"O teatro não é lugar seguro, porque é um lugar onde se tem que pensar"
Em Ribeirão Preto para apresentar o monólogo “Ficções”, a atriz Vera Holtz fala sobre o prazer de interpretar
Muito antes de ser “a atriz” Vera Holtz, Vera Lúcia Fraletti Holtz já era uma força da natureza a conjugar, no mesmo nome e temperamento, heranças genéticas tão fortes quanto díspares. Dos Fraletti, sua parte italiana, ela abraça totalmente o cultivo da tradição familiar, da roda de conversa, da comida como ponto de união e o hábito de todo mundo fazer as coisas junto apesar dos atritos – ‘porque italianos são explosivos’, admite ela, ‘mas a relação afetiva é muito profunda e o nível de responsabilidade de um cuidar do outro, alto’, emenda.
Dos Holtz, o lado alemão, Vera reconhece em si o senso prático. “É outro tipo de humor, outro tipo de relação”, avisa, mas tem também afetividade e uma cumplicidade a partir do labor. “Tia Rita, por exemplo, nos ensinou piano desde muito pequenas. Tio Rolf, casado com ela, era pintor de natureza morta. Então, tenho dele o amor pela arte, pela música, pelas artes visuais”, conta a terceira de quatro irmãs nascidas e criadas em Tatuí. Só ela virou atriz.
Vera já era das artes quando descobriu, por volta de 1975, que queria viver disso para o resto da vida. Estava assistindo à peça “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, de Oduvaldo Viana Filho, no antigo Teatro Anchieta (atual Sesc Consolação). “Tive uma epifania ali. Pensei: ‘quero fazer isso na minha vida’. Eu devia ter 20 e poucos anos, estava em São Paulo e tinha me formado em Artes Plásticas. Já tinha estudado piano quase toda minha vida no Conservatório Dramático e Musical de Tatuí. Então eu tinha uma trajetória na arte. E como ali tinha música, tinha o cenário, o figurino, que são artes visuais, coisas que eu reconhecia, eu realmente me senti em casa. E comecei a correr atrás”.
Não parou mais. E tem sido uma “maratona” muito bem-sucedida até aqui, com dezenas de trabalhos em teatro e televisão, grande parte deles premiados. O atual, o monólogo “Ficções”, que iniciou carreira nos palcos em setembro de 2022 – Vera apresentou nessa sexta-feira, 15, e sábado, 16, no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto. Sobre isso e outras questões, ela fala na entrevista a seguir:
Um aspecto que chama muito a atenção quando a vemos atuar é como você demonstra estar muito à vontade no palco. Em algum outro lugar você se sente tão em casa?
Só na rua [risos]. Quando eu estou na rua, eu falo com as pessoas, eu cumprimento... Quando estou junto com gente! Exemplo: fui hoje de manhã numa [emissora de] televisão. E quando você chega numa redação de televisão tem muita gente sentada. Estão sempre muito absortos no seu próprio lugarzinho, com sua tela. E aí eu recebi um “bom dia” de todo mundo. Pensei: bom, foi jogada a isca. Aí vi que depois que saí já tinha quem queria tirar foto. É essa relação com o presencial! O teatro – ainda mais esse teatro que nós estamos fazendo, o “Ficções” –, me permite ter uma relação, em alguns momentos, direta com a plateia. Quando você está no palco, você está o tempo inteiro trocando. Então, eu me sinto muito bem no palco e quando eu estou trocando, no dia a dia, com as pessoas.
É diferente na televisão? Você se sente tão à vontade assim na frente das câmeras, gravando novelas?
Sim. É bom quando você está contando boas histórias. E as equipes são maravilhosas. Todo mundo que estava junto com a gente no período em que eu fiz novela era apaixonado pelo trabalho. Em qualquer etapa, todo mundo estava focado. Então, era uma grande família focada no mesmo produto e querendo que resultasse no melhor possível. Então você já conhece os câmeras, o diretor de fotografia, conhece o pessoal que está no “corre”, todo mundo que está com você. E cada vez conhece mais porque você fica muito tempo fazendo o mesmo produto.
Quando parece trabalho? Porque a impressão que passa é que para você tem muito de diversão.
