Professor Lages analisa a memória coletiva de Ribeirão Preto e defende uma história mais inclusiva e crítica

Professor Lages analisa a memória coletiva de Ribeirão Preto e defende uma história mais inclusiva e crítica

Lages debate os desafios da preservação do patrimônio e o risco de se contar apenas a “versão vencedora” da história local

Professor, pesquisador e escritor, José Antônio Correa Lages é uma das principais referências quando o assunto é a história de Ribeirão Preto. Doutor em Educação e autor de livros e artigos sobre a formação social e cultural da cidade, ele dedica décadas à pesquisa de temas como memória, identidade, patrimônio e cidadania.

 

Nesta entrevista, Lages reflete sobre o sentimento de pertencimento dos moradores, alerta para o risco de se cultuar apenas uma versão “gloriosa” do passado e defende a valorização de espaços e histórias periféricas como forma de construir uma identidade mais inclusiva. Ele também critica o abandono de instituições culturais e reforça o papel da educação patrimonial como caminho para formar uma geração mais consciente e conectada com suas raízes.

 

O senhor dedicou boa parte da sua produção intelectual à história ribeirão-pretana. Como avalia a relação entre os moradores da cidade e seu passado? Consegue enxergar um sentimento de pertencimento histórico?

 

O sentimento de pertencimento histórico desempenha um papel fundamental na formação da identidade, influenciando diretamente a maneira como nos vemos e como nos relacionamos com os outros e com o mundo. Podemos dizer que é a percepção de fazer parte de um grupo social ou de uma cultura. É o ponto de partida para a construção da própria cidadania. Aqui em Ribeirão Preto ainda estamos nesta caminhada difícil.

 

Sabemos que não é um fato dado, é um processo, mas, sinceramente, vejo muitos obstáculos à medida, por exemplo, em que a educação escolar colabora muito pouco nesta construção. A História de Ribeirão e a Educação Patrimonial deveriam ser levadas mais a sério. Podemos estar comprometendo gerações inteiras com rupturas geracionais que não permitem o que há de bom de uma geração ser passado para a seguinte. Para superarmos essa triste realidade, dependemos, inclusive, de políticas públicas que ainda não existem.

 

Ao longo do tempo, alguns grupos em Ribeirão Preto preferiram valorizar a imagem da “capital do café” como símbolo de progresso, deixando de lado capítulos mais complexos da história, como o uso de mão de obra escravizada ou os conflitos fundiários. Mais tarde, a cidade virou a "terra dos canaviais", mas novamente ignorou as duras condições enfrentadas pelos "boias-frias". Qual o risco de uma cidade que cultua apenas sua versão “gloriosa” e não abre brechas para uma história mais dialética e crítica?

 

Cultuar uma versão “gloriosa” de um povo sempre fez parte da história oficial, da história dos vencedores. Por outro lado, essa mesma versão insiste em apagar e descredibilizar, ontem e hoje, a história daqueles que ficaram à margem dos jogos de poder. Em Ribeirão Preto, essa realidade é escancarada, já até perdeu a vergonha de se apresentar em público. Ribeirão nasceu sob o signo da luta pela terra. São os documentos históricos que nos mostram.

 

Durante muito tempo, acreditou-se que não houve mão de obra escravizada nos primeiros cafezais que por aqui surgiram. Até há pouco tempo, ainda tínhamos os cortadores de cana sujeitos a uma condição desumana de trabalho, no contexto de um projeto de desenvolvimento sabidamente desastroso, inclusive do ponto de vista ambiental ainda em nossos dias. Nossa cidade corre o risco de se estagnar e perder a oportunidade de aprendizado e crescimento. Ao ignorarmos aspectos críticos e dialéticos do seu passado, mas também do seu presente, a cidade corre o risco de repetir erros, limitar a sua capacidade de inovação e prejudicar a construção de uma identidade cultural saudável, inclusiva e solidária. E aí não tem tiktoker que consiga camuflar o desastre.

 

A preservação do patrimônio cultural tem sido um desafio em muitas cidades brasileiras. Em Ribeirão Preto, o que está em risco e o que já se perdeu de forma irreversível?

 

Sem dúvida, muita coisa do nosso patrimônio cultural já se perdeu de forma irreversível ou quase irreversível, pois sempre existe uma brecha representada pela pesquisa que pode nos revelar capítulos inteiros de uma história até então desconhecida ou mal explicada. Além das edificações representativas de uma época, quase sempre expressando o poder das elites econômicas e políticas, quero ressaltar aqui o patrimônio histórico e cultural imaterial ou simbólico representado pelas tradições, usos e costumes que vão se perdendo sem deixar vestígio. Esse, então, está numa situação até pior porque invisível.

 

Onde está o patrimônio cultural dos escravizados e dos carcamanos, como eram chamados pejorativamente os imigrantes, que construíram a riqueza do café? Quase não existe porque, antes de tudo, sua memória foi propositalmente apagada. Não vem ao caso tomarmos partido diante, muitas vezes, do dilema do que preservar. Não podemos apagar a memória de nenhum dos lados para que possamos ter consciência das relações de poder que nos precederam e que desejamos ver superadas.

 

A Catedral Metropolitana de São Sebastião está passando por um processo de arrecadação de fundos para sua restauração. Qual o valor simbólico e histórico desse templo para a cidade? Quais outros pontos de interesse histórico mereciam uma atenção semelhante?

 

Em muito boa hora estamos observando um movimento vigoroso em defesa da nossa Catedral. Digo “nossa” porque a Catedral não é apenas um patrimônio cultural religioso. Ela é um patrimônio da nossa cidade, de todo o nosso povo. A sua restauração é necessária e urgente. O seu valor simbólico vai muito além da sua edificação. Ele nos remete ao fato histórico de que o núcleo humano originário da nossa cidade se fez em torno de um lugar de culto no que é hoje a Praça XV com o mesmo orago. E até São Sebastião entrou na luta pela terra de que falamos na segunda questão. Ele serviu de escudo para os sem-terra da época que desejavam ver aqui edificada uma cidade.

 

Chega a ser engraçado. No meio do imbróglio, São Sebastião chegou a ser indiciado pela Justiça para o pagamento da ciza, que era o imposto cobrado pelo Estado sobre a propriedade da terra. Então, as origens da cidade se confundem com este sentimento espiritual que deu origem à catedral. Outros pontos de interesse histórico merecem uma atenção semelhante da sociedade e do poder público. Ressalto aqui aqueles periféricos, do além-rios, muitos dos quais ainda resistem principalmente no Ipiranga, Campos Elíseos e Vila Tibério. São lugares de memória dos subalternos, muitas vezes moradias simples cheias de lembrança e afeto. Dentre vários, destaco aqui a Estação do Barracão, o Lar Santana e o Solar Villa-Lobos. É urgente uma solução definitiva para estes exemplares do nosso patrimônio cultural. 

 

Ao revisitar a história local com tanto cuidado e profundidade, o que o senhor aprendeu sobre Ribeirão Preto que mais enche o senhor de orgulho ou esperança para o futuro?

 

Muito me chamam a atenção a resiliência e a perseverança da nossa gente na sua luta diária pela sobrevivência. Se hoje Ribeirão Preto é uma grande, rica e próspera cidade, nunca podemos esquecer que essa prosperidade foi construída por várias mãos, desde as dos escravizados até dos que vieram de Minas e dos imigrantes dos quatro cantos do mundo. Se ainda persistem a desigualdade e muitas injustiças, sabemos que temos inteligência e força para superá-las. Por tudo isso, como ribeiraopretano por adoção, sinto orgulho da sua história de superações e muita esperança de que o futuro ainda será marcado por mais diálogo, mais compreensão e aceitação das diferenças, mais solidariedade, numa relação de alteridade que faz a todos crescerem e se tornarem cada vez mais humanos.


Foto: Divulgação

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