Tese de pesquisadora da USP analisa os desafios da Região Metropolitana de Ribeirão Preto

Tese de pesquisadora da USP analisa os desafios da Região Metropolitana de Ribeirão Preto

Fabiana Mori defende planejamento regional com participação popular e equilíbrio ambiental

A professora doutora Fabiana Mori alia a solidez acadêmica a uma inquietação prática: compreender como o espaço urbano se transforma diante das pressões econômicas, sociais e ambientais.

 

Com trajetória interdisciplinar que cruza Arquitetura, Urbanismo, Arteterapia, Semiótica e Ciências Humanas, Fabiana é doutora pela USP e autora da tese “Região Metropolitana de Ribeirão Preto: meio ambiente, transporte e policentralidade”, a primeira a sistematizar com rigor científico a constituição e os desafios da RMRP. Seu estudo revela como o Sistema Aquífero Guarani, a rede de transportes e a estrutura policêntrica moldam o território, expondo tensões entre desenvolvimento, preservação ambiental e desigualdades socioespaciais.

 

À Revide, Fabiana falou também sobre o impacto do agronegócio na configuração da metrópole, os riscos que ameaçam os recursos hídricos e a importância da participação popular na construção de um futuro mais equilibrado para a região.

 

O que motivou a escolha da Região Metropolitana de Ribeirão Preto como foco do seu doutorado? Houve algum aspecto pessoal ou acadêmico que a aproximou desse objeto de pesquisa?

 

A escolha da Região Metropolitana de Ribeirão Preto como objeto central da pesquisa foi motivada, sobretudo, por razões acadêmicas. Trata-se de uma investigação inédita no âmbito do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, instituição de referência nacional e internacional na produção de conhecimento sobre urbanismo e ordenamento territorial. Embora existam muitos estudos e dados sobre a RMRP, até então não havia uma tese de doutorado que sistematizasse essas informações com rigor científico, articulando os aspectos institucionais e produtivos às estruturas territoriais que conformam a RMRP.

 

A pesquisa buscou reconhecer a constituição da RMRP como uma Região Metropolitana pós-1988, considerando os marcos legais e as dinâmicas territoriais que a caracterizam. A partir de uma abordagem multiescalar, foram identificados três elementos estruturantes que orientam seu desenvolvimento: o Sistema Aquífero Guarani, como estrutura ambiental; a rede técnica de transportes, composta por rodovias, ferrovias e aeroportos; e uma estrutura radial policêntrica, que reúne centralidades econômicas e simbólicas de forma articulada, ainda que fragmentada.

 

Enquanto questão norteadora, foi ampliar a compreensão das regiões metropolitanas instituídas após a Constituição de 1988, reconhecendo a pluralidade dessas formações, diante da diversidade territorial brasileira. O recorte temporal parte da institucionalização da RMRP em 2016, mas a análise também contempla sua formação histórica e as características contemporâneas que revelam processos de metropolização em curso, vinculados à reestruturação do capital e à transformação do espaço urbano.

 

A senhora poderia explicar o que significa “policentralidade” e por que esse conceito é importante para entender a organização da região?

 

O conceito de policentralidade refere-se à existência de múltiplos centros urbanos articulados dentro de uma mesma região metropolitana, que desempenham funções econômicas, sociais e simbólicas relevantes, ainda que com diferentes graus de influência territorial. No caso da Região Metropolitana de Ribeirão Preto, a pesquisa identificou um núcleo policêntrico radial, tendo o município-sede como centro principal, articulado a três vetores de crescimento urbano-regional situados ao Norte, Sul e Oeste, que revela uma estrutura territorial fragmentada, porém funcionalmente conectada.

 

A policentralidade foi identificada a partir da análise do uso e ocupação do solo, infraestrutura e dinâmica produtiva. Além de Ribeirão Preto, outras cidades médias vêm se consolidando como centros regionais autônomos, com papel estratégico na organização territorial. A presença do Sistema Aquífero Guarani na faixa leste limita a expansão urbana, reforçando os vetores de crescimento observados. Compreender essa estrutura é essencial para orientar o planejamento e promover maior equilíbrio entre os municípios da RMRP.

