Tem que valer a pena
Especialistas e frequentadores apontam por que ambiente, atendimento e significado passaram a pesar mais do que comida e bebida na escolha de lugares para ir
A gastronomia e a vida social fazem parte da cultura ribeirão-pretana. Apesar de não ser um grande polo gastronômico, a cidade tem tradição quando o assunto é bar, restaurante, cafés e botecos, mas, nos últimos anos, especialmente após a pandemia de Covid-19, algo mudou na forma como as pessoas escolhem onde estar. “Quando a pessoa decide sair de casa, ela não está buscando só comer ou beber. Ela quer viver algo que faça sentido”, observa o professor de alimentos e bebidas Pedro de Guide. “A hospitalidade passou a ser pensada como experiência completa. Ambiente, atendimento, luz, música, tudo influencia. A comida continua importante, mas sozinha já não sustenta a escolha”, explica.
Essa mudança não acontece por acaso. “Hoje, a palavra-chave da hospitalidade é experiência. Não envolve só a comida ou o prato ser bom. Envolve o ambiente, o atendimento, as cadeiras, a luz, a música. Tudo faz parte”, resume Pedro. Na prática, isso significa que o lugar deixa de ser apenas funcional e passa a ser vivido como narrativa. Um fenômeno que aparece de forma clara nas histórias de quem frequenta espaços que vão além do consumo imediato. “O cliente pode não saber explicar, mas ele sente”, resume Pedro. “E quando sente, ele volta e conta para outras pessoas.”
A HISTÓRIA COMO EXPERIÊNCIA SENSORIAL
Para a jornalista Aline Barchelli Pinheiro, a escolha de um lugar começa quase sempre pela história que ele carrega. “Eu sempre procuro por lugares diferentes, que têm alguma história pra contar”, afirma. A primeira visita a um café instalado em uma fazenda histórica da região surgiu da curiosidade, mas se transformou em hábito pela sensação de deslocamento no tempo. “Parece que não se está na cidade. Parece um cantinho isolado. Tudo parece contar alguma coisa. A família que morou ali, a época”, relata. Aline descreve a experiência como uma pausa da lógica urbana acelerada, algo que vai além da gastronomia. “Gosto de culinária, mas o lugar sempre me atrai mais que a própria comida.”
Há também, no modo como Aline se relaciona com esses espaços, um desejo de continuidade. Voltar aos mesmos lugares, registrar imagens, observar mudanças sutis ao longo do tempo criam uma relação quase íntima com o ambiente. Não é um consumo de ocasião, mas um acompanhamento, como quem revisita um livro ou um filme já conhecido e encontra novos sentidos a cada retorno. O lugar deixa de ser cenário e passa a fazer parte da própria memória pessoal.
Segundo Pedro de Guide, essa percepção não é casual. “Quando falamos de hospitalidade hoje, não é só receber bem. É pensar em tudo o que envolve o momento vivido pela pessoa. Quem planeja a experiência pensa antes em cada detalhe, mesmo que o cliente não perceba conscientemente.”
VISTA, ATENDIMENTO E MEMÓRIA AFETIVA
Ana Delamonica é influenciadora digital e costuma explorar novos lugares. A experiência começa antes mesmo de se sentar à mesa. “Prezo muito por um atendimento gentil e uma experiência diferenciada, tanto no sabor quanto no ambiente”, diz. Espaços com vista panorâmica da cidade, atendimento cuidadoso e atmosfera cosmopolita marcaram momentos importantes de sua vida, como a comemoração de sua mudança definitiva para Ribeirão Preto. “A noite foi inesquecível”, lembra.
Até episódios aparentemente simples, como um drink específico ou uma situação vivida ali, transformam-se em memória afetiva. “É isso que faz o lugar ficar marcado”, afirma Ana. Ela destaca bares e restaurantes que apostam na vista panorâmica do alto de prédios da cidade e explica que a experiência também tem relação direta com como a cidade se revela a partir de novos ângulos. Estar em um espaço elevado, observar Ribeirão de cima e perceber a movimentação urbana à distância criam uma sensação de pertencimento diferente, quase de reconciliação com a cidade.
Do ponto de vista da hospitalidade, Pedro de Guide explica por que isso acontece. “Quando o cliente diz que se sentiu bem, mas não sabe explicar, é porque quem organizou aquela experiência pensou em tudo antes. Desde a chegada, o estacionamento, a recepção, até o primeiro contato com o ambiente.”
Ele exemplifica que, “às vezes, a diferença está em não ter a dor de cabeça de procurar vaga, ser bem recebido logo na entrada, sentir que alguém estava esperando por você. Isso muda completamente a percepção”.
CONVIVÊNCIA E DIVERSÃO COMO VALORES URBANOS
A experiência também pode surgir do encontro entre pessoas. Para a jornalista Rafaela Siena, o que marcou sua relação com um boliche em Ribeirão Preto foi a possibilidade de compartilhar o espaço com diferentes gerações. “Consegui me divertir com a minha mãe e com o meu irmão. É para todas as idades”, conta. A sensação de estar “fora da cidade”, segundo ela, não vem da distância, mas da quebra do padrão. “Aqui, muitas vezes, a opção é bar ou restaurante, mas ali você come, bebe, joga, se diverte. Não é só sentar e ir embora.”
No caso de Rafaela, o diferencial está na experiência compartilhada e ativa. Diferentemente de espaços em que a interação se limita à conversa, o jogo cria uma dinâmica coletiva, em que risadas, provocações e pequenas disputas fazem parte do encontro. O ambiente favorece a permanência e a troca entre pessoas de idades diferentes, reforçando vínculos familiares e transformando o lazer em experiência de presença, algo que não pode ser reproduzido em telas ou aplicativos.
O professor de gastronomia observa que, mesmo nesses casos, o serviço continua sendo essencial, mas não atua sozinho. “Tem pesquisas que mostram que cerca de 80% da satisfação do cliente em voltar a um local está ligada ao serviço. Só que, se pensarmos apenas no serviço em si, diminuímos o campo de visão. O serviço faz parte da experiência, mas não é tudo”, diz.
Embora partam de experiências distintas, o silêncio histórico, a vista urbana e o jogo coletivo, os relatos apontam para a mesma direção: lugares que criam vínculo são aqueles que oferecem algo além do esperado. São espaços pensados para permanecer, sentir e lembrar e não apenas para consumir rapidamente.
MENOS SAÍDAS, MAIS SIGNIFICADO
Outro fator decisivo nessa transformação é a forma como as pessoas passaram a sair menos e escolher melhor. “A pandemia acelerou muito a busca por experiências mais significativas e afetivas. Hoje, as pessoas saem menos de casa. A tecnologia permite pedir comida, bebida, resolver tudo pelo celular. Então, quando alguém decide sair, precisa valer a pena”, afirma Pedro. Segundo ele, isso é ainda mais evidente entre os mais jovens. “A geração Z sai menos. Então, quando sai, procura algo que traga significado, algo que não dá pra viver dentro de casa ou pelo celular.”
Essa lógica ajuda a explicar a chamada fadiga do consumo tradicional. “Ainda existe quem sai só para comer, beber e ir embora, mas até isso já é uma experiência”, pondera. “O estabelecimento que não pensar na experiência como um todo vai perder espaço. Mesmo que seja uma experiência rápida”, conclui.