuidado para que essa atividade não resulte em higienismo urbano, como já ocorreu em outros municípios. Esse tipo de política não resolve a criminalidade”, afirma.


Já o especialista em segurança pública Signei Moraes aponta que o reforço tende a gerar efeitos imediatos, mas localizados. “A ampliação da presença policial costuma ter impacto rápido na inibição de crimes em áreas específicas”, afirma.


Outro ponto de atenção está na dependência de horas extras e na capacidade de manter os resultados ao longo do tempo. Para Guilherme Rodrigues, esse é um dos principais limites do modelo. “A dependência de jornadas extras e a dificuldade de manter resultados a longo prazo são sintomas de um modelo repressivo questionável, além de representar um custo considerável ao município”, afirma.

 

Ele ressalta que o enfrentamento da criminalidade exige uma abordagem mais ampla. “Apenas a melhoria do policiamento dificilmente resultará em bons resultados a médio e longo prazo. É preciso investir também em investigação, resolução de crimes e ações sociais voltadas à população vulnerável”, diz.

 

 

EFEITOS COLATERIAIS


A utilização de policiais em período de folga também levanta questionamentos sobre desgaste físico e impacto na atuação. “A atividade policial é extremamente exaustiva e perigosa, e as folgas deveriam servir como repouso. A normalização do policial cansado em serviço armado representa um risco tanto para o agente quanto para a população”, afirma Rodrigues.


Ele também reconhece um aspecto positivo do modelo. “A atividade delegada ajuda a complementar a renda do policial e o mantém sob a estrutura do Estado, o que pode ser melhor do que a atuação em segurança privada”, diz.


Entre os indicadores de avaliação, especialistas apontam que a redução de crimes em áreas específicas pode não refletir necessariamente uma melhora geral na cidade. “Uma eventual queda em pequenos furtos pode demonstrar efeito local da presença policial, mas não representa o conjunto da criminalidade do município”, afirma Rodrigues.


Ele também chama atenção para o deslocamento de ocorrências. “A dispersão dessa população para outras áreas pode maquiar os resultados e dar a impressão de melhora sem que o problema tenha sido, de fato, resolvido”, diz.


Para Signei Moraes, o acompanhamento contínuo é essencial. “É fundamental monitorar indicadores como registros de ocorrências e percepção da população para avaliar a efetividade da medida”, afirma. 


Foto: Fernando Gonzaga/Prefeitura de RP

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