Professor defende mídia impressa como resistência em tempos de efemeridade digital”
Almeida lembra que a curadoria dos assuntos, o cuidado, revisão e a checagem são muito maiores nos veículos impressos

Professor defende mídia impressa como resistência em tempos de efemeridade digital”

Para o filósofo e professor universitário na Unaerp João Flávio de Almeida, formar novos públicos para o jornalismo impresso “sério” é um gesto político contra a banalidade do ambiente digital

Mineiro de São Sebastião do Paraíso, o hoje professor universitário João Flávio de Almeida, 43 anos, aportou em Ribeirão Preto em 2007, após passar por Campinas e Franca, para concluir graduação em Publicidade e Propaganda. Veio para Ribeirão Preto (Unaerp) e “fez a vida” aqui, casando-se e construindo carreira na cidade.

 

E que carreira! Depois da Publicidade, fez faculdade de Filosofia; mestrado e doutorado sobre “Filosofia da Linguagem e Análise do Discurso”, na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos); pós-Doc sobre “Discurso Imagético”, na USP Ribeirão; e atualmente toca um segundo doutorado em Cinema, na Unicamp, estudando o cineasta húngaro Béla Tarr.

 

Professor na Unaerp desde 2015, ele primeiro deu aula de Design Gráfico nos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Depois, foi migrando para disciplinas mais teóricas e, por um tempo, assumiu as cadeiras de Filosofia da instituição. Em 2022, assumiu a coordenação do curso de Publicidade e Propaganda e, em 2024, a de Comunicação Integrada – inclui marketing, comunicação institucional e comunicação interna.

 

Todo o seu conhecimento teórico e prático sobre comunicação e suas filosofias rendeu esta entrevista sobre a importância das mídias e do jornalismo impressos, que, dizem as “boas línguas”, estão sendo resgatados por muitos que já haviam migrado para o consumo de informações por vias digitais. Acompanhe:

 

Quais foram os primeiros veículos de informação que você consumiu na vida?

 

Na minha primeira infância, em São Sebastião do Paraíso, Sul de Minas Gerais, em meados dos anos 1980, só tínhamos a televisão. Não chegava para nós, uma família de classe social mais baixa, jornal impresso e revista – só muito esporadicamente. Sempre fui apaixonado por livros e, conforme foi chegando a adolescência, eu ia para a biblioteca e ficava lá a tarde inteira, parecendo o Sheldon Cooper [personagem das séries “The Big Bang Theory” e “Young Sheldon”]. Tenho que admitir que, na primeira juventude, eu não era um consumidor muito interessado de informação. Chegando em 2007, comecei a me informar mais.

 

E atualmente?

 

Sou um consumidor voraz de informação. Pela facilidade, o meio digital é o espaço por onde eu mais consumo informação – seria hipócrita se não assumisse isso –, mas também sou consumidor de revistas, jornais impressos e de livros, sobretudo. Tenho um apreço muito grande por revistas. A mídia digital tem uma peculiaridade assombrosa que é ser renderizada, efetivada e materializada em tempo real, por um processador que está dando forma e matéria para aquela informação. Quando a gente aperta o botão de fechar a tela ou “desligar”, o processador interrompe o sinal e a informação se esvai. Esse caráter estrutural da informação digital condiciona a forma como ela é consumida: efêmera, volátil, mas também interativa, sinérgica e outras coisas que podemos elogiar, mas tem aspectos muito importantes que ela deixa de fora.

 

Você diria, então, que prefere consumir informação de mídias impressas?

 

Para mim, um argumento convincente [a favor das mídias impressas] é o cuidado na elaboração, as etapas todas. É muito trabalho! Por ser algo que uma vez impresso não tem como corrigir, a curadoria dos assuntos, o cuidado, o trabalho de revisão e a checagem são muito maiores. Em um de seus livros, Jaron Lanier, autor estadunidense que é um dos fundadores das IAs [Inteligências Artificiais] e outras ferramentas, aborda uma questão interessante: as redes sociais, ao nascerem totalmente de graça, precisavam de propaganda para se bancarem. Então, desde o início os algoritmos lá dentro foram elaborados para que essa propaganda chegasse de forma mais eficaz e efetiva ao consumidor, ajudando a vender melhor. O anúncio e o anunciante são os protagonistas da plataforma e nós somos o produto. Nós que somos vendidos. O maior ativo desse modelo de negócio é o nosso olhar, nossa atenção, com tudo o que isso significa. Então, se essa plataforma passa a ser por onde as informações de política, cultura, entre outras, são circuladas, toda a curadoria que acontece ali dentro é regulada por um princípio de venda, e não de troca e diálogos humanos.

