Colecionismo revela universos diversos e aproxima pessoas de memórias e identidades
Foto: Imagem de pascal OHLMANN por Pixabay

Colecionismo revela universos diversos e aproxima pessoas de memórias e identidades

De HQs a camisas de futebol, colecionadores explicam como o hábito influencia rotina, história e personalidade

Muita gente só se lembra do colecionismo em épocas específicas, como na Copa do Mundo, quando os álbuns de figurinhas ganham destaque. Mas o universo das coleções é muito mais amplo do que isso. Histórias em quadrinhos, miniaturas, camisas de times, selos e até tampinhas de garrafa são alguns dos itens que podem encantar quem se dedica a esse hobby.

 

O jornalista Márcio Javaroni é um desses apaixonados. Ele coleciona selos, cédulas e moedas, cartões postais, álbuns de figurinhas e camisas do Botafogo de Ribeirão Preto. Com anos de experiência nesse universo, ele faz questão de diferenciar colecionismo de simples acumulação. “É necessário diferenciar um colecionador de um ajuntador. O acumulador junta peças de qualquer jeito. O colecionador pesquisa, levanta dados históricos e organiza o material. Existe um método”, explica.

 

 

O universo dos super-heróis

 

As HQs são uma porta de entrada comum no colecionismo. Natural de Monte Alto, o universitário Nicolas Souza começou ainda criança, quando a mãe comprava gibis no caixa do supermercado. “Eu costumo pensar que foi minha mãe que despertou meu interesse pela leitura”, lembra.

 

A coleção de HQs de super-heróis que Nicolas Souza possui | Foto: arquivo pessoal

 

O hábito ganhou força em 2021. De volta de um compromisso, Nicolas passou em uma banca de jornais perto de casa e se deparou com prateleiras repletas de quadrinhos. Foi quando encontrou a edição 46 da mensal do Batman, que iniciava um novo arco — perfeito para leitores iniciantes. “Vi ali uma oportunidade de embarcar nesse universo”, conta. Quase cinco anos depois, segue firme na coleção.

 

Apesar dos custos e do tempo que demanda, Nicolas diz que não pretende parar. “É um universo muito bacana que, como um livro, nos leva para outro mundo.”

 

O professor de História Alexandre Faraoni também tem longa relação com o mundo das HQs. Começou na pré-adolescência, quando colecionava até tampinhas de garrafa. Mas seu foco eram os gibis, apresentados por uma amiga. “Ela me emprestou uma HQ cuja história só seria concluída no próximo volume. Isso ‘me obrigou’ a comprar o número seguinte só para saber o final”, lembra.

 

O professor Alexandre Faraoni com suas miniaturas | Foto: arquivo pessoal

 

Com o tempo, o interesse pelas revistas diminuiu, mas surgiu outro: miniaturas de personagens da Marvel e DC, lançadas pela extinta Eaglemoss. Hoje, ele também coleciona bolinhas de gude e copos cervejeiros.

 

Futebol e videogames

 

O jornalista Gustavo Tonetto é outro colecionador multifacetado. Ele reúne camisas de times brasileiros, asiáticos e seleções internacionais, como Japão, Alemanha e Brasil. Além disso, mantém uma coleção de videogames, com diversas versões do PlayStation e consoles retrô. “As camisas de time eu sempre colecionei, desde a adolescência, mas pude ampliar muito depois que comecei a trabalhar. Hoje, as que eu mais compro são as do Botafogo”, afirma.

 

As camisas de times de futebol que Gustavo Tonetto coleciona fazem parte de seu estilo e personalidade | Foto: arquivo pessoal

 

Ele conta que sempre teve cuidado com brinquedos, principalmente videogames, ainda na infância, o que contribuiu para o hábito atual.

 

Identidade e enriquecimento cultural

 

Além de colecionar, Javaroni realiza desde 2009 eventos voltados a colecionadores em Ribeirão Preto. O objetivo é criar um espaço de troca, compra e venda entre apaixonados pelo tema. O encontro, que começou focado em selos, hoje reúne numismatas e colecionadores de diferentes áreas.“Temos um multicolecionismo, tem de tudo um pouco”, explica.

 

Márcio Javaroni realiza eventos para colecionadores | Foto: arquivo pessoal

 

Para ele, colecionar também é um exercício de memória e conhecimento. “O fato de colecionar te obriga a buscar informações. Você cresce culturalmente, além de ser uma baita válvula de escape.”

 

Essa relação entre hobby e identidade também aparece nas histórias dos outros entrevistados. O universitário Nicolas Souza enxerga o colecionismo como parte da personalidade: “É uma parte fundamental da minha vida. Gosto de olhar para minha estante — torta, cheia de HQs, lidas ou não — e saber que cada uma está ali esperando o momento em que vou reler como se fosse a primeira vez.”

 

O jornalista Gustavo Tonetto concorda. Para ele, as coleções são espaço de descanso e expressão pessoal. “São meus momentos de relaxamento e lazer. Fazem parte da minha essência.”

 

Já o professor Alexandre Faraoni vê no colecionismo uma prática que dialoga com a própria existência. “Somos mais complexos do que nossos hobbies. As coleções são relevantes porque, estando vivos, buscamos entender nosso papel como indivíduos e como parte da humanidade.”

 

Com trajetórias diferentes, mas unidos pelo mesmo entusiasmo, os colecionadores mostram que cada item guardado carrega lembranças, referências e um pouco da história de quem o escolheu.

 

 

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