A serviço da música
Rubens Russomanno Ricciardi poderia ser só mais um acadêmico na área, mas seu trabalho – incessante, perfeccionista, crítico, apaixonado – atestam sua dedicação à música e seu poder de formação
"Sempre fui um provinciano convicto: nascido, criado e, após anos fora da cidade e do país, novamente residente em Ribeirão Preto. Para alguns, a atmosfera rural do interior é um trampolim para as grandes capitais. Para mim, ao contrário, viver e trabalhar em um pequeno centro sempre foi um sonho existencial.
Quando criança, não havia muitas opções de escolas de artes por aqui. Meu letramento musical se deu em família, com minha tia Clara Pacagnella – meu avô Edmundo Russomanno, compositor e maestro, falecera antes de meu nascimento, há 62 anos.
Estudei na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, em São Paulo, e na Universidade Humboldt em Berlim Oriental. Tive grandes mestres: Olivier Toni, Gilberto Mendes, Stephen Hartke, Günter Mayer e Régis Duprat.
Atuei na Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) e na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Tornei-me professor da USP – primeiro em São Paulo e, finalmente, em Ribeirão Preto. Quis fundar uma escola pública de música para crianças na nossa cidade, mas nenhum prefeito se interessou pelo projeto. Ainda assim, consegui implantar o Departamento de Música na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP), sempre com o apoio do funcionário Waldyr Fervença. Hoje, temos Centro de Memória das Artes, NAP-CIPEM (Núcleo de Pesquisa) e Revista da Tulha, além de corpos estáveis: Ensemble Mentemanuque, Banda Mogiana, Fratres Cello Ensemble, Coral da Filô, Grupuri, Duo Corvisier e a USP Filarmônica, da qual sou maestro.
Com sua série “Concertos USP”, em Ribeirão Preto (Theatro Pedro II) e São Carlos, a USP Filarmônica tem se apresentado na Sala São Paulo e em diversas cidades paulistas e mineiras, cumprindo as atividades-fim da universidade pública com estudantes de graduação e professores: um trabalho de extensão ancorado no ensino e na pesquisa. Contamos também com Gustavo Costa na consolidação do nosso curso pioneiro em Viola Brasileira (Caipira).
Para compensar a lacuna de formação infantil, idealizei o projeto USP Música Criança. Por meio de parcerias público-privadas, em uma ação conjunta com Marcos Santos e Marcela Moreira, buscamos viabilizar a iniciação musical de centenas de jovens na região.
“Cantada” (1984), “Viva Gramsci” (1986), “Candelárias” (1994), “Alegoria de Hiroxima” (2007) – dedicada à Yuka de Almeida Prado – e, mais recentemente, o ciclo de canções da “Viola de Lereno” (2023) são obras que constam no meu catálogo de compositor.
Tenho trabalhado também com a reconstrução da memória brasileira, com pesquisa, edição e apresentação em concertos de obras de Manuel Dias, Emerico, José Maurício, João de Deus e Henrique Alves de Mesquita, entre outros.
Pela USP pudemos desenvolver a Poíesis Crítica, uma nova epistemologia para a pesquisa em artes, com a publicação de livros como “As Solfas de Mogi das Cruzes” (2022), “Contra o identitarismo neoliberal” (2023) e o primeiro volume da “História da Música em Ribeirão Preto” (2025). Também por conta da Poíesis Crítica desenvolvemos trabalhos conjuntos com Lucas Galon, Paulo Veiga, Odair de Paula, André Micheletti, Cris Emboaba e Julião de Camargo, entre outros.
Recentemente, inauguramos nossa primeira turma do Mestrado Profissional em Música pela USP de Ribeirão Preto, o primeiro do gênero no Estado de São Paulo. A pós-graduação – com estudantes já inseridos no mundo do trabalho – é um apoio essencial à graduação e à produção do conhecimento.
Continuo também credenciado no Programa de Pós-Graduação pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (capital), orientando mestrandos e doutorandos nas artes e em questões filosóficas, sempre na nossa linha de pesquisa Crítica da Cultura/Poíesis Crítica.
E prosseguem meus sonhos como professor da USP e ribeirãopretano. Nossa meta, agora, é otimizar os espaços físicos da USP para o desenvolvimento da ópera e de balés com orquestra. Mais recentemente, iniciamos uma parceria com o Bispado de Ribeirão Preto e a sua paróquia mais antiga, a de São Sebastião, com a série Concertos USP na Catedral, na esperança de termos projetos mais ousados com a revitalização do Centro da cidade.
Por conta das nossas pesquisas sobre a história de Ribeirão Preto, entendo que deveríamos investir em sua reconstrução poética: as obras de arquitetura que foram destruídas, seja por catástrofes ambientais, guerras ou pela burrice humana, podem ser recuperadas com todo o seu esplendor. A Praça XV, por exemplo, já abrigou a Matriz, o Coreto, o Trianon, a Choperia e o Theatro Carlos Gomes. Se tudo isso voltasse a existir, nosso centro recuperaria um dos conjuntos urbanos mais belos do Brasil, tal como registravam, em verso e prosa, os cronistas de outras épocas.
Seria a minha melhor velhice: caminhar entre essas obras ressurgidas ao lado de Aline, de meus filhos e de meus netos."