Os 95 anos do Theatro Pedro II
Não é só um teatro, mas um pedaço significativo da história de Ribeirão Preto, que ainda enfrenta desafios em sua preservação
Um dos mais icônicos símbolos de Ribeirão Preto, o Theatro Pedro II completou 95 anos de história no último dia 8 de outubro de 2025. Quem anda pelo Centro de Ribeirão Preto e passa em frente, encanta-se com a sua imponência. Mas, para além dos tijolos e ornamentos, é possível enxergar memória, arte e potencial no edifício, uma casa viva, que ao longo do tempo viveu transformações profundas, mas manteve sua relevância cultural.
Reafirmando sua história e legado, e simultaneamente investindo em sua contemporaneidade, a administração do Theatro, feita pela Fundação Dom Pedro II, tem pela frente uma lista de ações em andamento — reformas, modernização, inclusão e abertura à cidade. “O clima é de ação, porque o futuro deste patrimônio se constrói no presente! Vamos construir um Theatro Pedro II cada vez mais conectado com seu tempo e com sua gente”, sintetiza Flavia Garcia Chiarello, presidente da fundação.
Situado no histórico Quarteirão Paulista — onde se concentram as grandes construções da Ribeirão Preto cafeeira — a arquitetura do Theatro Pedro II impõe respeito. Leva a assinatura do arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol Júnior e da empresa alemã Kemmitz. No interior, com lustre da artista Tomie Ohtake, cúpula metálica e palcos com acústica de renome, infindas memórias de um tempo de esplendor unem-se às mais recentes, permeadas por grandes apresentações artísticas e eventos culturais.
PROXIMIDADE COM O PÚBLICO
Após cinco anos fechado para visitação pública, o Theatro Pedro II está novamente de portas abertas, permitindo às pessoas conhecerem de perto os detalhes deste patrimônio. “Isso é um marco para a relação do Theatro com a cidade”, afirma Flavia.
“Parte do público tem a impressão de que o Theatro Pedro II é um santuário, uma coisa elitizada, e que as pessoas mais simples não gostam nem de pensar em entrar nele, mas não é assim. O Theatro é uma fundação municipal e um prédio maravilhoso, que merece pelo menos ser visitado”, afirma Jay Mil Homens, vice-presidente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. Além disso, diz Jay, há apresentações que agradam a todos os gostos. “O público em geral pode e deve ir ao Theatro, aproveitar essa maravilha que temos em Ribeirão Preto, um privilégio de poucas cidades no Brasil. Espero que ele dure mais algumas centenas de anos, agraciando o público com apresentações da orquestra”, ressalta.
Em 29 anos de reinauguração — após 16 anos fechado por causa de um incêndio —, a agenda do espaço cultural tem contemplado importantes projetos. São parceiros de longa data, como os concertos e óperas da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, a USP Filarmônica, a Feira Internacional do Livro (FIL) de Ribeirão Preto e projetos do Sesc (Serviço Social do Comércio), além de turnês teatrais, shows musicais, espetáculos de dança contemporânea e ballet clássico.
“O Theatro Pedro II chega aos 95 anos com alma jovem e cortinas sempre abertas à emoção. Nessa jornada, a FIL caminha junto, afinando sonhos, tocando corações e celebrando a beleza de estarmos em sintonia. É uma parceria que transforma sons em emoção e palcos em poesia. Que sigamos, juntos, compondo novos capítulos dessa linda história cultural e encantando plateias por muitos atos ainda!”, ressalta Dulce Neves, presidente de Fundação Feira do Livro.
AGENDA DISPUTADA
Em sua trajetória atual, um passo importante foi a retomada do Projeto Palco, que permite o acesso de artistas da cidade ao espaço, iniciativa celebrada, que reafirma o compromisso com a excelência artística e cultural. “Somos o terceiro maior teatro de ópera do Brasil, perdendo em capacidade de público apenas para os do Rio de Janeiro e São Paulo. O Theatro Pedro II só é vivo, plural, pulsante e criativo se estiver conectado com seu povo e tendo força, saúde financeira e estrutura para construir, com ele, seu futuro”, enfatiza Flávia.