Nunca. Na minha profissão, nunca [parece trabalho]. Se você faz o que você gosta, você vai fazer com prazer até o fim de sua vida. E se você tem respeito pelas pessoas que trabalham contigo, pelo que o outro faz melhor que você. Por isso, é importante estarmos todos juntos porque você é uma parte da uma engrenagem gigantesca. No caso da televisão e do teatro também. Em qualquer lugar da vida você é só um pedacinho.
Então, quando você tem consciência desse jogo, dessa brincadeira, do que é o processo, o produto de um trabalho, não tem chatice. É sempre com vontade e com prazer. Essa foi a minha escolha. Não fui por um outro caminho. Falei: “quero isso, é aqui que eu vou ficar e isso aqui vai ser a minha vida”. Então, eu vou viver assim, como uma artista. E um artista deve viver no seu tempo. E durante o período todo você vai aprendendo a relação desse “ser”, que gosta de brincar. Porque criação nada mais é que brincadeiras, né?

“Eu me sinto muito bem no palco e quando eu estou trocando, no dia a dia, com as pessoas” (Foto: Ale Catan)
Conte a história do seu encontro com “Ficções”. Como tudo começou para você em relação a este trabalho?
Eu recebi um convite. A Alessandra Reis me ligou perguntando se eu tinha disponibilidade e se eu gostaria de fazer uma obra, que é o “Sapiens...”, baseado no livro do Yuval [Noah Harari]. Falei: “lógico que eu gostaria de fazer, mas que recorte vocês vão fazer dessa obra?”. Eu já conhecia o livro [‘Sapiens - uma bela história da humanidade’], já entendia a dinâmica dele... algumas pessoas não conseguem ler porque tem um momento que cansa um pouco. O livro vai contando a história da humanidade. Tem toda uma dinâmica de compreensão. O começo fala do homo sapiens, quais são os homos que sobreviveram... vai depois vai entrando em questões como sistema de crenças, como tudo foi sendo criado, sociedade anônima. É uma loucura o livro nesse sentido. É genial! A gente vai contando de uma forma que vai levantando reflexões. Não é uma obra de respostas, mas de levantamento de perguntas. Inicialmente, todo mundo entrou no espetáculo sem termos um texto.
Nosso diretor, Rodrigo Portella, é bastante aclamado, muito contemporâneo. Então, falei: “bom, não tem como não contar uma história boa com o ‘Sapiens’, com o Rodrigo e essa equipe toda”. E falei: “vamos nessa, vamos fazer”. [...] E o recorte é assim: a extraordinária capacidade que o homem tem de inventar histórias com as grandes narrativas. Capacidade de criar e crer. E ele crê naquela história que ele inventa e conta para outro. E o outro também crê e conta para outro. E outro também crê, que também crê, que também crê. E isso que gera a cooperação. O fato de todo mundo crer na mesma coisa. Dou o exemplo: Jesus Cristo, Deus, são criações humanas. Nação brasileira só existe no pensamento. Leis, religiões, idiomas, nomes de todas as coisas, todas as ideologias, tudo isso é criação da humanidade, dessa capacidade extraordinária de criar que nós temos. Realmente, o homo sapiens é extraordinário!
O Rodrigo Portella fala que a peça é um diálogo que vocês estabelecem com a obra literária. Que parte desse diálogo lhe chama mais atenção ou lhe emociona mais?
Sim, é uma conversa. O Rodrigo, por exemplo, é um caso engraçado porque chegou uma hora em ele começou a falar que era tudo muito pessimista e ele começa a escrever umas coisas. Ele transforma uma das personagens em nômade, que quer ir para o mundo. “É esse o homo sapiens? Então, quero ir embora. Não quero viver essas narrativas todas que eu mesmo criei para viver. Quero viver o meu tempo. Não quero só produzir, produzir, produzir. Quero viver algo mais selvagem”.
Então, isso é muito interessante, porque ao mesmo tempo em que você levanta as questões, você a se coloca dentro delas e fala: “meu Deus, por que estou fazendo isso? Por que estou fazendo essa peça? O que estou querendo descobrir com essa peça?”. Então, são questionamentos que nosso diretor/escritor traz na dinâmica da obra que, em algum momento, chega ao público. Em algum momento a plateia é plugada pela peça, pelo teatro.
