Contra a invisibilidade

Contra a invisibilidade

Médico neurologista e pesquisador formado pela USP de Ribeirão Preto, Marcelo Bigal dedica sua trajetória ao estudo da enxaqueca e ao desenvolvimento de medicamentos

"O ano de 2001 representa um cruzamento em minha vida. Minha esposa, nossas filhas, uma de 5 anos e outra de 1, e eu nos mudamos do Brasil para os EUA. A razão? Continuar a busca pelo entendimento e tratamento das doenças esquecidas, ignoradas e trivializadas. A dor crônica, as doenças mentais, aquelas doenças que não aparecem nos exames.


Todos conhecemos alguém que tem enxaqueca. Mas alguém conhece quem tem uma enxaqueca que nunca desaparece? Hora após hora, dia após dia? Provavelmente não. Uma enxaqueca que nunca remite é incompatível com emprego, muitas vezes com relações estáveis. Na verdade, é incompatível com o dia, com a luz solar. Os pacientes desaparecem. São julgados — “não espanta que não tenha amigos, está sempre na cama”; sofrem de culpa — “o que aconteceu comigo? Eu era feliz, tinha planos.” Por afetar predominantemente mulheres, essas doenças são ainda mais ignoradas.


O Brasil foi generoso comigo. Meus professores de ciências, Heliana no ensino elementar e Wander no ensino médio, abriram meus horizontes para o que ainda não havia sido descoberto e para o poder da curiosidade. A Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto ofereceu um treinamento impecável. A pós-graduação em neurologia era a única do Brasil credenciada como nível A, graças ao saudoso Dr. Amilton Barreira. Estudei com os melhores especialistas em cefaleia do Brasil, Drs. Speciali e Bordini. Humanos.


Os Estados Unidos também foram generosos comigo. Completei meu pós-doutorado, fui professor de neurologia no Albert Einstein College of Medicine, publiquei centenas de trabalhos, ganhei muitos prêmios.


Como pesquisador, comecei a enxergar a dor crônica e outras doenças, como a fadiga crônica — ou mesmo a covid longa — como doenças da desproporção. Algo aumenta o “volume” da doença. Na enxaqueca, qual seria esse algo, que aumenta o “volume” da dor e a torna diária, incessante?


Uma pequena proteína, chamada CGRP. Postulamos que, se a inibíssemos, poderíamos aliviar a enxaqueca crônica.


E veio o segundo cruzamento. De pesquisador acadêmico para desenvolvedor de medicamentos.


Mas desenvolver um medicamento é um processo de extrema dificuldade. A ciência de qualidade requer esforço. Nossa primeira tentativa falhou. Os medicamentos consistiam, como usual, em comprimidos que funcionavam em estudos clínicos, mas causavam irritação hepática. Foram cinco anos. Mas não perdidos.


Porque aí veio o terceiro cruzamento. Decidimos combater o CGRP com anticorpos, proteínas produzidas pelo nosso corpo para combater substâncias estranhas a ele, como vírus e bactérias.
Qual foi o pulo do gato? Usar engenharia de proteínas para produzir anticorpos contra o CGRP. Neutralizaríamos a proteína e abaixaríamos o volume da enxaqueca. E, como anticorpos não são metabolizados pelo fígado, evitaríamos a irritação hepática.


Após cerca de uma década, 11 estudos em seres humanos e inúmeros avanços científicos, a tese se comprovou. O anticorpo — fremanezumab — foi efetivo no tratamento de enxaquecas refratárias, persistentes. O volume da dor abaixou. O medicamento está aprovado em mais de 45 países, incluindo o Brasil, e estima-se que cerca de 2 milhões já o tenham usado.
Essa jornada também me permitiu participar do desenvolvimento de outros medicamentos, inclusive para doenças tão terríveis como Huntington ou para os movimentos involuntários e torturantes da discinesia tardia.


Mas a parte que me deu mais satisfação foi mais simples. Recebia mensagens de pacientes dos estudos clínicos — os mesmos que haviam sido excluídos de outros estudos por terem enxaqueca muito severa. Eles descreviam sua angústia. Uma me marcou. Uma jovem descrevia sua dor:


“Já passa da meia-noite. Estou sentada na sala de casa, vasculhando a internet em busca de qualquer informação nova que possa tornar minha vida melhor. Na última hora chorei em silêncio. Estou tomando mais uma nova medicação, numa tentativa de prevenir minhas crises de migrânea.”


Penso nela e gosto de imaginar que ela não é mais invisível.


Esses cruzamentos me vieram à cabeça quando recebi um prêmio de nome lindo — BALSA. Minha apresentação foi feita por um cientista que recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, Dr. Richard Roberts, por descobertas fundamentais no DNA. Na nomeação, ele cita o papel da ciência e a cruzada anticientífica que vivemos, contra as vacinas, contra cientistas, contra a própria ciência.


Não podemos cruzar rumo ao passado. A ciência trouxe clareza para a enxaqueca, para o câncer, para a imunologia, para a prevenção de doenças graves. Preservemos essa tradição.” 

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