Com uma agenda extremamente concorrida, o Pedro II busca sempre a melhor forma de atender às solicitações, mantendo a isonomia em sua curadoria e a qualidade de suas programações, com ênfase inicial do trabalho do setor artístico, para amplo atendimento.
Entre espetáculos gratuitos e pagos, em 2024 foram realizadas 234 apresentações, com público somado de 132.493 espectadores. Em 2025, já são 164 espetáculos e 95.394 espectadores, entre os meses de março e setembro. A equipe conta também, além do Setor Artístico, com técnicos de palco, pessoal de zeladoria, limpeza, luz e som, receptivo, de bilheteria e diretorias. “Com grande amor, trabalham para entregar grandes resultados, da melhor forma possível. Temos como missão levar essa excelência à população, dar acesso ao Theatro e à sua programação, e isso tem se concretizado, cada vez mais, por meio de projetos de formação de plateia, ações educativas e programações, com pertencimento, fortalecendo o papel do Theatro Pedro II como um espaço de democratização da cultura”, aponta Fabricio L. Pin de Araujo, coordenador artístico e diretor administrativo da Fundação Dom Pedro II.
Para a fundação, é essencial construir um Theatro Pedro II cada vez mais conectado com seu tempo e sua gente. “Fico muito feliz de estar lutando para trazer mais governança, mais transparência de gestão, dinheiro, inclusão e pertencimento a este marco da nossa história e da nossa cidade.”, enfatiza Flavia.
GRANDES AMIGOS
A relação entre a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto e o Theatro Pedro II começou em 1930, na própria inauguração do Theatro, em 8 de outubro de 1930, quando a OSRP fez o concerto de abertura do local –prática, inclusive, que se tornou tradição. “Tanto o Theatro como a orquestra abrem as suas respectivas temporadas em março. A Sinfônica de Ribeirão Preto vem se apresentando no Theatro, nesses 95 anos, pela série ‘Concertos Internacionais’, com uma programação que inclui nove concertos ao ano”, conta Jay Mil Homens.
Centenária, a orquestra conta, nos últimos 95 anos, com a parceria do Theatro Pedro II para suas apresentações e óperas com convidados especiais do mundo musical nacionais e internacionais. “Quando associamos a Orquestra Sinfônica com um repertório mais clássico e erudito, em um palácio como é o Theatro Pedro II, fica ainda mais agradável. Vivemos momentos prazerosos, que normalmente duram de 1h a 2h, que é o tempo de um filme ou de um jogo de futebol, e nos distraímos e deleitamos com boa música”, ressalta Jay.
Além disso, o Pedro II também abre suas portas para o ensaio da orquestra, às quintas-feiras, recebendo crianças da rede municipal de ensino que assistem e aprendem sobre instrumentos e obras. No projeto Juventude tem Concerto, acontece uma apresentação gratuita no Theatro, às 10h da manhã dos domingos, sempre após um Concerto Internacional, realizado no sábado à noite. Isso permite às famílias levarem as crianças ao Theatro, para assistirem uma apresentação de música clássica de repertório.
OBRAS SÃO NECESSÁRIAS
Construído e inaugurado entre o ápice e a turbulência do ciclo do café, até os dias atuais o prédio histórico vivencia os desafios constantes de sua preservação. Seu maior drama aconteceu na noite de 15 de julho de 1980, quando 80 pessoas assistiam a “Os Três Mosqueteiros Trapalhões” – estava funcionando como cinema. Começou um incêndio. “Devido à má qualidade da instalação, uma descarga elétrica provocou um superaquecimento na fiação que passava junto ao madeirante de sustentação das placas de compensado”, sentenciou o perito que assinou o laudo técnico sobre as causas do incêndio. Acobertura e o palco do Theatro ficaram devastados, deixando o prédio seriamente comprometido e lançando-o ao abandono pelos 16 anos seguintes.
