No Centro com samba
Samba da Opinião transforma música autoral em memória e ocupação cultural no Centro de Ribeirão
Criado em 2017, o coletivo artístico-cultural Samba da Opinião consolidou-se como uma das expressões mais ativas da cena cultural do Centro de Ribeirão Preto. Com base no samba autoral, na diversidade e em uma proposta que dialoga com memória, identidade e consciência social, o grupo construiu, ao longo de oito anos, um espaço próprio de atuação artística e comunitária.
A iniciativa surgiu a partir da constatação de que muitos compositores da cidade participavam de outros grupos, mas não encontravam espaços para apresentar suas próprias obras. A inspiração veio do histórico Show Opinião, de 1964, que reuniu os cantores Nara Leão, João do Vale e Zé Ketti no palco do Teatro de Arena, no Rio de Janeiro, para abordar questões sociais e políticas por meio da música e do teatro.
“A ideia [do Samba da Opinião] surgiu justamente dessa ausência de espaço para a autoria. O Show Opinião foi uma referência por unir arte, posicionamento e crítica social”, explica um dos idealizadores, o compositor Mano Regis.
Atualmente, o coletivo é formado por 11 integrantes, entre homens e mulheres, e funciona de maneira horizontal, com decisões tomadas de forma coletiva. A proposta é atuar como uma ponte entre passado e futuro do samba, aproximando a tradição das novas gerações e reafirmando o papel do compositor na construção dessa história.
Uma das principais ações do grupo é o Samba no Relógio, realizado quinzenalmente às quintas à noite, nas proximidades do relógio da Praça XV de Novembro, no Centro da cidade. A atividade foi inspirada em experiências como o Samba da Pedra, no Rio de Janeiro, e no movimento do Choro da Casa, que ocorre às segundas-feiras em Ribeirão Preto.
A escolha do local tem forte simbolismo. A região do Quarteirão Paulista foi marcada, historicamente, por processos de segregação social. Para o coletivo, ocupar esse espaço com música, encontro e arte é também um gesto de ressignificação e reparação histórica.
O Samba da Opinião conta com apoio do Centro Cultural Palace, que disponibiliza banheiros ao público, e da Biblioteca Sinhá Junqueira, que auxilia no armazenamento dos instrumentos. Os demais custos, como limpeza, combustível para o gerador e equipamentos de som, são arcados pelos próprios integrantes, com apoio de contribuições espontâneas do público via PIX.
Integrante desde o início, o músico Filipe Cardoso destaca o impacto social do projeto. “A gente leva música para quem normalmente não tem acesso. Participar do Samba da Opinião é fazer parte da memória cultural da cidade”, afirma.
Para Marlon dos Reis, percussionista do grupo, o coletivo também carrega responsabilidade. “Levamos nossa identidade e nossas opiniões sem preconceitos. Transmitir isso por meio da música é uma honra”, declara.
Além do Samba no Relógio, o coletivo realiza ações sociais, apresentações em instituições e eventos em diferentes espaços da cidade. Entre os planos estão a criação de um espetáculo que conte sua trajetória, a circulação fora de Ribeirão Preto e a gravação de novas músicas autorais.