Paixão que vem desde a infância

Paixão que vem desde a infância

Uma ária em um desenho animado despertou a vocação artística no menino Reginaldo Nascimento, que cresceu músico em Belo Horizonte, chegou violinista a Ribeirão Preto e hoje é maestro titular

"Ser maestro? Eu nunca tinha pensado. Mas daquele incômodo gostoso – acho que é esse o sentimento – que, de repente, surge na gente querendo falar alguma coisa eu me lembro bem. Era criança e estava de frente para a TV com um desenho animado daquele cachorrinho, Snoopy, que ocupou a infância de muita gente. E foi naquele momento, por volta de meus 5 anos de idade, que ouvi, pela primeira vez, a melodia da ária “O Mio Babbino Caro”, da ópera “Gianni Schichi”, do compositor italiano Giácomo Puccini. Me apaixonei pela música. E o incômodo gostoso me levou a ingressar na orquestra da igreja, ainda em Belo Horizonte (MG), onde nasci. Foi aí que comecei a estudar violino, ainda na cidade natal.

 

Em 1993, cheguei a Ribeirão Preto, onde me formei em Música pela USP (Universidade de São Paulo). Fiquei sabendo que havia audições para novos músicos aqui na Sinfônica de Ribeirão Preto e vim. Comecei como violinista. Eu nunca tinha ouvido falar da cidade, só da orquestra. A sensação foi uma surpresa agradável. Uma cidade bonita e hospitaleira. E à medida que fui desenvolvendo minhas atividades musicais, as oportunidades de dirigir a Sinfônica foram aparecendo.

 

Minha primeira experiência na regência foi como maestro assistente, em 2011. Desde 2019 estou como maestro titular. Já regi na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos – destaque para Filarmônica de Murmansk (Rússia), a MAV Symphony (Hungria), Radom Orkiestra Kameralna (Polônia), Sonoma County Philarmonic e Lousiana Chamber Orchestra (ambas EUA) – e acabei sendo envolvido por isso. E me apaixonei pela profissão!

 

Conduzir uma orquestra com seus 100 anos de história é uma responsabilidade enorme. Mas eu digo que quanto maior a responsabilidade, maior o trabalho, maior precisa ser o envolvimento e o comprometimento. Porém, maior é a sensação de que estamos cumprindo nossa função social com algo que amamos. Afinal, a gente tem de entregar à cidade aquilo que a orquestra simboliza e temos de surpreender nossos públicos, porque este é o papel da música.

 

Além disso, a Sinfônica tem algo de especial. É uma orquestra de interior que faz um trabalho inclusivo, humano e transformador, que é ensinar música para crianças, jovens e adultos pelo projeto Tocando a Vida. Mais de 1.500 alunos estão aprendendo a tocar um instrumento musical ou cantar em sete núcleos, na periferia da cidade e na nossa sede, com aulas gratuitas. Muitos jamais pisaram em um teatro e nem conhecem os teatros da cidade. É assim que a Sinfônica de Ribeirão enfrenta o desafio de formar plateia. Uma vez na plateia, seja quem for, conheça ou não o universo dos concertos ou óperas, não há quem não se emocione. Por isso, outro desafio nosso é ser uma orquestra eclética. Se é para conquistar o público, temos em nosso repertório concertos, sinfonias, óperas, rock, temas de filmes e vamos da MPB ao sertanejo.

 

Em 2023, a orquestra recebeu o prêmio PNBE de Cidadania, em votação unânime pelo júri do Pensamento Nacional das Bases Empresariais que reconheceu a importância do projeto social “Tocando a Vida” no quesito educação. E o público pode ver muitos desses jovens no coro e entre os instrumentistas da orquestra.

 

INCLUSIVA

 

Para quem não sabe, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto não é uma instituição pública. Ela é mantida com mensalidade de sócios, que pagam um valor por mês e têm acesso aos concertos, além de recursos de empresas que aliam suas marcas ao nosso patrimônio. Nos apresentamos em teatros, em Ribeirão Preto e em várias outras cidades, mas também vamos aonde o público está – em parques, praças, templos religiosos e onde tiver um espaço para nossa música.

 

A Sinfônica de Ribeirão é uma orquestra inclusiva – este é meu maior desafio como maestro. Música não é algo impalpável. Música estimula o cérebro, a criatividade, evoca emoções, traduz sentimentos, conta a história dos povos, do mundo, da vida e é transformadora."

 

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