“Quando comecei eu sentia muito medo"

“Quando comecei eu sentia muito medo"

Formado em Filosofia, Teologia e Administração de Empresas, Francisco Jaber Zanardo Moussa — o padre Chico — também se especializou em Gestão Empresarial

"Sempre soube que seria desafiador. Quando comecei na Catedral, a visão excludente era muito forte. Ainda é bastante presente dentro da igreja. Eram apenas 48 voluntários. Hoje tenho cerca de 220 pessoas ajudando.

 

Foram necessárias muitas mudanças para que a igreja se tornasse mais acolhedora. Inicialmente, quando formei o grupo de casais de segunda união, havia um preconceito muito grande a esse respeito. Também uma resistência aos adolescentes e às crianças, por ser uma igreja um pouco mais tradicional, mais idosa. Comecei a dar essa abertura e fui muito perseguido na época. Consegui formar um bom grupo de casais de segunda união e, com o tempo, claro, eles foram se organizando e se casando também. Acolher os casais de segunda união não é ferir os valores da família, mas dar oportunidade e espaço para aqueles que estão tentando conduzir a família, só que de outra forma. Por que eles não podem tentar novamente, se existe amor?

 

A minha urgência inicial foi revitalizar o patrimônio humano. Agora, entrei nessa luta para preservar o patrimônio imóvel, que também acolhe as pessoas. A urgência, neste momento, é revitalizar o estrutural, o prédio e o conjunto arquitetônico da igreja. Com a ajuda da Comissão nomeada pelo bispo, estamos conseguindo os recursos e tenho fé de que faremos a reforma.

 

Coragem e fé 

 

Embora todos achassem que não, quando comecei eu sentia muito medo. Quando assumi, já sabia o que iria enfrentar. Justamente pela dificuldade de mudar essa mentalidade não acolhedora. Também por ser uma igreja que, digamos assim, ora tem público, ora não tem, ora tem pessoas ajudando, ora não tem. Eu já sabia um pouco sobre esse desafio de lidar com uma igreja que fica no centro de uma grande metrópole, ou seja, uma igreja de visibilidade.

 

Apesar do medo inicial, sempre fui muito corajoso para enfrentar os desafios da Catedral. A todo momento, preciso estar atento a tudo, a todos os imprevistos que aparecem. Também preciso estar atento à Diocese, porque eu respondo a ela, ao bispo. Ele representa a igreja, então a responsabilidade dele é maior.

 

A Catedral é uma igreja histórica, de importância. Isso sempre gera um certo medo.

 

Maturidade espiritual

 

Para mim, os obstáculos mais difíceis foram o medo e a timidez, que também me ajudaram. Todos os desafios ajudam a amadurecer e a enfrentar esses medos de uma outra maneira. Agora, sinto ter coragem para enfrentar qualquer missão. A gente também não é perfeito, a gente erra. Em algumas decisões, acabei criticado, mas quando a crítica é justa, ela se faz necessária, pois ensina, sendo um instrumento de maturidade e fortalecimento espiritual. A gente vai se enriquecendo cada vez mais.



Foi um grande desafio assumir uma posição de liderança e encarar de frente questões sociais tão profundas, como a das pessoas em situação de rua. Logo que iniciei meu trabalho na Catedral, cheguei a atender entre 120 e 180 pessoas nessa condição. Montamos um espaço de acolhimento ao lado da Igreja São Benedito, onde essas pessoas, frequentemente invisibilizadas pela sociedade, podiam encontrar apoio verdadeiro. Elas levavam materiais recicláveis — o que não apenas lhes dava uma ocupação digna, mas também contribuía para a limpeza urbana. Em troca, oferecíamos alimentação, alfabetização, inclusão digital, cuidados de higiene, corte de cabelo, barba. Foi um período intenso, sustentado por uma equipe comprometida e sensível.

 

As pessoas em situação de rua não precisam de julgamento, rejeição ou violência. Elas precisam de acolhimento, de uma rede de apoio que lhes devolva a dignidade e a esperança. São seres humanos que carregam histórias, traumas e uma imensa necessidade de escuta, cuidado e oportunidade. O trabalho com elas é um chamado à empatia e à responsabilidade social. Todos podemos observar de outro ângulo, com mais humanidade, e contribuir com o poder público na consolidação de políticas públicas efetivas para este grave problema social."

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