 

Como acha que isso está afetando o jornalismo como um todo?

 

Tem um caso assustador em Myanmar, relatado no livro “Nexus”, do Yuval Noah Harari: o Facebook, em Myanmar [país asiático], fez um piloto de remuneração para os veículos de comunicação que postassem lá suas informações. A remuneração é por visualizações e engajamento. E como fala Shoshana Zubof, no livro “Capitalismo de Vigilância”, o tipo de engajamento que o Facebook mais premia são os de raiva e ódio. Então os veículos lentamente começaram a perceber que matérias que suscitavam ódio eram melhor remuneradas. Passados cinco anos, uma minoria de uma religião específica passou por um genocídio promovido pela maioria. Durante séculos eles haviam convivido no mesmo espaço, de forma tensa, é verdade, mas sem se matarem. Em cinco anos de Facebook, houve uma grande guinada de ódio. E para que o discurso de ódio funcione, é preciso deslegitimar quem faz jornalismo sério. Precisa dobrar a aposta no espetáculo, no absurdo. O algoritmo premia quem promove desinformação. Longe de mim dizer que as mídias tradicionais nunca erraram. Evidentemente erram. Particularmente, até acho que boa parte da descredibilização das mídias tradicionais se deve à ausência de autocrítica. Por exemplo: não dá para negar que durante a Ditadura tivemos veículos censurados e outros que foram coniventes. Em minha humilde opinião, o jornalismo também tinha que parar de falar essa bobagem de que é neutro, porque não existe isso. Toda linguagem é ideológica e política. Toda produção de informação, toda palavra que a gente usa, a qualquer momento, é uma escolha política.

 

Qual sua opinião sobre a crença/temor que se alimentou durante muito tempo de que as redes sociais e o jornalismo virtual seriam a morte do impresso?

 

Vejo de outra forma, mas não sei se é a forma que se espera. Existem dois problemas: um de mídia (impresso x digital), outro de credibilidade do jornalismo como um todo. Mas sinto que existe ao lado, de forma muito intensa, um ataque, um assédio, uma crise na credibilidade da ideia de jornalismo. Percebo um ataque muito contundente, um movimento de descredibilização do jornalismo sério, porque, com isso, fica mais fácil vender a ideia que se quiser sem apuração e curadoria sérias. Muitas pessoas compram ideias delirantes e, se eventualmente um veículo disser o contrário, o chamo de perseguidor político. Então, separo a crise de credibilidade do jornalismo do problema midiático. Se tivéssemos um campo jornalístico sólido, com o respeito que tinha na época pré-ataques, teríamos também um jornalismo impresso mais saudável no Brasil.

 

Ouvimos muita gente, principalmente mais velha, dizer que sente falta da mídia física, de pegar e sentir o cheiro do papel. O que há de tão mágico nessa relação física com o impresso?

 

Há muitas perspectivas para responder essa pergunta. Vou usar a que mais gosto, que é ada fenomenologia. O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty e o Martin Heidegger falam que toda vez que a gente está em uma experiência, cria uma realidade. É como se literalmente a gente dissesse que não existem realidades prontas no mundo. Olhando só para a materialidade, para a mídia, a forma como o livro engendra uma realidade é diferente da forma como a televisão ou uma tela de celular o fazem. A realidade do livro é muito poderosa porque ela é demorada e feita para ser. Ao se mergulhar naquela atenção, ela é muito mais total. Não há distrações, não tem uma luzinha piscando ao lado, não tem outra tela reclamando atenção.

