Mania de Criar
Paulistano raiz e ribeirão-pretano de coração, Renato Castanhari Jr. descreve sua trajetória entre criações para a publicidade e para a literatura
"Sou Renato Castanhari Jr., um paulistano raiz, com data de inauguração em 21 de dezembro de 1954 na Pró-Matre Paulista. Ao mesmo tempo, minha ligação com Ribeirão Preto é também raiz. Minha mãe, Diva, nasceu aqui em 1923 e tinha como pai um personagem marcante da cidade à época, Mario Ignácio, titular de um Cartório de Protestos com direito a uma coluna no jornal com os nomes dos protestados, que era recortada juntamente com a lista de óbitos e colada na parede da Cafeteria Única, ponto de encontro, debates e fofocas da sociedade local.
Na São Paulo da garoa, eu sofria de bronquite, o que fez minha mãe me mandar para morar com a minha tia Lola, para fazer o ginásio no Vocacional de Batatais. Ia e voltava para Ribeirão todos os dias. Uma escola inovadora, semi-integral, à frente do seu tempo, com uma didática revolucionária. Minha tia morava na avenida Nove de Julho, quase em frente à [Sociedade] Recreativa, onde eu ia jogar bola com amigos de infância – entre eles o Sócrates, com quem acabei dividindo o campo de jogo no juvenil do Botafogo. Com 16 anos, em 1970, um olheiro de futebol veio falar com a famiglia para me levar para o Fluminense, morando no Rio de Janeiro. Claro, não deixaram.
Voltei para São Paulo para fazer o Colegial no Objetivo, do Di Genio, que na época dominava a área com o seu Cursinho Objetivo, na mais Paulista das avenidas. Quando me formei, o Di Genio criou as Faculdades Objetivo, que anos depois viraram Unip (Universidade Paulista). E foi no último semestre da Faculdade de Comunicação Objetivo, em 1977, que o Universo me encaminhou profissionalmente. Paralelamente ao meu último ano de Comunicação, eu estava cursando, em paralelo, a Faculdade de Economia na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado). Meu professor de Redação era redator da maior agência de Publicidade do país à época. Em junho, o Eloy Simões me convidou para fazer um estágio de férias na criação, como redator da Almap - Alcântara Machado Periscinoto Comunicações. E assim o estagiário que se formaria em dezembro e fazia segundo ano de Economia começou a criar campanhas para Volkswagen, Danone, Kibon, lançou os salgadinhos Fandangos da Elma Chips, fez a menininha Claybon falar, entre diversas outras marcas e produtos. Um estágio de férias de julho virou um emprego de sete anos e uma carreira de quase 50.
Em 1979, minha raiz de coração, Ribeirão Preto, foi palco da minha cerimônia de casamento com a namorada com quem comecei a me relacionar quando ainda cursava o Vocacional de Batatais. E assim os feriados prolongados, Natais, entre outras datas, eram passados na Capital do Café, agora com vínculos familiares ampliados.
O tempo passou, a tecnologia contaminou o mundo e eu já havia passado pela Artplan Publicidade (1984), do Roberto Medina, criador do Rock in Rio (do qual participei da montagem), como Diretor de Criação, e havia montado minha própria agência (1990). Havia chegado a hora de me reinventar. E isso aconteceu em 2011, quando eu já me encontrava morando de volta em Ribeirão, separado do segundo casamento e começando a me aventurar na literatura.
LADEIRA DA MEMÓRIA
Foi no ano de 2011 que criei meu blog de crônicas e contos, Ladeira da Memória. Também foi quando lancei meu primeiro romance, “Deus me Acuda” – e quando me apaixonei por outra forma de escrita, diferente das criações publicitárias, que ainda faço. O Ladeira nasceu da ideia de combinar letras e traços, frases e manchas, para assim montar um painel da vida e das histórias que rondam as ruas, praças, avenidas. O Ladeira nasceu de uma parceria com um artista plástico, amigo dos tempos de Almap, o Campioni. Um trabalho de dupla, como o da publicidade, só que agora na literatura. Uma linha do tempo literária, abordando temas do dia a dia.
Agora estou baseado na minha cidade do coração, integrando o time do Cine Foto Clube Ribeirão, resgatando a fotografia, paixão de adolescente. Uma paixão que me fazia passar madrugadas revelando negativos, ampliando fotos no laboratório montado em meu próprio quarto, com bandejas de revelador, fixador, que muitas vezes, por descuidos do sono, eram despejadas no chão – uma meleca total e inesquecível.
Agora estou lançando livros do Ladeira. Lançando livros pela minha editora, de amigos, como o de memórias do Duarte Nogueira pai, ou de Nicola Tornatore, lone Buyst e muitos outros.
No fundo, criar é mesmo minha paixão. Criar anúncios, comerciais, criar eventos, exposições, histórias, textos, livros, filhos – certamente a maior paixão de todas –, sejam gerados pela minha coautoria, sejam agregados por contribuição divina. E tudo isso acaba virando histórias nas linhas da literatura. A literatura, como soro de vida, nutre a mente, nutre a alma.”