Tem algum comportamento ou reação em comum nas plateias que viram o espetáculo?
Cada plateia tem um comportamento distinto. Uma ri em um lugar, outra em outro lugar. Tem plateia que se emociona o tempo inteiro; tem plateia que é super silenciosa e na hora do aplauso vem com uma explosão muito grande e se externa mais; tem plateia que vai soltando a emoção aos pedacinhos. É bem distinto mesmo o comportamento. Até por conta das diferentes regiões do Brasil. É muito interessante essa troca.
Recentemente, tivemos dois fatos diferentes. Não posso falar em que cena foi, mas teve uma que a plateia pediu para repetir. Nunca tinha acontecido isso. Foi em Uberlândia [MG]. Ali tivemos dois momentos distintos e raros que nunca tinham acontecido. Essa do pedido de repetição da cena, no sábado, e no domingo tivemos um momento de grande emoção, com uma mulher que ficou muito tocada. Nós demos um tempo para ela se acalmar e darmos continuidade à peça. A obra é mesmo meio tragicômica. Uma indo para o jogo do humor e a outra culminando com um momento de dor, trágico. Para você ver como as coisas são dinâmicas.
Você esteve em Ribeirão Preto outras vezes, que eu sei...
Vim com a peça “Pérola” a Ribeirão. Quando vim pela primeira vez, foi naquele teatro demais de lindo, que tem choperia ao lado [Pedro II]. Lembro que foi muito legal, muito especial. Ribeirão é uma cidade universitária e essa dinâmica foi muito interessante quando fizemos “Pérola”. Lembro que é uma cidade bastante quente e essa dinâmica dos jovens nos bares à noite é muito interessante. Depois, acho que conheci algumas pessoas em Ribeirão e depois elas ainda se encontravam comigo. Ainda ficamos com uma ligação com o pessoal de Ribeirão.
Já aparecem alguns potenciais novos trabalhos no seu horizonte para depois de “Ficções”?
Não. Eu resolvi realmente suspender qualquer tipo de convite, porque quero fazer “Ficções” plenamente agora. Será o terceiro [ano]. Estamos com 2025 bastante movimentado. E a gente pretende levar a peça para Moçambique, Angola, países de língua portuguesa, se a gente conseguir. Estamos nos preparando para isso. Então, até 2026 quero só trabalhar no teatro e, também, organizar a minha vida. Rever, voltar a ler coisas que foram escritas sobre os trabalhos. Vontade de dar um tempo para a Vera. Vou fazer uma releitura da minha casa, da minha própria vida, visitar pessoas queridas, porque o tempo passa e às vezes a gente não tem tempo para isso.

“Se você faz o que você gosta, você vai fazer com prazer até o fim de sua vida.” (Ale Catan)
Televisão tão cedo, não?
Não tenho contrato com a Globo já há algum tempo. A gente queria fazer esse desmame. Porque a Globo é uma mãezona e é difícil ficar longe da família, né? É uma família artística de uma afetuosidade muito grande. Então, não é fácil o desmame desse núcleo afetivo que a Globo representou para a gente. Mas foi o que aconteceu. Tivemos mudanças de relações de trabalho e quando houve essas mudanças, tive tempo de parar um pouco para pensar e veio a peça. E nós seguimos. E veio o filme também, chamado “Tia Virgínia”, de um diretor de Goiânia, chamado Fábio Meira, que ganhou o Kikito [no Festival de Cinema de Gramado]. Foi um filme muito aclamado em 2023. Então, foi um tempo muito especial pra gente e vamos cuidar desse tempo.
Algum recado para quem ainda não comprou ingressos para a peça?
Não esqueçam de ir e nos assistir porque nós estaremos aqui com vocês e é um tempo para nós. É um tempo para a gente poder estabelecer uma relação. E não tem lugar melhor do que fazer isso no palco. O teatro é o lugar do imaginário e a gente pode pensar um pouco no nosso extraordinário imaginário como homo sapiens.
Fotos: Ale Catan - Divulgação