 

"O livro e o jornalismo impressos são importantes porque o ‘acidente inerente’ do digital está amputando uma das coisas mais importantes da humanidade, que é a experiência"

 

Mas ler e-books não equivale à mesma experiência?

 

Curiosamente, dados bem recentes, de 2025, mostram que, enquanto a indústria do livro impresso tem se recuperado – lentamente, é verdade –, os e-books não prosperaram. A grande questão, pelo prisma da fenomenologia, é que o livro impresso acaba sendo mais multissensorial: a ideia do toque, do folhear, do cheirar, do ver de perto e de longe. Apenas olhar para a garrafa de refrigerante é diferente de cheirar e beber. Quanto mais multissensorial a experiência, maior é o nível de imersão. O livro, a revista, o jornal impresso são feitos para serem manuseados. Tenho um carinho grande pela memória de sujar a ponta dos dedos em um jornal impresso. Aquilo engendra uma realidade mais complexa. Não dá para manusear e ler o jornal impresso andando em um corredor. Tem que parar para fazer aquilo. É um ritual. O pedagogo e filósofo espanhol Jorge Larrosa Bondía tem todo um estudo sobre a ideia de experiência. Ele fala que se vendeu a ideia de que “a experiência é o que eu sei”, mas ele fala que experiência “é o que se passa conosco”. Olha como muda! Experiência é tempo de imersão e mergulho em alguma coisa. O legal do livro, da revista, do jornal impresso é que a informação que está ali dentro é importante, mas um apêndice. O ritual é o centro dessa questão. O momento em que vou desacelerar, passar um café... esses rituais de lentidão nos proporcionam identidade.

 

Desse ponto de vista, então, é importante formar novos públicos para a mídia e o jornalismo impressos?

 

Quero falar da importância dessa formação: é um movimento de resistência, um gesto político! Não quero soar um reacionário conservador em relação às tecnologias, até porque sou um hard user e elas foram tema de estudos meus estudos de mestrado, doutorado e dós-doutorado. Mas, desde que o ser humano começou a usar ferramentas, como fala Marshall McLuhan [educador canadense], toda tecnologia passou a funcionar como uma expansão, mas também como uma amputação de alguma potência nossa. Por exemplo: começo a usar escadas para subir em uma árvore e chego mais rápido à copa, mas, ao mesmo tempo, me torno um escalador pior. Outro autor maravilhoso, o francês Paul Virilio, fala que toda tecnologia carrega um acidente inerente. Para se efetivar, ela cria e destrói; traz benefícios e malefícios. E ele usa milhões de exemplos, como o carro, que nos leva mais rápido aonde queremos ir, mas tem um acidente inerente, que é o petróleo e o gás carbônico jogados na atmosfera [poluição]. Quando crio um livro, consigo fazer com que essa informação circule por muito mais espaços e por muito mais tempo, mas, como acidente inerente, amputo minha memória. O livro e o jornalismo impressos são importantes e são resistência porque o acidente inerente do digital está amputando uma das coisas mais importantes da humanidade, que é a experiência. Para mim, não é só uma amputação da memória: estamos claramente emburrecendo, não sabendo mais chegar daqui até ali sem usar o waze, não sabendo mais fazer cálculo nenhum sem calculadora. Com os ChatGPT da vida, nem aprendo mais a escrever um texto. O grande acidente inerente, a amputação, é o descarte da experiência da escrita, da leitura, dos rituais que criam identidade e pertencimento. Os efeitos inerentes disso tudo vemos numa geração de jovens ansiosos, depressivos, com TDAH [Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade].

 

É possível algum equilíbrio?

 

Impresso e digital têm suas virtudes e seus defeitos inerentes. A primeira questão é o motivo: é preciso formar leitores que respeitem a experiência e o tempo da leitura. Acho que a resistência melhor disso está na mídia impressa. A outra questão é “como fazer isso”. O grande “tiro no pé” é o jornalismo impresso incorporar a linguagem do digital. Tem que ir resistindo, tem que se colocar, se mostrar, levar essa discussão para mais espaços, tem que fazer autocrítica.

 


Fotos: Guilherme Fuzaro

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