Atualmente, são necessárias obras estruturais fundamentais, como a reforma do telhado — financiada por emenda do deputado federal Baleia Rossi e contrapartida da Prefeitura de Ribeirão Preto — e modernização do sistema de ar-condicionado. “Temos goteiras em algumas partes do prédio e precisamos saná-las para que a água não estrague lentamente o que o fogo já consumiu repentinamente. Assim que o projeto for aprovado no Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), daremos início a essa reforma”, aponta Flavia.
Faz 30 anos – desde a última obra de restauração – que o Theatro não recebe um investimento volumoso. “Cuidar desse patrimônio, neste momento, significa investir dinheiro nele. A troca do sistema de ar-condicionado, de Chiller e água fria, para um sistema mais adequado e econômico será um investimento grande para o orçamento do Theatro e ainda não conseguimos parceiros ou doadores”, enfatiza a gestora, recordando que, por muitas décadas, o Theatro serviu de palco para a arte na região. “Agora, ele precisa passar por reformas necessárias, para que continue sendo este importante referencial histórico, arquitetônico, artístico e cultural”, completa Flavia Chiarello.
APOGEU, DECLÍNIO E RENASCIMENTO
Idealizado como uma casa de espetáculos de porte, com capacidade em torno de 2 mil pessoas e a ambição de rivalizar com grandes palcos do país, o Theatro Pedro II foi erguido entre 1928 e 1930, período em que Ribeirão Preto vivia o auge de sua riqueza agrária, sustentada pela produção cafeeira.
Inaugurado em 8 de outubro de 1930, com a exibição do filme “Alvorada do Amor”, rapidamente o prédio tornou-se símbolo de poder, modernidade e da identidade local, mantendo-se por mais de três décadas como a principal referência cultural de Ribeirão Preto.
Em sua era de ouro, recebeu grandes companhias internacionais, óperas, espetáculos e teve seus espaços considerados como ponto central para o encontro social.
Com o passar dos anos, seu glamour foi se perdendo. Entre 1950 e 1970, seu subsolo, apelidado de “Caverna do Diabo”, virou palco de bailes de Carnaval. Na década de 1960, já parcialmente transformado em cinema, o Theatro teve diversos elementos arquitetônicos descaracterizados, o espaço de sua plateia reduzida e camarotes encobertos. Após o incêndio dse 15 de julho de 1980, ficou por 16 anos abandonado.
Diante da tragédia, a mobilização da sociedade foi decisiva. No aniversário de 50 anos do Theatro, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto fez um concerto na Esplanada, em protesto, reunindo um público estimado em 10 mil pessoas. Empresários planejaram demolir o prédio e construir um banco no terreno, o que foi evitado com a mobilização de artistas, políticos e intelectuais.
Em 7 de maio de 1982, o prédio foi tombado pelo Condephaat, marcando o início de uma nova era. As obras de reforma e restauração, iniciadas em maio de 1991, durou cerca de cinco anos e devolveu ao Theatro não apenas sua glória, mas também vitalidade. Em 1996, ele foi reinaugurado com concerto da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto e coral do Teatro Colón, de Buenos Aires.
‘VALOR INESTIMÁVEL’
“Celebrar os 95 anos do Theatro Pedro II é reverenciar uma das mais importantes casas de espetáculo do país, símbolo da força cultural do interior e palco de momentos significativos da história. A Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto tem a honra de, há décadas, compartilhar esse espaço com o público, realizando ali parte de sua intensa programação musical. Orquestra e teatro são exemplos de instituições distintas que somam esforços na trajetória de promover cultura, inserção, educação, turismo, trabalho, políticas públicas e história. São dois patrimônios de valor inestimável com o mesmo objetivo. A parceria Sinfônica-Pedro II é um exemplo de soma e estratégia. Por isso, nossos parabéns e nosso desejo de força, energia e longevidade para o Pedro II.”
Sílvio Contart, presidente da Associação Musical, mantenedora da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto