Quando a escuta vira cena

Quando a escuta vira cena

Produção gravada no Theatro Pedro II, com protagonismo de jovens com deficiência, conquista o Prêmio do Público Internacional em festival e reforça o poder da arte como ferramenta de inclusão

O curta-metragem “Tão Eu”, gravado no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto, ultrapassou fronteiras ao conquistar o Prêmio do Público Internacional – Most Online Votes no Focus on Ability Film Festival, realizado anualmente na Austrália. Voltado à valorização das habilidades de pessoas com deficiência, o evento reuniu produções de diversos países e consagrou a obra brasileira por meio de votação online.

 

Idealizado a partir do Projeto FADA – Família, Amigos e Diversidade, o filme nasce de um processo de escuta e construção coletiva. A idealizadora Sheyla Dutra conta que o contato com o festival surgiu há cerca de oito anos, a partir do acompanhamento constante de editais, notícias e oportunidades internacionais.

 

“Vi esse festival, me encantei com a proposta e resolvi arriscar. Já é nossa quinta participação, mas a primeira com premiação”, afirma. 

 

Desta vez, segundo ela, a produção reuniu profissionais experientes que atuaram de forma voluntária.

 

A escolha do Theatro Pedro II como locação foi natural. Além da beleza arquitetônica e da acessibilidade, o espaço conta com uma gestão aberta a projetos culturais. “O roteiro foi inspirado na cena do balcão de ‘Romeu e Julieta’, então não poderia haver lugar melhor na cidade”, resume.

 

No elenco, apenas um ator é profissional. Os outros três jovens são iniciantes e possuem algum tipo de deficiência, o que dialoga diretamente com a proposta do festival, focada nas habilidades dessas pessoas. Para Sheyla, o processo provocou uma inversão de expectativas. “A experiência mudou a visão dos profissionais envolvidos e trouxe uma nova vivência para esses jovens, historicamente desacreditados pela sociedade e, muitas vezes, até por suas próprias famílias.”

 

A construção do filme partiu de rodas de conversa e de uma escuta atenta dos sentimentos e pensamentos dos intérpretes, que foram registrados e incorporados à narrativa. “Tivemos a oportunidade de ouvi-los e registrar suas vozes, usadas no curta. A direção fluiu a partir dessa espontaneidade”, conclui.

 

RECONHECIMENTO 

 

Para Sheyla, o prêmio vai além do cinema. “Esse reconhecimento não apenas carimba o passaporte desses jovens para a vida artística, como traz a visibilidade necessária para a quebra de paradigmas e a eliminação do capacitismo”, afirma. 

 

O impacto já começa a se concretizar. Uma das jovens participantes recebeu proposta de trabalho após uma empresária assistir ao curta e participar de uma roda de conversa promovida pelo projeto.

 

Ainda recente, a conquista abre caminho para novas inscrições em festivais e para a produção de um novo curta voltado ao Focus on Ability ainda este ano. Mais do que um filme, “Tão Eu” se afirma como um convite à mudança de olhar. “Não pré-julguem sem conhecer, não excluam sem dar ao menos uma oportunidade”, reforça Sheyla. Para Ribeirão Preto, o prêmio também simboliza crescimento coletivo. “A cidade cresce, as pessoas crescem, além do orgulho de estar internacionalmente representada.”

 

ROMEU E JULIETA COMO LINGUAGEM UNIVERSAL

 

O roteiro é assinado por André Cruz, que explica que a escolha de “Romeu e Julieta” teve uma motivação estratégica. “Sendo um festival em língua inglesa, me pareceu uma boa escolha para criar conexão com os jurados. É uma história que todo mundo conhece.”

 

Apesar disso, o clássico funciona apenas como pano de fundo. “As únicas falas ‘falsas’ são os diálogos de Shakespeare. Todo o resto, que é o que importa, são os pensamentos deles”, destaca o roteirista.

 

Para transformar os relatos reais em narrativa cinematográfica, André optou por não falar pelos atores. “O desafio foi criar situações em que eles pudessem falar em cena tudo o que haviam nos contado antes. Para fugir de estereótipos, o mais importante é deixá-los falar por eles mesmos.”

 

DIREÇÃO COM VERDADE

 

Na direção, Alexandre Ocdy conta que a principal preocupação surgiu antes mesmo das filmagens. “Eu queria mostrar algo que normalmente não se vê. Por trás de uma deficiência existe um ser humano inteiro, cheio de emoções, dores, desejos e conflitos”, explica.

 

Segundo ele, a intenção nunca foi falar sobre os jovens, mas permitir que o público entrasse em seu universo interno. “Queria levar o espectador para dentro dos pensamentos deles, não explicar quem eles são”, destaca.

 

O trabalho começou pela escuta das entrevistas realizadas com o elenco. “Nada podia ser imposto. Tudo precisava nascer do que eles já tinham dito”, afirma. Ao dirigir atores típicos e atípicos juntos, Ocdy optou por não enquadrar os jovens em padrões tradicionais de interpretação. “Manter os ritmos da fala, as pausas e até certas dificuldades trazia beleza à cena”, diz.

 

Para o diretor, a conexão com o público veio da empatia. “O cinema nos convida a enxergar além. Em ‘Tão Eu’, tentamos aproximar o espectador desses jovens. Quando isso acontece, a admiração vem naturalmente”, conclui.

 

A TRILHA QUE SABE FALAR E “SILENCIAR” 

 

A trilha sonora do curta é assinada por Mauro Chantal – doutor em Música pela Unicamp e professor da UFMG –, que buscou compreender o ritmo interno do filme antes de definir as escolhas musicais. “Meu foco foi permitir que a música atuasse como uma camada de escuta, acompanhando gestos, pausas e a atmosfera das cenas”, explica.

 

Para o músico, o silêncio também tem papel central. “Silêncio também é música. Em muitos momentos, a trilha surge apenas como sugestão, criando espaço para que a emoção se manifeste sem ser conduzida”, afirma.

 

Segundo Mauro, o principal desafio foi manter a delicadeza. “Narrativas humanas pedem contenção e atenção ao detalhe. Confiar no tempo das cenas e não sublinhar emoções foi essencial”, destaca. Para ele, a premiação internacional reforça o valor das produções independentes. “São espaços de escuta e sensibilidade, onde a trilha pode assumir um papel expressivo fundamental”, finaliza. 

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