 

O engajamento da população é essencial: a participação em conselhos urbanos, audiências públicas e fóruns comunitários fortalece o debate sobre melhores usos no âmbito territorial e da sustentabilidade.”, destaca a pesquisadora.

 

O Sistema Aquífero Guarani aparece como elemento central do seu estudo. Que riscos e oportunidades ele representa para o desenvolvimento regional?

 

A interface entre o Sistema Aquífero Guarani (SAG) e a Região Metropolitana de Ribeirão Preto constitui um dos eixos estruturantes da pesquisa, sendo essencial para compreender a organização territorial e as dinâmicas produtivas da região. O SAG, por sua relevância ambiental e estratégica, representa simultaneamente riscos e oportunidades para o desenvolvimento regional.

 

Do ponto de vista das oportunidades, sua presença confere à região uma base hídrica de grande valor, especialmente para atividades vinculadas ao agronegócio e à indústria, que dependem fortemente da disponibilidade de água. Essa condição favorece a consolidação de redes produtivas e industriais, contribuindo para o fortalecimento econômico regional.

 

Contudo, há riscos associados à vulnerabilidade ambiental nas áreas de afloramento do aquífero, especialmente na faixa leste da RMRP, exigindo controle rigoroso do uso do solo para evitar contaminações. Já na porção oeste, sem afloramentos, há maior liberdade para expansão urbana. Essa diferenciação territorial reforça a necessidade de um planejamento que considere as restrições e potencialidades ambientais. O SAG atua como um condicionante do ordenamento espacial e demanda gestão integrada entre os municípios.

 

 

O agronegócio tem forte presença na região. De que maneira a agroindústria influencia a configuração urbana e a dinâmica da metropolização?

 

A presença do agronegócio na Região Metropolitana de Ribeirão Preto exerce influência decisiva sobre a configuração urbana e os processos de metropolização. Observa-se uma concentração de investimentos em infraestrutura voltada às redes agroindustriais, especialmente na porção oeste da RM, onde há menor restrição ambiental e maior disponibilidade territorial. Essa área abriga municípios como Sertãozinho, único classificado como de porte médio pelo IBGE (2022), que se destaca pela expansão de zonas industriais voltadas à transformação de produtos agrícolas, dentre outros, consolidando-se como polo produtivo regional.

 

Em contraste, a área leste apresenta restrições ambientais significativas, sobretudo devido aos afloramentos do Sistema Aquífero Guarani, o que limita o uso e a ocupação do solo. Os municípios dessa área, tem apresentado menores índices de PIB e menor atratividade para investimentos, refletindo desigualdades socioeconômicas.

 

Ressalta-se que o elevado valor da terra — seja para fins urbanos ou agrícolas — está diretamente associado ao acúmulo de capital, o que intensifica a pressão sobre os recursos naturais. Essa dinâmica territorial evidencia o papel estratégico da agroindústria na economia regional, ao mesmo tempo que demanda políticas públicas que conciliem desenvolvimento produtivo com sustentabilidade ambiental e equilíbrio territorial.

 

 

De que forma a população pode se engajar nesse debate e como sua pesquisa pode ajudar a pensar um futuro mais sustentável e equilibrado para Ribeirão Preto e toda a região metropolitana?

 

O engajamento da população é essencial: a participação em conselhos urbanos, audiências públicas e fóruns comunitários fortalece o debate sobre melhores usos no âmbito territorial e da sustentabilidade. Uma, dentre várias considerações da pesquisa, está em revelar os conflitos e potencialidades do território, o que contribui para a formulação de políticas públicas mais equitativas, integradas e sensíveis às especificidades locais, apontando caminhos para um futuro metropolitano mais equilibrado, inclusivo e ambientalmente responsável.

 

 


Foto: Guilherme Fuzaro - Revide

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