Ribeirãopretanos contam como é a produção de quadrinhos na cidade
Quadrinistas da cidade compartilham histórias, dificuldades e inspirações
Das várias expressões artísticas que encontramos em Ribeirão Preto, as histórias em quadrinhos são uma das que mais vêm ganhando espaço nos últimos anos. Artistas com diferentes traços e estilos criam, na cidade, histórias que são lidas por todo o Brasil e também pelo mundo.
Não é de hoje que se fala que as histórias em quadrinhos não são mais coisa só de criança. Mas, afinal, quando foram? Assim como em outras mídias, sejam filmes, livros e séries, sempre existiram quadrinhos infantis e quadrinhos adultos.E, além disso, os quadrinhos, desde o início do século, são uma indústria que movimenta bilhões ao redor do mundo e emprega milhares de pessoas. Por meio destas histórias é possível observar um recorte de uma determinada época, cultura ou país.
Um destes exemplos é o papagaio Zé Carioca, lançado pela Walt Disney em 1942 como um produto da política de boa vizinhança com os países latinos, principalmente, o Brasil. Por aqui, as histórias da Disney eram lançadas pela Editora Abril. Até hoje, uma das pessoas que mais escreveram histórias do papagaio carioca foi Gerson Luiz Teixeira, que vive em Ribeirão Preto há 26 anos.
Atualmente ele trabalha em outro gigante do ramo, os Estúdios Mauricio de Sousa. Mas, para chegar neste patamar, Teixeira teve de ouvir muitos “nãos” na carreira. Aos 15 anos, o roteirista levou seus primeiros desenhos para a Editora Abril. Na época, ele foi recusado por falta de experiência. Três anos mais tarde, depois de muito estudo, ele voltou a bater na porta da Editora, e conseguiu o emprego de trainee de arte. “Eu era assistente do assistente. Era eu quem colocava o logo da Walt Disney no topo das revistas”, comenta.
Algum tempo depois, a Abril lançou a revista “Pancada”, uma versão brasileira da estrangeira humorística “Mad”. Teixeira resolveu enviar alguns desenhos para a nova publicação. "O chefe na época viu aquele material e gostou. Mas ele não gostou do desenho, apenas das piadas, e pediu para que eu escrevesse mais. Começou ali a minha carreira de roteirista", relembra Teixeira.
Durante duas décadas, o roteirista escreveu histórias para as revistas do Zé Carioca, Peninha, Trapalhões, Luluzinha, Seninha e muitos outros. Segundo o site Inducks, um dos maiores bancos de dados mundiais sobre quadrinhos da Disney, Gerson Luiz Teixeira escreveu mais de 500 histórias, que foram traduzidas para 21 países.
Após sair dos estúdios da Abril, já consagrado, Teixeira acreditou que seria fácil conseguir um novo emprego. Foi quando ele tentou enviar suas histórias para Mauricio de Sousa. "Fiz seis histórias que foram negadas. Me enviaram uma carta padrão dizendo que eu não estava dentro dos rigorosos padrões de qualidade da Maurício de Sousa Produções", lembra.
Anos mais tarde, fazendo um trabalho publicitário, conheci uma pessoa que trabalhava com Mauricio. Ele me pediu para que eu fizesse novos desenhos que enviaria diretamente para o chefe. Não somente minhas novas histórias foram aprovadas pelo próprio Maurício, como as antigas que eu havia enviado anos antes", conta o quadrinista. Atualmente, Teixeira faz os desenhos da Turma da Mônica de Ribeirão Preto, envia para aprovação em São Paulo, que retornam para cá para serem impressos na Gráfica São Francisco.

Super-heroínas
Teixeira faz parte da “velha guarda” dos quadrinhos e tem seu foco voltado para às histórias infantis. Porém, existem muitos outros quadrinistas em Ribeirão Preto. Um exemplo é a jovem Karen Fagundes de Carvalho, a Karen Fagu. Formada em Música pela Unaerp, Karen começou a produzir quadrinhos há cinco anos, após participar de uma oficina na Virada Cultura de Ribeirão Preto. O talento da moça é tanto, que o seu trabalho de conclusão de curso (TCC), na Faculdade de Música, foi uma história em quadrinhos baseada na vida da compositora Chiquinha Gonzaga.
