Do canteiro de obras ao palco
Filho de pedreiro, Pedro Batista, 21 anos, chegou ao maior festival de dança do mundo, sem mesmo se achar talentoso
Antes de ser “Aquele Dançarino” para mais de 90 mil seguidores no Instagram, Pedro Henrique Batista Silva, 21 anos, foi só mais um garoto quieto, que não conseguia fazer amigos. Filho de um pedreiro que passou de ajudante a dono da própria empreiteira, cresceu com uma necessidade de se movimentar que ele mesmo não sabe ainda nomear. Em julho, pela primeira vez, ele subiu ao palco no Festival de Dança de Joinville – reconhecido pelo Guinness World Records como o maior evento de dança do mundo –, ao lado do grupo de balé neoclássico do Studio de Dança Luciana Junqueira, de Ribeirão Preto.
“Eu sempre fui uma criança muito introvertida. Tanto que eu não tinha amizade quando era mais novo”, conta. A dança chegou como válvula de escape, aos 14 anos, através de um projeto extracurricular de dança do Colégio Cervantes, onde Pedro estudava. Também por causa de uma garota de quem ele gostava no colégio. A mãe, que via no filho a dificuldade de socialização, incentivou.
No ano passado, Pedro entrou no grupo do Studio Luciana Junqueira. Vendo sua dedicação às aulas, a diretora o convidou a ingressar na Jovem Companhia Pré-Profissional de Dança. Foi por ali que ele soube do Festival de Joinville, do qual não fazia ideia até então. “ Você estar naquele ambiente te abre a cabeça, sobre os caminhos que existem para você poder seguir a carreira”, entusiasma-se Pedro. Todo mundo ali, segundo ele, “seguiu a carreira de alguma maneira na dança” o que é ‘prova viva’ de que dá para sair do interior e chegar longe.
Aliás, chegar no festival custou e, para isso, Pedro gravou um vídeo mostrando sua rotina. Sem pedir nada, viu seguidores se mobilizarem para ajudá-lo. Então criou uma meta de R$ 5 mil, para poder ficar duas semanas em Santa Catarina e ainda participar de cursos por lá, somando custos de hospedagem e alimentação — cara na época do festival, ele frisa. Através de doações e parcerias de marcas, a meta foi rapidamente batida e ele agradece o apoio das pessoas para a realização de seu sonho.
‘Olhem pra mim’
A viagem serviu também para expor sua “vida dupla” — pedreiro e dançarino — nas mídias. Desde os 18 anos, Pedro trabalhava como ajudante de pedreiro na empresa do pai, recebendo R$ 80 por diária. “Era muito puxado, sofrido e ganhava muito pouco”, afirma. Hoje, a renda que alcança com a monetização de seus vídeos nas redes sociais já ultrapassa o que ganhava na obra, por isso deixou o canteiro - voltou brevemente para ajudar a “bancar” Joinville.
Por ora, o plano inicial de cursar administração, que ele considerou mais para agradar o pai, está suspenso. Foi substituído pelo desejo de fazer um curso técnico em dança. Sua rotina, de segunda a sexta, é de 3h a 4h de aulas por dia. Nos fins de semana, normalmente se apresenta em shows de dança pela região. Em Ribeirão Preto, a cena do hip-hop que frequenta não tem endereço fixo: ocorre em festas realizadas no Goa Lounge ou no Don Chameleon, mas não há uma programação fixa.
Pedro agora está se preparando para participar do Prêmio Ribeirão Preto em Dança, que reúne bailarinos profissionais e amadores em diversas modalidades. Vai competir ao lado de uma parceira, mas também com um solo de hip-hop, que pretende, um dia, também levar a Joinville.
Os solos que ele mesmo assina, aliás, são o que mais ama na dança. “Cada um conta uma parte da história da minha vida”, justifica. No início, em 2023, seu primeiro solo ele chamou de “Olhem Pra Mim”. Ali, mostrava sua própria rotina na obra, como um pedido silencioso de ser visto. Um contraste com o presente, onde ganha cada vez mais notoriedade. O solo que nasceu de uma vontade de um menino de ser notado é, hoje, exatamente o que faz as pessoas notarem o jovem adulto dançarino.