Com um traço delicado, Karen desenha em várias frentes para se manter ativa no mercado. Publica tirinhas, faz freelances e caricaturas. A vida do quadrinista independente é de altos
e baixos, muito esforço e tentativas frustradas. Apesar disso, Karen enxerga com otimismo a cena de Ribeirão Preto. “O cenário Ribeirão é muito farto e competente, até mais do que a gente imagina. Felizmente, o pessoal que faz quadrinhos aqui é muito unido, amigável e talentoso. Também aposto que tem muita gente boa fazendo quadrinho em algum canto de Ribeirão que a gente nem conhece”, comenta.
Contudo, o cenário dos produtores de quadrinhos ainda é majoritariamente masculino. Segundo Karen, apesar de a participação das mulheres nos quadrinhos ser pequena se comparada com a dos homens, elas vêm ganhado uma presença extremamente notável. “A partir da disponibilização do cenário independente por meio das redes sociais, tornamos o trabalho muito mais acessível. As mulheres estão provando que não deixam nada a desejar comparadas a um quadrinho feito por homens e também estão colocando em questão a hipersexualização das mulheres nos quadrinhos e como isso gera consequências na sociedade”, frisa Karen.
A hipersexualização é uma discussão recorrente entre os amantes dos quadrinhos. De modo geral, ela acontece quando os personagens masculinos são desenhados em poses poderosas, extremamente musculosos, enquanto as mulheres são retratadas em posições desnecessariamente sexualizadas, com roupas curtas e justas. Isso acontece para realçar a posição de dominância e poder dos personagens masculinos, enquanto, escancara um caráter machista ao olhar para as personagens femininas. Um dos motivos para esta hiperssexualização aconteceu, justamente, pela ausência de mulheres desenhando e roteirizando e a aparente ausência de mulheres leitoras. Mas este é um cenário que vêm mudando ao longo dos anos.
De RP para EUA
Vida de quadrinista não é fácil. No geral, quem produz quadrinhos de forma independente tem que trabalhar como freelancer. Fazendo um trabalho aqui e outro ali, o artista vai aumentando seu portfólio e tentando tirar alguma grana. Foi assim que o ribeirãopretano Carlos Reno começou neste ramo. Atualmente professor de desenho, Reno já teve que bater de porta em porta para ter seus trabalhos publicados.
Buscando sempre uma brecha para mostrar sua arte, Reno já fez de tudo. “Comecei a trabalhar profissionalmente com desenhos em meados dos anos 90, a princípio com ilustrações publicitárias, manuais de prevenção de acidentes e qualquer coisa que fosse preciso um 'rabisco'. Porém, meu maior objetivo sempre foi trabalhar com histórias em quadrinhos”, relembra
Com um traço mais firme, realista e com um estilo próximo do que era veiculado pelas editoras norte-americanas, um dos primeiros trabalhos de Reno foi publicado, justamente, por uma editora dos Estados Unidos. “Graças à internet entrei em contato com estúdios de ilustração que agenciavam trabalhos de desenhistas brasileiros para outros países. E, depois de vários testes, fiz meu primeiro trabalho para uma editora independente americana chamada Big Dog Ink, em uma HQ que envolvia super-heróis e baseball”, conta o artista. Atualmente, além das aulas, Reno publica seus trabalhos em revistas dos Estados Unidos e Europa.

Não esqueçamos dos mangás!
Os tradicionais quadrinhos japoneses não podiam ficar de fora. Com um traço característico, os mangás deram origem a diversos animes – desenhos animados japoneses -, filmes, séries e até adaptações ocidentais.
Aos moldes dos famosos tokusatsus – séries de super heróis japoneses como Jaspion, Ultraman e Kamen Raider, por exemplo –, a história do herói começou a ser pensada em 1999, nas páginas das histórias em quadrinhos amadoras, os fanzines. O ano da criação do Insector Sun não foi por acaso. Em 10 de maio de 1999, era extinta a TV Manchete. A emissora ficou conhecida por introduzir os seriados e animações japonesas na cultura brasileira. Foi quando Christian Silva, ou melhor Kri Lee, o Insector Sun, deu o ar da graça.
“Viemos no vácuo da TV Manchete, com a falta de tokusatsus, e decidimos criar nossas próprias histórias. De forma bem amadora, só para nos divertir”, conta Christiano Silva, criador do Insector Sun. Porém, Silva foi além das páginas dos fanzines e transformou o seu herói em uma série da internet. Atualmente, a web série é considerada por muitos como o primeiro tokusatsu brasileiro. A história completa do Insector Sun já foi contada pelo Portal Revide.
Sob supervisão de Marina Aranha.
Fotos: Ibraim Leão